Contra Celso - Livro VI 1
Filosofia grega, Platão e o conhecimento de Deus
Em seguida, depois de outras declarações platônicas que demonstram que o bem pode ser conhecido por poucos, ele acrescenta: "Visto que a multidão, inchada por um desprezo pelos outros que está longe de ser correto, e cheia de esperanças vãs e altivas, afirma que, por terem chegado ao conhecimento de algumas doutrinas veneráveis, certas coisas são verdadeiras. Contudo, embora Platão predissesse essas coisas, ainda assim ele não conta maravilhas, nem fecha a boca daqueles que desejam pedir-lhe informação sobre o assunto de suas promessas; nem lhes ordena que venham de uma vez e creiam que existe um Deus de tipo particular, e que ele tem um filho de natureza particular, que desceu (à terra) e conversou comigo." Ora, em resposta a isto temos a dizer que, a respeito de Platão, é Aristandro, creio eu, quem relatou que ele não era filho de Aríston, mas de um fantasma, que se aproximou de Anfictíone na aparência de Apolo. E há vários outros seguidores de Platão que, nas biografias de seu mestre, fizeram a mesma afirmação. Que diremos, além disso, sobre Pitágoras, que relata a maior quantidade possível de maravilhas, e que, numa assembleia geral dos gregos, mostrou sua coxa de marfim, e afirmou que reconheceu o escudo que usava quando era Euforbo, e de quem se diz ter aparecido num só dia em duas cidades diferentes! Ele, além disso, que vier a declarar que o que se relata de Platão e Sócrates pertence ao maravilhoso, citará a história do cisne que foi recomendado a Sócrates enquanto ele dormia, e do mestre dizendo, ao encontrar o jovem: "Este, então, era o cisne!" Mais ainda, o terceiro olho que Platão viu possuir, ele o atribuirá à categoria dos prodígios. Mas ocasião para acusações caluniosas nunca faltará àqueles que são mal-intencionados, e que desejam falar mal do que aconteceu a tais que se elevam acima da multidão. Tais pessoas hão de ridicularizar como ficção até o demônio de Sócrates. Não relatamos, então, maravilhas quando narramos a história de Jesus, nem seus genuínos discípulos registraram dele tais histórias; ao passo que este Celso, que se diz dono de conhecimento universal, e que cita muitas das máximas de Platão, está, penso eu, intencionalmente calado quanto ao discurso sobre o Filho de Deus que se relata na Epístola de Platão a Hérmias e Corisco. As palavras de Platão são as seguintes: "E tomando por testemunha o Deus de todas as coisas, o governante tanto das coisas presentes quanto das futuras, pai e senhor tanto do governante quanto da causa; a quem, se de fato somos filósofos, todos nós claramente conheceremos, na medida em que é possível a felizes seres humanos alcançar tal conhecimento."