Contra Celso - Livro VI 7
Filosofia grega, Platão e o conhecimento de Deus
Passagens, de fato, poderiam ser encontradas onde (bens) corporais e externos são chamados de bem de modo impróprio, ou seja, aquelas coisas que contribuem para a vida natural, enquanto as que fazem o contrário são chamadas de mal. É nesse sentido que Jó diz à sua mulher: "Se recebemos o bem da mão do Senhor, não receberemos também o mal?" Já que, então, se encontra nas sagradas Escrituras, em certa passagem, esta afirmação posta na boca de Deus, "Eu faço a paz e crio o mal", e ainda outra, onde se diz dele que "o mal desceu do Senhor à porta de Jerusalém, o ruído de carros e de cavaleiros" (passagens que perturbaram muitos leitores da Escritura, que são incapazes de ver o que a Escritura quer dizer com bem e mal), é provável que Celso, sentindo-se perplexo com isso, tenha proferido a pergunta: como é que Deus criou o mal? Ou, talvez, tendo ouvido alguém discutir os assuntos a ela relativos de modo ignorante, tenha feito esta afirmação que notamos. Nós, por outro lado, sustentamos que o mal, ou a maldade, e as ações que dela procedem, não foram criados por Deus. Pois, se Deus criou aquilo que é realmente mal, como teria sido possível que a proclamação a respeito do (último) juízo fosse anunciada com confiança, a qual nos informa que os maus serão punidos por seus feitos malignos em proporção à quantidade de sua maldade, enquanto os que viveram uma vida virtuosa, ou realizaram ações virtuosas, desfrutarão da bem-aventurança e receberão recompensas de Deus? Estou bem ciente de que os que ousadamente afirmam que esses males foram criados por Deus citarão certas expressões da Escritura (em seu apoio), porque não somos capazes de mostrar uma série coerente e única de passagens. Pois, embora a Escritura (em geral) censure os maus e aprove os justos, ela contém, no entanto, algumas afirmações que, ainda que comparativamente poucas em número, parecem perturbar as mentes dos leitores ignorantes da Escritura santa. Não julguei, no entanto, apropriado ao meu presente tratado citar na presente ocasião aquelas afirmações discordantes, que são muitas em número, e suas explicações, que exigiriam uma longa série de provas. Os males, então, se forem entendidos os que propriamente assim se chamam, não foram criados por Deus. Mas alguns, embora poucos em comparação com a ordem do mundo inteiro, resultaram de suas obras principais, assim como, das obras principais do carpinteiro, seguem-se coisas como aparas em espiral e serragem, ou como os arquitetos poderiam parecer ser a causa do entulho que jaz ao redor de suas construções, na forma da sujeira que cai das pedras e do reboco.
Se falarmos, no entanto, do que se chama de males corporais e externos (que assim são chamados de modo impróprio), então pode-se admitir que há ocasiões em que alguns deles foram chamados à existência por Deus, a fim de que, por meio deles, se efetuasse a conversão de certos indivíduos. E que absurdo decorreria de tal proceder? Pois, assim como, se ouvíssemos chamar de modo impróprio de males aqueles sofrimentos que são infligidos por pais, e instrutores, e pedagogos sobre os que estão sob seus cuidados, ou sobre pacientes que são operados ou cauterizados pelos cirurgiões a fim de obter cura, e disséssemos que um pai estava maltratando o filho, ou que pedagogos e instrutores maltratavam seus pupilos, ou médicos seus pacientes, nenhuma culpa recairia sobre os que operam ou castigam; assim, do mesmo modo, se se diz que Deus traz sobre os homens tais males para a conversão e cura dos que precisam dessa disciplina, não haveria absurdo nessa visão, nem o mal desceria do Senhor sobre as portas de Jerusalém (males que consistem nos castigos infligidos aos israelitas por seus inimigos com vistas à sua conversão); nem se visitaria com vara as transgressões dos que abandonam a lei do Senhor, e suas iniquidades com açoites; nem se poderia dizer: "Tens brasas de fogo para pôr sobre eles; elas te serão uma ajuda." Do mesmo modo também explicamos as expressões "Eu, que faço a paz e crio o mal". Pois ele chama à existência males corporais ou externos, ao purificar e treinar os que não se deixariam disciplinar pela palavra e pela sã doutrina. Esta, então, é a nossa resposta à pergunta: como é que Deus criou o mal?
