Contra Celso - Livro VI 2

Filosofia grega, Platão e o conhecimento de Deus

Ele continua em seguida: "Você como Platão, embora sustente que (o bem supremo) não pode ser descrito em palavras, ainda assim, para evitar a aparência de recuar a uma posição irrefutável, acrescenta uma razão para explicar essa dificuldade, que até 'o nada' talvez pudesse ser explicado em palavras." Mas como Celso traz isto para provar que não devemos dar um simples assentimento, mas apresentar uma razão para a nossa crença, citaremos também as palavras de Paulo, onde ele diz, censurando o que crê apressadamente: "a menos que tenhais crido inconsideradamente." Ora, pela sua prática de se repetir, Celso, na medida do que pode, nos força a sermos culpados de tautologia, reiterando, depois da linguagem jactanciosa que foi citada, que Platão não é culpado de jactância e falsidade, dando a entender que fez alguma nova descoberta, ou que desceu do céu para anunciá-la, mas reconhece de onde essas afirmações são derivadas. Ora, se alguém quisesse responder a Celso, poderia dizer em resposta a tais afirmações que até Platão é culpado de jactância, quando no Timeu põe a seguinte linguagem na boca de Zeus: "Deuses dos deuses, de quem eu sou criador e pai", e assim por diante. E se alguém defender tal linguagem em razão do sentido que se transmite sob o nome de Zeus, falando assim no diálogo de Platão, por que aquele que investiga o sentido das palavras do Filho de Deus, ou as do Criador nos profetas, não haveria de exprimir um sentido mais profundo do que qualquer um transmitido pelas palavras de Zeus no Timeu? Pois o que é característico da divindade é o anúncio de eventos futuros, predito não por poder humano, mas mostrado pelo resultado dever-se a um espírito divino naquele que fez o anúncio. Por isso, não dizemos a cada um dos nossos ouvintes: "Creia, antes de tudo, que aquele que eu lhe apresento é o Filho de Deus"; mas pomos o Evangelho diante de cada um, conforme o caráter e a disposição que o tornem apto a recebê-lo, visto que aprendemos a saber como devemos responder a cada homem. E alguns que são capazes de receber nada mais do que uma exortação a crer, e a esses dirigimos isso; enquanto a outros nos aproximamos, de novo, na medida do possível, pela via da demonstração, por meio de pergunta e resposta. Tampouco dizemos de modo algum, como Celso zombeteiramente alega: "Creia que aquele que eu lhe apresento é o Filho de Deus, embora tenha sido vergonhosamente amarrado, e desonrosamente punido, e muito recentemente tratado da maneira mais ultrajante diante dos olhos de todos os homens"; nem acrescentamos: "Creia ainda mais (por causa disso)." Pois nosso empenho é apresentar, sobre cada ponto particular, argumentos ainda mais numerosos do que os que trouxemos nas páginas anteriores.
Depois disto Celso continua: "Se estes (referindo-se aos cristãos) apresentam esta pessoa, e outros, por sua vez, um indivíduo diferente (como o Cristo), enquanto o grito comum e pronto de todos os partidos é 'Creia, se quiser ser salvo, ou então embora', que farão aqueles que estão a sério quanto à sua salvação? Lançarão os dados, a fim de adivinhar para onde se dirigir, e a quem se unir?" Ora, responderemos a esta objeção da maneira seguinte, conforme a clareza do caso nos impele a fazer. Se estivesse registrado que vários indivíduos haviam aparecido na vida humana como filhos de Deus do modo como Jesus apareceu, e se cada um deles tivesse atraído um grupo de aderentes para o seu lado, de modo que, por causa da semelhança da pretensão (no caso de cada indivíduo) de ser o Filho de Deus, aquele a quem seus seguidores davam testemunho nesse sentido fosse objeto de disputa, então haveria fundamento para ele dizer: "Se estes apresentam esta pessoa, e outros um indivíduo diferente, enquanto o grito comum e pronto de todos os partidos é 'Creia, se quiser ser salvo, ou então embora'", e assim por diante. Ao