Contra Celso - Livro VI 9

Filosofia grega, Platão e o conhecimento de Deus

Depois disso ele volta ao assunto das opiniões de Marcião (das quais falara com frequência), e expõe algumas delas corretamente, enquanto outras compreendeu mal; estas, no entanto, não é necessário que respondamos ou refutemos. De novo, depois disso, ele apresenta os vários argumentos que se podem invocar em favor de Marcião, e também contra ele, enumerando quais são as opiniões que o eximem das acusações, e quais o expõem a elas; e quando deseja sustentar a afirmação que declara que Jesus foi objeto de profecia (a fim de fundamentar uma acusação contra Marcião e seus seguidores), ele pergunta distintamente: "Como poderia aquele que foi punido de tal maneira ser mostrado como Filho de Deus, a menos que essas coisas tivessem sido preditas a seu respeito?". Em seguida ele passa a fazer pilhéria, e, como é seu costume, a derramar ridículo sobre o assunto, introduzindo dois filhos de Deus, um o filho do Criador, e o outro o filho do deus de Marcião; e descreve os combates singulares deles, dizendo que as Teomaquias dos Pais são como as lutas entre codornas; ou que os Pais, tornando-se inúteis pela idade, e caindo em senilidade, não se metem de modo algum um com o outro, mas deixam os filhos resolverem na briga. A observação que ele fez antes, voltaremos contra ele próprio: que velha não teria vergonha de embalar uma criança para dormir com histórias como as que ele inseriu na obra que intitula O Discurso Verdadeiro? Pois quando deveria aplicar-se a sério ao argumento, ele deixa de lado o argumento sério, e se entrega à pilhéria e à palhaçada, imaginando que está escrevendo mimos ou versos de escárnio; sem observar que tal método de proceder frustra o seu propósito, que é fazer-nos abandonar o cristianismo e dar a nossa adesão às suas opiniões, as quais, talvez, se tivessem sido apresentadas com algum grau de seriedade, teriam parecido mais capazes de convencer; ao passo que, que ele continua a ridicularizar, e escarnecer, e fazer o papel de palhaço, respondemos que é porque ele não tem nenhum argumento de peso (pois tal argumento ele não tinha, nem poderia compreender) que recorreu a tal balela.
Às observações anteriores ele acrescenta o seguinte: "Já que um Espírito divino habitava o corpo (de Jesus), ele certamente deve ter sido diferente do dos outros seres, no que toca à grandeza, ou beleza, ou força, ou voz, ou imponência, ou poder de persuasão. Pois é impossível que aquele a quem foi comunicada alguma qualidade divina acima dos outros seres não diferisse dos demais; ao passo que essa pessoa não diferia em nada de outra qualquer, mas era, conforme relatam, pequena, e de aparência ingrata, e de origem humilde". Ora, fica evidente por essas palavras que, quando Celso deseja formular uma acusação contra Jesus, ele aduz os escritos sagrados, como quem acreditasse que eles eram escritos aparentemente próprios para fornecer um gancho de acusação contra ele; mas, sempre que, nos mesmos escritos, parecessem feitas afirmações contrárias àquelas acusações que ele aduz, ele finge nem sequer conhecê-las! Há, de fato, algumas afirmações que se admite estarem registradas a respeito de o corpo de Jesus ter sido de aparência ingrata; não, no entanto, de origem humilde, como foi afirmado, nem qualquer evidência segura de que ele fosse pequeno. A linguagem de Isaías é a seguinte, ele que profetizou a respeito dele que viria e visitaria a multidão, não em formosura de forma, nem em beleza extraordinária: "Senhor, quem creu na nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor? Ele se anunciou diante dele como uma criança, como uma raiz em terra árida. Não tem forma nem glória, e nós o vimos, e ele não tinha forma nem beleza; mas a sua forma era sem honra, e inferior à dos filhos dos homens". Essas passagens, então, Celso escutou, porque pensava que lhe eram úteis para formular uma acusação contra Jesus; mas não prestou atenção às palavras do quadragésimo quinto Salmo, e por que se diz nele "Cinge a tua espada sobre a coxa, ó poderosíssimo, com a tua formosura e beleza; e avança, e prospera, e reina".