Quanto à pergunta "como é que ele é incapaz de persuadir e admoestar os homens?", já foi afirmado que, se tal objeção fosse realmente um fundamento de acusação, então a objeção de Celso poderia ser levantada contra os que aceitam a doutrina da providência. Qualquer um poderia responder à acusação de que Deus é incapaz de admoestar os homens. Pois ele transmite suas admoestações ao longo de toda a Escritura, e por meio daquelas pessoas que, por graciosa designação de Deus, são os instrutores dos seus ouvintes. A menos, de fato, que se entenda algum sentido peculiar ligado à palavra admoestar, como se ela significasse ao mesmo tempo penetrar na mente da pessoa admoestada e fazê-la ouvir as palavras do seu instrutor, o que é contrário ao sentido habitual da palavra. À objeção "como é que ele é incapaz de persuadir?" (que também poderia ser levantada contra todos os que creem na providência), temos a fazer as seguintes observações. Já que a expressão ser persuadido pertence àquelas palavras que se chamam, por assim dizer, recíprocas (compare a frase barbear um homem, quando ele faz um esforço para se submeter ao barbeiro), por essa razão é necessário não apenas o esforço de quem persuade, mas também a submissão, por assim dizer, que se deve render ao persuasor, ou a aceitação do que é dito por ele. E, portanto, não se deve dizer que é porque Deus é incapaz de persuadir os homens que eles não são persuadidos, mas porque não querem aceitar as palavras fiéis de Deus. E se alguém aplicasse essa expressão aos homens que são os artífices da persuasão, não estaria errado. Pois é possível que um homem que tenha aprendido a fundo os princípios da retórica, e que os empregue de modo adequado, faça o máximo para persuadir e, ainda assim, pareça fracassar, porque não consegue vencer a vontade daquele que deveria ceder às suas artes persuasivas. Além disso, que a persuasão não vem de Deus, embora palavras persuasivas possam ser proferidas por ele, é ensinado de modo nítido por Paulo, quando diz: "Esta persuasão não vem daquele que vos chama." Tal é também a visão indicada por estas palavras: "Se quiserdes e ouvirdes, comereis o bem da terra; mas se recusardes e vos rebelardes, a espada vos devorará." Pois, para que alguém possa (realmente) desejar o que lhe é dirigido por quem o admoesta, e possa tornar-se digno daquelas promessas de Deus que ouve, é necessário assegurar a vontade do ouvinte e sua inclinação para o que lhe é dirigido. E, portanto, parece-me que no livro de Deuteronômio as seguintes palavras são proferidas com ênfase peculiar: "E agora, ó Israel, que pede de ti o Senhor teu Deus, senão que temas o Senhor teu Deus, e andes em todos os seus caminhos, e o ames, e guardes os seus mandamentos?"
Resta responder à seguinte indagação: e como é que ele se arrepende quando os homens se tornam ingratos e maus, e censura a sua própria obra, e odeia, e ameaça, e destrói a sua própria descendência? Ora, Celso aqui calunia e falsifica o que está escrito no livro de Gênesis com o seguinte teor: "E o Senhor Deus, vendo que a maldade dos homens sobre a terra aumentava, e que cada um, no seu coração, cuidadosamente meditava fazer o mal de contínuo, arrependeu-se de ter feito o homem sobre a terra. E Deus meditou no seu coração e disse: destruirei da face da terra o homem que criei, tanto o homem como o animal, e o réptil, e a ave do céu, porque me arrependo de tê-los feito", citando palavras que não estão escritas na Escritura, como se transmitissem o sentido do que de fato estava escrito. Pois não há nessas palavras menção do arrependimento de Deus, nem de que ele censure e odeie a sua própria obra. E se há a aparência de Deus ameaçar a catástrofe do dilúvio, e assim destruir seus próprios filhos nela, temos a responder que, como a alma do homem é imortal, a suposta ameaça tem por objeto a conversão dos ouvintes, ao passo que a destruição dos homens pelo dilúvio é uma purificação da terra, como certos filósofos gregos de não pouca renome indicaram pela expressão: "Quando os deuses purificam a terra." E a respeito da transferência a Deus daquelas expressões antropopáticas, algumas observações já foram feitas por nós nas páginas anteriores.
