Contra Celso - Livro VI 5

Filosofia grega, Platão e o conhecimento de Deus

Pois é impossível que o bem resultante de acaso, ou de comunicação, seja como aquele bem que vem por natureza. E, no entanto, o primeiro nunca será perdido por aquele que, por assim dizer, partilha do pão vivo com vistas à sua própria preservação. Mas se ele faltar a alguém, será por culpa do próprio, por ser preguiçoso em partilhar desse pão vivo e dessa bebida genuína, por meio dos quais as asas, nutridas e regadas, ficam aptas ao seu propósito, segundo o dito de Salomão, o mais sábio dos homens, a respeito do homem verdadeiramente rico, que ele fez para si asas como de águia e volta para a casa do seu senhor. Pois convinha a Deus, que sabe aproveitar de modo adequado até aqueles que em sua maldade apostataram dele, colocar maldade desse tipo em alguma parte do universo, e designar uma escola de treinamento da virtude, na qual devem exercitar-se os que desejarem recuperar de modo lícito a posse (que haviam perdido). E isso para que, sendo provados, como o ouro no fogo, pela maldade desses, e tendo se esforçado ao máximo para impedir que algo vil prejudicasse sua natureza racional, apareçam dignos de uma ascensão às coisas divinas, e sejam elevados pelo Verbo à bem-aventurança que está acima de todas as coisas, e, por assim dizer, ao próprio cume da bondade. Ora, aquele que na língua hebraica é chamado Satanás, e por alguns Satanas (por estar mais em conformidade com o gênio da língua grega), significa, quando traduzido para o grego, adversário. Mas todo aquele que prefere o vício e a vida viciosa é (porque age de modo contrário à virtude) Satanas, isto é, um adversário do Filho de Deus, que é justiça, e verdade, e sabedoria. Com mais propriedade, no entanto, é chamado adversário aquele que foi o primeiro, entre os que viviam uma vida pacífica e feliz, a perder as asas e a cair da bem-aventurança. Aquele que, segundo Ezequiel, andou sem falha em todos os seus caminhos, até que a iniquidade foi encontrada nele, e que, sendo o selo da semelhança e a coroa da beleza no paraíso de Deus, estando como que repleto de bens, caiu na destruição, conforme a palavra que lhe foi dita em sentido místico: "Caíste na destruição e não permanecerás para sempre." Aventuramo-nos de modo algo precipitado a fazer estas poucas observações, embora ao fazê-lo nada de importante tenhamos acrescentado a este tratado. Se alguém, no entanto, que tenha tempo para o exame dos escritos sagrados, reunir de todas as fontes e formar num corpo de doutrina o que está registrado a respeito da origem do mal e do modo de sua dissolução, verá que as visões de Moisés e dos profetas a respeito de Satanás nem sequer haviam sido sonhadas por Celso ou por qualquer um daqueles cuja alma foi arrastada para baixo, e arrancada de Deus, e das retas visões a respeito dele, e da sua palavra, por esse demônio maligno.