Contra Celso - Livro VI 5

Filosofia grega, Platão e o conhecimento de Deus

Mas como Celso rejeita as afirmações a respeito do que se chama Anticristo, não tendo lido nem o que se diz dele no livro de Daniel, nem nos escritos de Paulo, nem o que o Salvador nos Evangelhos predisse sobre a vinda dele, devemos fazer também algumas observações sobre esse assunto. Pois, assim como rostos não se parecem com rostos, também os corações dos homens não se parecem uns com os outros. É certo, então, que haverá diversidades entre os corações dos homens. Os que são inclinados à virtude não são todos moldados e formados para ela na mesma medida ou em medida semelhante, enquanto outros, por negligência da virtude, lançam-se ao extremo oposto. E entre estes alguns nos quais o mal está profundamente arraigado, e outros nos quais está menos profundamente enraizado. Onde está, então, o absurdo em sustentar que existem entre os homens, por assim dizer, dois extremos: um da virtude, e o outro do seu oposto? De modo que a perfeição da virtude habita no homem que realiza o ideal dado em Jesus, do qual fluiu para a raça humana uma conversão, e cura, e melhora tão grandes, enquanto o extremo oposto está no homem que encarna a noção daquele que se chama Anticristo. Pois Deus, abrangendo todas as coisas por meio da sua presciência, e prevendo quais consequências resultariam de ambos esses extremos, quis torná-los conhecidos à humanidade por meio dos seus profetas, para que os que entendem suas palavras se familiarizassem com o bem e estivessem em guarda contra o seu oposto. Além disso, era apropriado que um desses extremos, o melhor dos dois, fosse chamado Filho de Deus, por causa de sua preeminência. E o outro, que é diametralmente oposto, fosse chamado filho do demônio maligno, e de Satanás, e do diabo. E, em seguida, como o mal se caracteriza especialmente por sua difusão, e atinge sua maior altura quando simula a aparência do bem, por essa razão sinais, e prodígios, e milagres mentirosos acompanham o mal, pela cooperação do seu pai, o diabo. Pois, superando em muito a ajuda que esses demônios dão aos charlatães (que enganam os homens para os mais vis propósitos), é o auxílio que o próprio diabo presta para enganar a raça humana. Paulo, de fato, fala daquele que se chama Anticristo, descrevendo, ainda que com certa reserva, tanto o modo, quanto o tempo, quanto a causa da vinda dele à raça humana. E veja se a linguagem dele sobre esse assunto não é de todo apropriada, e indigna de ser tratada com o menor grau de ridículo.