Celso, em seguida, suspeitando, ou talvez vendo com clareza suficiente, a resposta que poderia ser dada pelos que defendem a destruição dos homens pelo dilúvio, continua: mas se ele não destrói a sua própria descendência, para onde os leva para fora deste mundo que ele mesmo criou? A isso respondemos que Deus de modo algum remove para fora de todo o mundo, que consiste em céu e terra, aqueles que sofreram a morte pelo dilúvio, mas os remove de uma vida na carne. E, tendo-os libertado de seus corpos, livra-os ao mesmo tempo de uma existência sobre a terra, à qual em muitas partes da Escritura é costume chamar de mundo. No Evangelho segundo João especialmente, podemos com frequência encontrar as regiões da terra chamadas de mundo, como na passagem "Era a verdadeira Luz, que ilumina todo homem que vem ao 'mundo'", como também nesta, "No mundo tereis tribulação; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo". Se, então, entendemos por remover para fora do mundo uma transferência das regiões sobre a terra, não há nada de absurdo na expressão. Se, ao contrário, o sistema de coisas que consiste em céu e terra for chamado de mundo, então os que pereceram no dilúvio de modo algum são removidos para fora do chamado mundo. E, de fato, se levarmos em conta as palavras "Atentando nós não para as coisas que se veem, mas para as que não se veem", e também estas, "Pois as coisas invisíveis dele, desde a criação do mundo, claramente se veem, sendo entendidas por meio das coisas que foram feitas", poderíamos dizer que aquele que habita em meio às coisas invisíveis, e ao que em geral se chama de coisas não vistas, saiu do mundo, tendo o Verbo o removido daqui e o transportado para as regiões celestiais, a fim de contemplar todas as coisas belas.
Mas depois dessa investigação de suas afirmações, como se seu objetivo fosse inchar seu livro com muitas palavras, ele repete, em linguagem diferente, as mesmas acusações que examinamos há pouco, dizendo: de longe a coisa mais tola é a distribuição da criação do mundo ao longo de certos dias, antes que os dias existissem. Pois, como o céu ainda não tinha sido criado, nem o alicerce da terra ainda lançado, nem o sol ainda girando, como poderia haver dias? Ora, que diferença há entre essas palavras e as seguintes: além disso, tomando e olhando essas coisas desde o princípio, não seria absurdo, no primeiro e maior Deus, emitir a ordem "Venha à existência esta (primeira coisa), e esta segunda coisa, e esta (terceira)"; e, depois de realizar tanto no primeiro dia, fazer outro tanto de novo no segundo, e terceiro, e quarto, e quinto, e sexto? Respondemos, na medida de nossa capacidade, a essa objeção contra Deus ordenar que esta primeira, segunda e terceira coisa fossem criadas, quando citamos as palavras "Ele disse, e foi feito; ele ordenou, e todas as coisas ficaram firmes", observando que o Criador imediato, e, por assim dizer, o próprio Fazedor do mundo, foi o Verbo, o Filho de Deus, enquanto o Pai do Verbo, ao ordenar ao seu próprio Filho, o Verbo, que criasse o mundo, é Criador de modo primário. E a respeito da criação da luz no primeiro dia, e do firmamento no segundo, e da reunião das águas que estão debaixo do céu em seus diversos reservatórios no terceiro (fazendo assim a terra brotar aqueles (frutos) que estão sob o controle apenas da natureza), e dos (grandes) luzeiros e estrelas no quarto, e dos animais aquáticos no quinto, e dos animais terrestres e do homem no sexto, tratamos na medida de nossa capacidade em nossas notas sobre o Gênesis, bem como nas páginas anteriores, quando censuramos os que, tomando as palavras em seu sentido aparente, diziam que o tempo de seis dias foi ocupado na criação do mundo, e citamos as palavras: "Estas são as gerações dos céus e da terra quando foram criados, no dia em que o Senhor Deus fez a terra e os céus."