passo que foi proclamado ao mundo inteiro que Jesus Cristo é o único Filho de Deus que visitou o gênero humano. Pois aqueles que, como Celso, supuseram que (os atos de Jesus) foram uma série de prodígios, e que por essa razão quiseram realizar atos do mesmo tipo, para que também eles ganhassem domínio semelhante sobre as mentes dos homens, foram convictos de serem absolutas nulidades. Tais foram Simão, o Mago de Samaria, e Dositeu, que era natural do mesmo lugar; que o primeiro dava a entender que era o poder de Deus que se chama grande, e o segundo que era o Filho de Deus. Ora, simonianos não se encontram em parte alguma do mundo; e, no entanto, a fim de ganhar muitos seguidores para si, Simão livrava seus discípulos do perigo da morte, que os cristãos eram ensinados a preferir, ensinando-os a considerar a idolatria como coisa indiferente. Mas, mesmo no começo de sua existência, os seguidores de Simão não estavam expostos a perseguição. Pois aquele demônio perverso que conspirava contra a doutrina de Jesus sabia muito bem que nenhuma de suas próprias máximas seria enfraquecida pelo ensino de Simão. Os dositeanos, por sua vez, mesmo em tempos passados, não chegaram a qualquer destaque, e agora estão completamente extintos, a ponto de se dizer que o número total deles não chega a trinta. Judas da Galileia também, como Lucas relata nos Atos dos Apóstolos, quis dar-se por algum personagem importante, como Teudas fizera antes dele; mas, como sua doutrina não era de Deus, foram destruídos, e todos os que lhes obedeceram foram imediatamente dispersos. Não lançamos, então, os dados a fim de adivinhar para onde nos dirigir, e a quem nos unir, como se houvesse muitos pretendentes capazes de nos arrastar atrás deles pela pretensão de terem descido de Deus para visitar o gênero humano. Sobre esses pontos, no entanto, dissemos o suficiente.
Passemos, então, a outra acusação feita por Celso, que nem sequer está familiarizado com as palavras (dos nossos livros sagrados), mas que, por entendê-las mal, disse que declaramos ser loucura diante de Deus a sabedoria que entre os homens; tendo Paulo dito que a sabedoria do mundo é loucura diante de Deus. Celso diz que a razão disto foi exposta muito tempo. E a razão que ele imagina é o nosso desejo de ganhar, por meio desta máxima, apenas os ignorantes e tolos. Mas, como ele próprio deu a entender, disse a mesma coisa antes; e nós, na medida da nossa capacidade, respondemos a isso. Não obstante, no entanto, ele quis mostrar que esta afirmação era uma invenção nossa, tomada de empréstimo dos sábios gregos, que declaram que a sabedoria humana é de um tipo, e a divina de outro. E ele cita as palavras de Heráclito, onde diz numa passagem que o modo de agir do homem não é regido por princípios fixos, mas o de Deus é; e noutra, que um homem tolo ouvidos a um demônio, como um menino a um homem. Ele cita, além disso, o seguinte trecho da Apologia de Sócrates, de que Platão foi o autor: "Pois eu, ó homens de Atenas, obtive este nome por nenhum outro meio senão por minha sabedoria. E de que espécie é esta sabedoria? Tal, provavelmente, como a que é humana; pois nesse aspecto me atrevo a pensar que sou de fato sábio." Tais são as passagens aduzidas por Celso. Mas acrescentarei também o seguinte trecho da carta de Platão a Hérmias, e Erasto, e Corisco: "A Erasto e Corisco digo, embora eu seja um homem velho, que, além deste nobre conhecimento das 'formas' (que possuem), eles precisam de uma sabedoria, a respeito da classe das pessoas perversas e injustas, que sirva de força protetora e repelente contra elas. Pois são inexperientes, em consequência de terem passado grande parte de suas vidas conosco, que somos indivíduos moderados, e não perversos. Disse, portanto, que precisam dessas coisas, para que não sejam compelidos a negligenciar a verdadeira sabedoria, e a se aplicar em grau maior do que o devido àquilo que é necessário e humano."