Suponhamos, no entanto, que ele não tivesse lido a profecia, ou que a tivesse lido, mas tivesse sido desviado por aqueles que a interpretavam erradamente como não dita de Jesus Cristo. O que ele tem a dizer do Evangelho, em cujas narrativas Jesus subiu a um alto monte, e foi transfigurado diante dos discípulos, e foi visto em glória, quando tanto Moisés como Elias, vistos em glória, falavam da partida que ele estava prestes a cumprir em Jerusalém? Ou quando o profeta diz "Nós o vimos, e ele não tinha forma nem beleza", e assim por diante? E Celso aceita essa profecia como referindo-se a Jesus, estando cego ao aceitá-la assim, e não vendo que é uma grande prova de que o Jesus que parecia ser sem forma era o Filho de Deus o fato de que a sua própria aparência tivesse sido objeto de profecia muitos anos antes do seu nascimento. Mas se outro profeta fala da formosura e beleza dele, ele não aceitará a profecia como referindo-se a Cristo! E se ficasse claramente comprovado pelos Evangelhos que ele não tinha forma nem beleza, mas que a sua aparência era sem honra, e inferior à dos filhos dos homens, poderia dizer-se que não foi em referência aos escritos proféticos, mas aos Evangelhos, que Celso fez as suas observações. Mas, agora, como nem os Evangelhos nem os escritos apostólicos indicam que ele não tinha forma nem beleza, fica evidente que devemos aceitar a declaração dos profetas como verdadeira a respeito de Cristo, e isso impedirá que a acusação contra Jesus seja levada adiante.
Mas, de novo, como é que aquele que disse "Já que um Espírito divino habitava o corpo (de Jesus), ele certamente deve ter sido diferente do dos outros seres no que toca à grandeza, ou voz, ou força, ou imponência, ou poder de persuasão" não observou a relação mutável do corpo dele conforme a capacidade dos espectadores (e, portanto, a sua correspondente utilidade), visto que ele aparecia a cada um deles com a natureza de que cada um precisava para contemplá-lo? Além disso, não é de admirar que a matéria, que por natureza é suscetível de ser alterada e mudada, e de ser transformada em qualquer coisa que o Criador escolha, e é capaz de receber todas as qualidades que o Artífice deseja, pudesse num momento possuir uma qualidade segundo a qual se diz "Não tinha forma nem beleza", e noutro momento uma tão gloriosa, e majestosa, e maravilhosa, que os espectadores de tão extraordinária formosura (os três discípulos que haviam subido (o monte) com Jesus) caíssem de rosto em terra. Ele dirá, no entanto, que essas são invenções, e em nada diferentes de mitos, assim como o são também as outras maravilhas relatadas de Jesus; objeção a que respondemos mais longamente no que foi dito. Mas também algo místico nesta doutrina, que anuncia que as aparências variadas de Jesus devem ser referidas à natureza do divino Verbo, que não se mostra à multidão da mesma maneira que se mostra àqueles que são capazes de segui-lo até o alto monte que mencionamos; pois para aqueles que ainda permanecem embaixo, e ainda não estão preparados para subir, o Verbo não tem forma nem beleza, porque para tais pessoas a sua forma é sem honra, e inferior às palavras proferidas pelos homens, que são figuradamente chamados filhos dos homens. Pois poderíamos dizer que as palavras dos filósofos (que são filhos dos homens) parecem muito mais belas do que o Verbo de Deus, que é proclamado à multidão, e que também exibe (o que se chama) a loucura da pregação, e por causa dessa aparente loucura da pregação aqueles que olham para isso dizem "Nós o vimos; mas ele não tinha forma nem beleza". Para aqueles, na verdade, que receberam o poder de segui-lo, a fim de acompanhá-lo até quando sobe ao alto monte, ele tem uma aparência mais divina, que eles contemplam, se por acaso houver (entre eles) um Pedro, que recebeu dentro de si o edifício da Igreja fundada sobre o Verbo, e que adquiriu tal hábito (de bondade) que nenhuma das portas do Hades prevalecerá contra ele, tendo sido elevado pelo Verbo das portas da morte, para que publique os louvores de Deus nas portas da filha de Sião, e quaisquer outros que tenham derivado o seu nascimento de uma pregação impactante, e que não sejam de modo algum inferiores aos filhos do trovão. Mas como podem Celso e os inimigos do divino Verbo, e aqueles que não examinaram as doutrinas do cristianismo no espírito da verdade, conhecer o significado das diferentes aparências de Jesus? E refiro-me também às diferentes etapas da sua vida, e a quaisquer ações realizadas por ele antes dos seus sofrimentos, e depois da sua ressurreição dentre os mortos.