De novo, sem entender o sentido das palavras "E Deus concluiu no sexto dia as suas obras que havia feito, e cessou no sétimo dia de toda a sua obra que havia feito; e Deus abençoou o sétimo dia, e o santificou, porque nele cessou de toda a sua obra que tinha começado a fazer", e imaginando que a expressão "cessou no sétimo dia" fosse a mesma coisa que "descansou no sétimo dia", Celso faz o seguinte comentário: "Depois disso, na verdade, ele fica cansado, como um péssimo trabalhador que precisa de descanso para se recuperar!" Pois ele nada sabe do dia do sábado e do descanso de Deus, que vem após a conclusão da criação do mundo, e que dura por toda a duração do mundo, e no qual vão celebrar a festa com Deus todos os que tiverem feito todas as suas obras nos seus seis dias, e que, por não terem omitido nenhum dos seus deveres, subirão à contemplação (das coisas celestes) e à assembleia dos seres justos e bem-aventurados. Em seguida, como se as Escrituras fizessem tal afirmação, ou como se nós mesmos falássemos de Deus como tendo descansado da fadiga, ele continua: "Não condiz com a natureza das coisas que o primeiro Deus sinta fadiga, ou trabalhe com as próprias mãos, ou dê ordens." Celso diz que não condiz com a natureza das coisas que o primeiro Deus sinta fadiga. Ora, nós diríamos que nem Deus, o Verbo, sente fadiga, nem nenhum daqueles seres que pertencem a uma ordem melhor e mais divina de coisas, porque a sensação de fadiga é própria dos que estão no corpo. Você pode examinar se isso é verdade dos que possuem um corpo de qualquer tipo, ou dos que têm um corpo terreno, ou um pouco melhor que este. Mas também não condiz com a natureza das coisas que o primeiro Deus trabalhe com as próprias mãos. Se você entende as palavras "trabalhar com as próprias mãos" de modo literal, então elas não se aplicam nem ao segundo Deus, nem a nenhum outro ser que participe da divindade. Mas suponha que elas sejam ditas em sentido impróprio e figurado, de modo que possamos interpretar as expressões seguintes, "E o firmamento anuncia a obra das suas mãos", e "os céus são obra das tuas mãos", e quaisquer outras frases semelhantes, de maneira figurada, no que toca às mãos e membros da Divindade: onde está o absurdo nas palavras "Deus trabalhando assim com as próprias mãos"? E como não há absurdo em Deus trabalhar assim, também não há em ele dar ordens; de modo que o que é feito por ordem sua seja belo e digno de louvor, porque foi Deus quem ordenou que fosse realizado.
De novo, talvez por ter compreendido mal as palavras "Pois a boca do Senhor o disse", ou talvez porque alguns indivíduos ignorantes se tenham aventurado precipitadamente a explicar tais coisas, e além disso por não entender com que critérios partes nomeadas segundo os membros do corpo são atribuídas aos atributos de Deus, Celso afirma: "Ele não tem nem boca nem voz." De fato, é verdade que Deus não pode ter voz, se a voz é uma vibração do ar, ou um golpe no ar, ou uma espécie de ar, ou qualquer outra definição que se possa dar à voz por quem é versado nesses assuntos; mas o que se chama de voz de Deus diz-se que foi vista como voz de Deus pelo povo, na passagem "E todo o povo viu a voz de Deus", sendo a palavra "viu" tomada, conforme o costume da Escritura, em sentido espiritual. Além disso, ele alega que Deus não possui nada mais de que tenhamos algum conhecimento; mas de que coisas temos conhecimento, ele não dá nenhuma indicação. Se ele se refere a membros, concordamos com ele, entendendo que as coisas de que temos conhecimento são as chamadas corporais, e geralmente assim denominadas. Mas se devemos entender as palavras "de que temos conhecimento" num sentido universal, então há muitas coisas de que temos conhecimento (e que se podem atribuir a Deus); pois ele possui virtude, e bem-aventurança, e divindade. Se, no entanto, dermos um sentido mais elevado às palavras "de que temos conhecimento", já que tudo o que conhecemos é menor que Deus, não há absurdo em admitirmos também que Deus não possui nenhuma daquelas coisas de que temos conhecimento. Pois os atributos que pertencem a Deus são muito superiores a todas as coisas com que está familiarizada não apenas a natureza do homem, mas até a daqueles que se elevaram muito acima dela. E se ele tivesse lido os escritos dos profetas, Davi dizendo de um lado "Mas tu és o mesmo", e Malaquias do outro "Eu sou (o Senhor), e não mudo", teria observado que nenhum de nós afirma que haja qualquer mudança em Deus, seja no ato, seja no pensamento. Pois, permanecendo o mesmo, ele administra as coisas mutáveis segundo a natureza delas, e o seu Verbo escolhe encarregar-se da administração delas.