Segundo o que precede, então, uma espécie de sabedoria é humana, e a outra divina. Ora, a sabedoria humana é a que por nós é chamada de sabedoria do mundo, que é loucura diante de Deus; ao passo que a divina, sendo diferente da humana por ser divina, vem, pela graça de Deus que a concede, àqueles que mostraram sua capacidade de recebê-la, e especialmente àqueles que, por conhecerem a diferença entre uma e outra espécie de sabedoria, dizem, em suas orações a Deus: "Mesmo que alguém dentre os filhos dos homens seja perfeito, se lhe falta a sabedoria que vem de ti, será tido por nada." Sustentamos, de fato, que a sabedoria humana é um exercício para a alma, mas que a sabedoria divina é o fim, sendo também chamada de alimento sólido da alma por aquele que disse que o alimento sólido pertence aos perfeitos, mesmo aqueles que, pelo uso, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem quanto o mal. Esta opinião, além disso, é verdadeiramente antiga, sua antiguidade não remontando, como Celso pensa, apenas a Heráclito e Platão. Pois antes que esses indivíduos vivessem, os profetas distinguiam entre as duas espécies de sabedoria. Basta, no momento, citar das palavras de Davi o que ele diz a respeito do homem que é sábio segundo a sabedoria divina, que ele não verá corrupção quando contemplar os sábios morrendo. A sabedoria divina, portanto, sendo diferente da fé, é o primeiro dos chamados carismas de Deus; e o segundo depois dela (na estimativa daqueles que sabem distinguir tais coisas com precisão) é o que se chama conhecimento; e o terceiro (visto que mesmo a classe mais simples de homens que aderem ao serviço de Deus, na medida do que podem, deve ser salva) é a fé. E por isso Paulo diz: "A um é dada, pelo Espírito, a palavra da sabedoria; a outro, a palavra do conhecimento, pelo mesmo Espírito; a outro, a fé, pelo mesmo Espírito." E por isso não são indivíduos comuns os que você encontrará terem participado da sabedoria divina, mas os mais excelentes e distintos entre aqueles que aderiram ao cristianismo; pois não é com os mais ignorantes, ou servis, ou menos instruídos dos homens que se discorreria sobre os tópicos relativos à sabedoria divina.
Ao designar os outros com os epítetos de não instruídos, e servis, e ignorantes, Celso, suponho, quer dizer aqueles que não estão familiarizados com suas leis, nem treinados nos ramos do saber grego; enquanto nós, por outro lado, julgamos não instruídos aqueles que não têm vergonha de dirigir (súplicas) a objetos inanimados, e de invocar por saúde os que não têm força alguma, e de pedir vida aos mortos, e de implorar auxílio aos que não podem ajudar. E embora alguns possam dizer que esses objetos não são deuses, mas apenas imitações e símbolos de divindades reais, ainda assim esses próprios indivíduos, ao imaginar que as mãos de artesãos comuns podem moldar imitações da divindade, são não instruídos, e servis, e ignorantes; pois afirmamos que os mais humildes dentre nós foram libertados dessa ignorância e falta de conhecimento, enquanto os mais inteligentes podem entender e apreender a esperança divina. Não sustentamos, no entanto, que seja impossível àquele que não foi treinado na sabedoria terrena receber a divina, mas reconhecemos que toda sabedoria humana é loucura em comparação com a divina. Em seguida, em vez de procurar aduzir razões, como deveria, para suas afirmações, ele nos chama de feiticeiros, e afirma que fugimos a toda velocidade da classe mais culta de pessoas, porque elas não são alvos adequados para nossas imposturas, enquanto buscamos atrair os que são mais rústicos. Ora, ele não observou que, desde o começo, nossos sábios foram treinados nos ramos externos do saber: Moisés, por exemplo, em toda a sabedoria dos egípcios; Daniel, e Ananias, e Azarias, e Misael, em todo o saber assírio, de modo que se verificou superarem em grau dez vezes maior todos os sábios daquele país. No tempo presente, além disso, as Igrejas têm, em proporção às multidões (de crentes comuns), alguns poucos homens sábios, que vieram para elas daquela sabedoria que por nós é dita ser segundo a carne; e têm também alguns que avançaram dela para aquela sabedoria que é divina.