Celso, em seguida, faz certas observações da seguinte natureza: "De novo, se Deus, como Júpiter na comédia, ao despertar de um sono prolongado desejasse resgatar a raça humana do mal, por que enviou esse Espírito de que você fala a um único canto (da terra)? Ele deveria tê-lo soprado igualmente em muitos corpos, e tê-los enviado por todo o mundo. Ora, o poeta cômico, para provocar riso no teatro, escreveu que Júpiter, depois de acordar, despachou Mercúrio aos atenienses e aos lacedemônios; mas você não acha que tornou o Filho de Deus mais ridículo ao enviá-lo aos judeus?". Observe em linguagem como essa o caráter irreverente de Celso, que, ao contrário de um filósofo, toma o escritor de uma comédia, cujo ofício é provocar riso, e compara o nosso Deus, o Criador de todas as coisas, com o ser que, conforme representado na peça, ao acordar, despacha Mercúrio (numa tarefa)! afirmamos, de fato, no que precede, que não foi como quem desperta de um sono prolongado que Deus enviou Jesus à raça humana, Jesus que agora, por boas razões, cumpriu a economia da sua encarnação, mas que sempre conferiu benefícios à raça humana. Pois nenhum ato nobre jamais foi realizado entre os homens sem que o divino Verbo visitasse as almas daqueles que eram capazes, ainda que por pouco tempo, de admitir tais operações do divino Verbo. Além disso, a vinda de Jesus aparentemente a um único canto (da terra) fundava-se em boas razões, que era necessário que aquele que era objeto de profecia fizesse o seu aparecimento entre os que haviam travado conhecimento com a doutrina de um Deus, e que liam os escritos dos seus profetas, e que tinham vindo a conhecer o anúncio de Cristo, e que ele viesse a eles num tempo em que o Verbo estava prestes a difundir-se de um único canto sobre o mundo inteiro.
E, portanto, não havia necessidade de que existissem por toda parte muitos corpos, e muitos espíritos como Jesus, para que o mundo inteiro dos homens fosse iluminado pelo Verbo de Deus. Pois o único Verbo bastava, tendo-se levantado como o Sol da justiça, para enviar da Judeia os seus raios à alma de todos os que estivessem dispostos a recebê-lo. Mas se alguém deseja ver muitos corpos cheios de um Espírito divino, semelhantes ao único Cristo, servindo à salvação dos homens em toda parte, que repare naqueles que ensinam o Evangelho de Jesus em todas as terras com solidez de doutrina e retidão de vida, e que são chamados de cristos pelas santas Escrituras, na passagem "Não toqueis nos meus ungidos, e não façais mal aos meus profetas". Pois, assim como ouvimos que o Anticristo vem, e no entanto aprendemos que muitos anticristos no mundo, do mesmo modo, sabendo que Cristo veio, vemos que, por causa dele, muitos cristos no mundo, que, como ele, amaram a justiça e odiaram a iniquidade, e por isso Deus, o Deus de Cristo, ungiu-os também com o óleo de alegria. Mas, visto que ele amou a justiça e odiou a iniquidade acima daqueles que eram seus companheiros, ele também obteve as primícias da sua unção, e, se devemos chamá-la assim, a unção inteira do óleo de alegria; enquanto aqueles que eram seus companheiros partilharam também da sua unção, na proporção da capacidade individual de cada um. Portanto, que Cristo é a Cabeça da Igreja, de modo que Cristo e a Igreja formam um corpo, o unguento desceu da cabeça até a barba de Arão (símbolos do homem perfeito), e esse unguento, ao descer, chegou até a própria orla da sua veste. Esta é a minha resposta à linguagem irreverente de Celso, quando ele diz "Ele deveria tê-lo (ao seu Espírito) soprado igualmente em muitos corpos, e tê-lo enviado por todo o mundo". O poeta cômico, de fato, para provocar riso, representou Júpiter adormecido e despertando do sono, e despachando Mercúrio aos gregos; mas o Verbo, sabendo que a natureza de Deus não é afetada pelo sono, pode ensinar-nos que Deus administra, no tempo devido, e como a reta razão exige, os assuntos do mundo. Não é, no entanto, motivo de surpresa que, por causa da grandeza e incompreensibilidade dos juízos divinos, pessoas ignorantes cometam enganos, e Celso entre elas. Não há, portanto, nada de ridículo no fato de o Filho de Deus ter sido enviado aos judeus, entre os quais haviam aparecido os profetas, a fim de que, fazendo um começo entre eles numa forma corporal, ele pudesse erguer-se com força e poder sobre um mundo de almas, que não desejava permanecer abandonado por Deus.
