Contra Celso - Livro VI 5

Filosofia grega, Platão e o conhecimento de Deus

Depois disso, Celso levanta contra nós, de outro ângulo, as seguintes acusações: certos erros profundamente ímpios, diz ele, são cometidos por eles, por causa de sua extrema ignorância, na qual se afastaram do sentido dos enigmas divinos, criando um adversário de Deus, o diabo, e dando-lhe na língua hebraica o nome de Satanás. Ora, na verdade, tais afirmações são totalmente de invenção mortal, e nem mesmo dignas de ser repetidas, a saber, que o Deus poderoso, em seu desejo de conferir o bem aos homens, tenha contudo alguém trabalhando contra ele, e esteja impotente. Segue-se, então, que o Filho de Deus é vencido pelo diabo. E, sendo punido por ele, ensina-nos também a desprezar os castigos que ele inflige, anunciando-nos de antemão que Satanás, depois de aparecer aos homens como ele mesmo havia feito, exibirá obras grandes e maravilhosas, reivindicando para si a glória de Deus, mas que os que desejam mantê-lo à distância não devem dar atenção a essas obras de Satanás, e sim depositar a somente nele. Tais afirmações são manifestamente as palavras de um enganador, que planeja e manobra contra os que se opõem às suas ideias e se colocam contra elas. Em seguida, querendo apontar os enigmas a respeito dos quais nossos equívocos levam à introdução de nossas ideias sobre Satanás, ele continua: os antigos aludem de modo obscuro a uma certa guerra entre os deuses, falando Heráclito dela assim: "Se é preciso dizer que uma guerra e discórdia gerais, e que todas as coisas se fazem e se administram em conflito." Ferécides, por sua vez, que é muito mais antigo do que Heráclito, narra um mito de um exército posto em ordem de batalha contra outro, e nomeia Crono como o líder de um e Ofioneu o do outro, e relata seus desafios e lutas, e menciona que se firmaram acordos entre eles, no sentido de que o lado que caísse no oceano seria tido como vencido, enquanto os que os tivessem expulsado e vencido teriam a posse do céu. Os mistérios relativos aos Titãs e aos Gigantes também tinham algum sentido (simbólico) semelhante, assim como os mistérios egípcios de Tífon, e de Hórus, e de Osíris. Depois de fazer tais afirmações, e sem ter superado a dificuldade quanto à maneira pela qual esses relatos contêm uma visão mais elevada das coisas, enquanto os nossos seriam cópias erradas deles, ele continua a nos insultar, observando que esses relatos não se parecem com as histórias que se contam de um diabo, ou demônio, ou, como ele observa com mais verdade, de um homem que é um impostor, que deseja estabelecer uma doutrina contrária. E do mesmo modo ele interpreta Homero, como se este se referisse de modo obscuro a coisas semelhantes às mencionadas por Heráclito, e Ferécides, e os criadores dos mistérios sobre os Titãs e Gigantes, naquelas palavras que Hefesto dirige a Hera assim: "Certa vez, por tua causa, senti sua força incomparável, lançado de cabeça para baixo da altura etérea." E naquelas de Zeus a Hera: "Esqueceste de quando, amarrada e presa no alto, do vasto côncavo do céu cravejado de estrelas, te suspendi tremendo numa corrente de ouro, e todos os deuses furiosos se opuseram em vão? De cabeça os lancei do salão olímpico, atordoados no turbilhão e sem fôlego na queda." Interpretando, além disso, as palavras de Homero, ele acrescenta: as palavras de Zeus dirigidas a Hera são as palavras de Deus dirigidas à matéria. E as palavras dirigidas à matéria significam de modo obscuro que a matéria, que no princípio estava em estado de discórdia (com Deus), foi por ele tomada, ligada e ordenada sob leis, que podem ser comparadas analogicamente a correntes. E que, para castigar os demônios que criam desordem nela, ele os lança de cabeça para este mundo inferior. Essas palavras de Homero, alega ele, foram assim entendidas por Ferécides, quando disse que abaixo dessa região está a região do Tártaro, que é guardada pelas Harpias e pela Tempestade, filhas de Bóreas, e para a qual Zeus bane qualquer um dos deuses que se torne desordeiro. Com as mesmas ideias também está estreitamente ligado o peplo de Atena, que é visto por todos na procissão das Panateneias. Pois fica manifesto a partir disso, continua ele, que um demônio sem mãe e imaculado tem o domínio sobre a ousadia dos Gigantes. Aceitando, além disso, as ficções dos gregos, ele continua a amontoar contra nós acusações como as seguintes, a saber, que o Filho de Deus é punido pelo diabo, e nos ensina que nós também, quando punidos por ele, devemos suportá-lo. Ora, essas afirmações são totalmente ridículas. Pois é o diabo, penso eu, quem deveria antes ser punido, e os seres humanos por ele caluniados não deveriam ser ameaçados de castigo.