Celso, em seguida, como quem ouviu o tema da humildade muito falado, mas que não se deu ao trabalho de entendê-lo, quereria falar mal daquela humildade que se pratica entre nós, e imagina que ela é tomada de empréstimo de algumas palavras de Platão mal compreendidas, onde ele se expressa nas Leis assim: "Ora, Deus, segundo o antigo relato, tendo em si mesmo o princípio, o fim e o meio de todas as coisas existentes, procede segundo a natureza e marcha em frente. É constantemente seguido pela justiça, que é a vingadora de todas as transgressões da lei divina; aquele que está prestes a tornar-se feliz a segue de perto em humildade, e convenientemente adornado." Ele não observou, no entanto, que em escritores muito mais antigos que Platão ocorrem as seguintes palavras numa oração: "Senhor, o meu coração não é soberbo, nem os meus olhos altivos; não ando em grandezas, nem em coisas demasiado maravilhosas para mim; se eu não fosse humilde", e assim por diante. Ora, essas palavras mostram que aquele que é de mente humilde não se humilha de modo algum de maneira indecorosa ou de mau agouro, caindo de joelhos, ou lançando-se de cabeça ao chão, vestindo a roupa dos miseráveis, ou aspergindo-se de pó. Mas aquele que é de mente humilde no sentido do profeta, embora ande em coisas grandes e maravilhosas, que estão acima de sua capacidade (a saber, aquelas doutrinas que são verdadeiramente grandes, e aqueles pensamentos que são maravilhosos), humilha-se sob a poderosa mão de Deus. Se alguns, no entanto, que por sua estupidez não entenderam claramente a doutrina da humilhação, e agem como agem, não é a nossa doutrina que deve ser culpada; mas devemos estender nosso perdão à estupidez daqueles que almejam coisas mais elevadas, e por causa da fatuidade de sua mente deixam de alcançá-las. Aquele que é humilde e convenientemente adornado o é em grau maior do que o indivíduo humilde e convenientemente adornado de Platão; pois é convenientemente adornado, por um lado, porque anda em coisas grandes e maravilhosas, que estão além de sua capacidade; e humilde, por outro lado, porque, estando no meio de tais coisas, ainda assim voluntariamente se humilha, não sob qualquer um ao acaso, mas sob a poderosa mão de Deus, por meio de Jesus Cristo, o mestre de tal ensino, que não considerou a igualdade com Deus algo a que se apegar avidamente, mas esvaziou-se a si mesmo, e tomou a forma de servo, e, achado em figura como homem, humilhou-se a si mesmo, e tornou-se obediente até a morte, e morte de cruz. E tão grande é esta doutrina da humilhação que ela não tem indivíduo comum por mestre; mas o nosso próprio grande Salvador diz: "Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para as vossas almas."
Em seguida, a respeito da declaração de Jesus contra os ricos, quando disse: mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus", Celso alega que esta máxima manifestamente procedeu de Platão, e que Jesus perverteu as palavras do filósofo, que eram que é impossível distinguir-se ao mesmo tempo pela bondade e pela riqueza. Ora, quem é que, sendo capaz de dar atenção sequer moderada às coisas (não apenas entre os que creem em Jesus, mas entre o resto da humanidade), não riria de Celso ao ouvir que Jesus, que nasceu e foi criado entre os judeus, e que se supunha ser filho de José o carpinteiro, e que não havia estudado letras (não apenas as dos gregos, mas nem mesmo as dos hebreus), como as Escrituras amantes da verdade testemunham a seu respeito, havia lido Platão, e, agradado com a opinião que ele expressou a respeito dos ricos, no sentido de que é impossível distinguir-se ao mesmo tempo pela bondade e pela riqueza, a havia pervertido, e a havia mudado para: mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus"! Ora, se Celso não tivesse percorrido os Evangelhos num espírito de ódio e desgosto, mas estivesse imbuído de amor à verdade, teria voltado sua atenção para o ponto: por que um camelo (aquele dentre os animais que, quanto à sua estrutura física, é curvado) foi escolhido como objeto de comparação com um homem rico, e que significação tinha o estreito fundo de uma agulha para aquele que viu que apertado e estreito era o caminho que conduz à vida; e também para este ponto, que esse animal, segundo a lei, é descrito como imundo, tendo um elemento de aceitação, a saber, que rumina, mas um de condenação, a saber, que não tem casco fendido. Ele teria indagado, além disso, quantas vezes o camelo foi aduzido como objeto de comparação nas sagradas Escrituras, e em referência a que objetos, para assim averiguar o sentido do Logos a respeito dos ricos. Tampouco teria deixado sem exame o fato de que os pobres são chamados bem-aventurados por Jesus, enquanto os ricos são designados como infelizes; e se essas palavras se referem aos ricos e pobres que são visíveis aos sentidos, ou se algum tipo de pobreza conhecida pelo Logos que deva ser considerada totalmente bem-aventurada, e algum homem rico que deva ser inteiramente condenado. Pois mesmo um indivíduo comum não teria assim, sem distinção, louvado os pobres, muitos dos quais levam vidas das mais perversas. Mas sobre este ponto dissemos o suficiente.