Depois disso, pareceu adequado a Celso chamar os caldeus de nação inspirada de modo divino desde os tempos mais remotos, dos quais o sistema enganoso da astrologia se espalhou entre os homens. Mais ainda, ele coloca também os magos na mesma categoria, dos quais a arte da magia derivou o seu nome e foi transmitida a outras nações, para a corrupção e destruição dos que a empregam. Na parte anterior desta obra, (mencionamos) que, na opinião do próprio Celso, os egípcios também eram culpados de erro, porque tinham, de fato, recintos solenes em torno do que consideravam seus templos, enquanto dentro deles não havia nada além de macacos, ou crocodilos, ou bodes, ou áspides, ou algum outro animal; mas na presente ocasião apraz-lhe falar também do povo egípcio como inspirado de modo divino, e isso, também, desde os tempos mais remotos, talvez porque eles fizeram guerra aos judeus desde data antiga. Os persas, além disso, que se casam com as próprias mães, e têm relações com as próprias filhas, são, na opinião de Celso, uma raça inspirada; mais ainda, até os indianos o são, alguns dos quais, no que precede, ele mencionou como comedores de carne humana. Aos judeus, no entanto, especialmente os dos tempos antigos, que não empregam nenhuma dessas práticas, ele não apenas recusou o nome de inspirados, mas declarou que eles pereceriam imediatamente. E essa predição ele proferiu a respeito deles, como se estivesse, sem dúvida, dotado de poder profético, sem observar que toda a história dos judeus, e a sua antiga e venerável organização política, foram administradas por Deus; e que é pela queda deles que a salvação chegou aos gentios, e que a queda deles é a riqueza do mundo, e a diminuição deles a riqueza dos gentios, até que venha a plenitude dos gentios, para que, depois disso, todo o Israel, que Celso não conhece, possa ser salvo.
Não entendo, no entanto, como ele pode dizer de Deus que, embora conhecendo todas as coisas, não percebeu isto: que estava enviando o seu Filho para o meio de homens perversos, que tanto seriam culpados de pecado quanto lhe infligiriam castigo. No caso presente, ele certamente parece ter esquecido que todos os sofrimentos que Jesus haveria de suportar foram previstos pelo Espírito de Deus e anunciados pelos seus profetas. Disso não decorre que Deus ignorasse que estava enviando o seu Filho para o meio de homens perversos e pecadores, que também lhe infligiriam castigo. Logo em seguida, no entanto, ele acrescenta que a nossa defesa neste ponto é que todas essas coisas foram preditas. Mas, como o nosso sexto livro alcançou tamanho suficiente, vamos parar aqui e começar, se Deus quiser, a argumentação do sétimo, no qual examinaremos as razões que ele julga oferecer uma resposta à nossa afirmação de que tudo a respeito de Jesus foi predito pelos profetas. E, como essas razões são numerosas e exigem ser respondidas longamente, não quisemos nem cortar o assunto pela metade por causa do tamanho deste livro, nem, para evitar fazê-lo, inchar este sexto livro além da sua devida proporção.