Celso, não percebendo a diferença entre "segundo a imagem de Deus" e "imagem de Deus", afirma a seguir que o primogênito de toda criatura é a imagem de Deus, o próprio Verbo e verdade, e também a própria sabedoria, sendo a imagem da bondade dele, enquanto o homem foi criado segundo a imagem de Deus; afirma ainda que todo homem cuja cabeça é Cristo é a imagem e glória de Deus; e além disso, não observando a qual das características da humanidade pertence a expressão "segundo a imagem de Deus", e que ela consiste numa natureza que nunca teve nem tem mais o velho homem com suas obras, sendo chamada segundo a imagem daquele que a criou, justamente por não possuir essas qualidades, ele sustenta: "Tampouco fez Deus o homem como sua imagem; pois Deus não é assim, nem se parece com nenhuma outra espécie de ser (visível)." Será possível supor que o elemento que é segundo a imagem de Deus exista na parte inferior, quero dizer, no corpo, de um ser composto como o homem, só porque Celso explicou ser isso o que foi feito segundo a imagem de Deus? Pois se aquilo que é segundo a imagem de Deus estivesse só no corpo, a parte melhor, a alma, teria sido privada daquilo que é segundo a imagem dele, e essa (distinção) existiria no corpo corruptível, afirmação que nenhum de nós faz. Mas se aquilo que é segundo a imagem de Deus estivesse em ambos juntos, então Deus teria necessariamente de ser um ser composto, e consistir, por assim dizer, de alma e corpo, para que o elemento que é segundo a imagem de Deus, a parte melhor, estivesse na alma, enquanto a parte inferior, e aquilo que é segundo o corpo, estivesse no corpo, afirmação, mais uma vez, que nenhum de nós faz. Resta, portanto, que aquilo que é segundo a imagem de Deus deve ser entendido como estando no nosso homem interior, que também é renovado, e cuja natureza é ser segundo a imagem daquele que o criou, quando o homem se torna perfeito, como é perfeito o nosso Pai no céu, e ouve a ordem "Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo", e, aprendendo o preceito "Sede imitadores de Deus", recebe na sua alma virtuosa os traços da imagem de Deus. Além disso, o corpo de quem possui tal alma é um templo de Deus; e na alma Deus habita, porque ela foi feita segundo a imagem dele.
De novo, Celso reúne uma série de afirmações que apresenta como concessões da nossa parte, mas que nenhum cristão inteligente admitiria. Pois nenhum de nós afirma que Deus participe de forma ou cor. Tampouco ele participa de movimento, porque permanece firme, e a sua natureza é estável, e ele convida também o homem justo a fazer o mesmo, dizendo: "Mas tu, fica aqui junto de mim." E se certas expressões indicam uma espécie de movimento, por assim dizer, da parte dele, como esta, "Ouviram a voz do Senhor Deus passeando no jardim à brisa do dia", devemos entendê-las deste modo: que é pelos pecadores que Deus é entendido como movendo-se, assim como entendemos o sono de Deus, que é tomado em sentido figurado, ou a sua ira, ou qualquer outro atributo semelhante. Mas Deus nem mesmo participa de substância. Pois ele é participado (por outros) mais do que ele próprio participa deles, e é participado por aqueles que têm o Espírito de Deus. O nosso Salvador, também, não participa da justiça; mas, sendo ele próprio a justiça, é participado pelos justos. Uma discussão sobre a substância seria longa e difícil, especialmente se a questão fosse se aquilo que é permanente e imaterial é substância propriamente dita, de modo que se concluiria que Deus está além da substância, comunicando da sua substância, por meio de função e poder, àqueles a quem ele se comunica pelo seu Verbo, como faz com o próprio Verbo; ou, ainda que seja substância, diz-se mesmo assim que ele é por natureza invisível, nestas palavras a respeito do nosso Salvador, que se diz ser a imagem do Deus invisível, enquanto pelo termo "invisível" se indica que ele é imaterial. É também questão a investigar se o unigênito e primogênito de toda criatura deve ser chamado substância das substâncias, e ideia das ideias, e princípio de todas as coisas, enquanto acima de tudo está o seu Pai e Deus.