Visto que Celso, além disso, por desejo de depreciar os relatos que nossas Escrituras dão do reino de Deus, não citou nenhum deles, como se fossem indignos de ser registrados por ele (ou talvez porque não os conhecia), enquanto, por outro lado, cita as máximas de Platão, tanto de suas Epístolas quanto do Fedro, como se estas fossem divinamente inspiradas, mas nossas Escrituras não, exponhamos alguns pontos, para efeito de comparação com essas plausíveis declarações de Platão, que não dispuseram, no entanto, o filósofo a adorar de maneira digna dele o Criador de todas as coisas. Pois ele não deveria ter adulterado ou poluído esse culto com o que chamamos idolatria, mas que a maioria descreveria com o termo superstição. Ora, segundo uma figura de linguagem hebraica, diz-se de Deus no Salmo dezoito que ele fez das trevas o seu esconderijo, para significar que aquelas noções que se devem dignamente ter de Deus são invisíveis e incognoscíveis, porque Deus se oculta nas trevas, por assim dizer, daqueles que não podem suportar os esplendores do seu conhecimento, ou são incapazes de olhar para eles, em parte por causa da poluição do seu entendimento, que está revestido do corpo da baixeza mortal, e em parte por causa do seu poder mais fraco de compreender a Deus. E para que apareça que o conhecimento de Deus raramente foi concedido aos homens, e se encontrou em pouquíssimos indivíduos, relata-se que Moisés entrou nas trevas onde Deus estava. E ainda, a respeito de Moisés, diz-se: "Só Moisés se aproximará do Senhor, mas os outros não se aproximarão." E ainda, para que o profeta possa mostrar a profundidade das doutrinas que se referem a Deus, e que é inatingível por aqueles que não possuem o Espírito que tudo perscruta, até as profundezas de Deus, ele acrescentou: "O abismo, como uma veste, é a sua cobertura." Mais ainda, o nosso Senhor e Salvador, o Logos de Deus, manifestando que a grandeza do conhecimento do Pai é apropriadamente compreendida e conhecida de modo preeminente por ele, e em segundo lugar por aqueles cujas mentes são iluminadas pelo próprio Logos e Deus, declara: "Ninguém conhece o Filho senão o Pai; nem ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar." Pois ninguém pode conhecer dignamente o incriado e primogênito de toda a natureza criada como o Pai que o gerou, nem ninguém conhecer o Pai como o vivente Logos, e a sua Sabedoria e Verdade. Ao participar daquele que tira do Pai o que se chama trevas, que ele fez o seu esconderijo, e o abismo, que se chama a sua cobertura, e desvendando assim o Pai, todo aquele que é capaz de conhecê-lo conhece o Pai.
Achei certo citar esses poucos exemplos de um número muito maior de passagens, nas quais nossos escritores sagrados exprimem suas ideias a respeito de Deus, a fim de mostrar que, para aqueles que têm olhos para contemplar o caráter venerável da Escritura, os escritos sagrados dos profetas contêm coisas mais dignas de reverência do que aquelas máximas de Platão que Celso admira. Ora, a declaração de Platão, citada por Celso, é a seguinte: "Todas as coisas estão em torno do Rei de tudo, e todas as coisas existem por causa dele, e ele é a causa de todas as coisas boas. Com as coisas de segunda ordem ele é o segundo, e com as de terceira ordem ele é o terceiro. A alma humana, por conseguinte, está ávida por aprender o que são essas coisas, olhando para tais coisas que lhe são afins, nenhuma das quais é perfeita. Mas, quanto ao Rei e àquelas coisas que mencionei, não nada que se lhes assemelhe." Eu poderia ter mencionado, além disso, o que se diz daqueles seres chamados serafins pelos hebreus, e descritos em Isaías, que cobrem a face e os pés de Deus, e daqueles chamados querubins, que Ezequiel descreveu, e as posturas destes, e da maneira como se diz que Deus é transportado sobre os querubins. Mas, como são mencionados de modo muito misterioso, por causa dos indignos e dos indecentes, que são incapazes de entrar nos grandes pensamentos e na natureza venerável da teologia, não julguei conveniente discorrer sobre eles neste tratado.