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Contra Celso - Livro III
O Livro III na Obra
O Contra Celso é a resposta de Orígenes, escrita por volta de 248 d.C., ao Discurso Verdadeiro de Celso, filósofo pagão que atacara o cristianismo cerca de setenta anos antes. A obra de Celso se perdeu, e tudo o que dela conhecemos vem das citações que Orígenes faz para refutá-las, o que torna a reconstrução do adversário dependente do próprio acusado. No Livro III, depois de ter respondido nos dois primeiros à figura do judeu fictício que Celso inventa, Orígenes passa a enfrentar as alegações que o filósofo faz em seu próprio nome.
O eixo do livro é a relação entre fé e razão. Celso abre dizendo que a disputa entre judeus e cristãos sobre se o Messias já veio é uma futilidade, uma "briga pela sombra de um burro", e segue acusando o cristianismo de se dividir em facções, de atrair apenas ignorantes, mulheres e crianças, e de não ter nada melhor a oferecer que os cultos pagãos. Acima de tudo, compara Jesus a curandeiros e heróis divinizados: Esculápio, Aristeas de Proconeso, Hércules, Dioniso, os Dioscuros e o jovem Antínoo. Orígenes responde combinando dois argumentos recorrentes: a incoerência de Celso, que crê nas histórias gregas mas rejeita as cristãs com os mesmos critérios, e a transformação moral dos convertidos, que ele apresenta como fruto observável e ausente nos heróis pagãos.
Conteúdo do Livro
- A disputa entre judeus e cristãos como "briga pela sombra de um burro" — (Contra Celso - Livro III 1:1)
- Esculápio, Aristeas e os milagres pagãos: por que só o Deus dos judeus não daria sinais? — (Contra Celso - Livro III 1:3)
- O pacifismo cristão e a recusa de matar, mesmo em defesa própria — (Contra Celso - Livro III 1:7)
- As "heresias" do cristianismo comparadas às escolas da medicina e da filosofia — (Contra Celso - Livro III 2:12)
- Jesus diante dos heróis divinizados: Hércules, Esculápio, Dioniso e os Dioscuros — (Contra Celso - Livro III 2:22)
- O argumento de coerência: crer em Esculápio mas duvidar de Jesus — (Contra Celso - Livro III 2:24)
- Antínoo, o favorito de Adriano divinizado, como caso de culto recente e artificial — (Contra Celso - Livro III 4:36)
- A acusação central: o cristianismo só atrairia ignorantes, mulheres e crianças — (Contra Celso - Livro III 4:44)
- A transformação moral dos convertidos como resposta a Celso — (Contra Celso - Livro III 6:67)
- A aliança com os filósofos: imortalidade da alma em Pitágoras e Platão — (Contra Celso - Livro III 8:80)
Os Heróis Divinizados e os Cultos de Cura
Boa parte do Livro III só faz sentido contra o pano de fundo religioso do mundo greco-romano. Esculápio (Asclépio em grego) era o deus da medicina, cujos santuários em Epidauro, Cós e Pérgamo funcionavam como centros de cura por incubação, onde os doentes dormiam no templo à espera de um sonho do deus. Aristeas de Proconeso era um poeta semilendário do século VII a.C., cujas histórias de desaparecimento e reaparição Orígenes conhece por Heródoto. Hércules, Dioniso e os Dioscuros (Castor e Pólux) eram homens que, segundo a crença grega, teriam se tornado deuses. Antínoo, favorito do imperador Adriano, afogou-se no Nilo em 130 d.C. e foi divinizado pelo próprio imperador, que fundou em sua honra a cidade de Antinópolis, no Egito. Para os cristãos, esse era o exemplo perfeito de divinização recente, artificial e moralmente questionável. Celso usa todos esses casos para perguntar por que se deveria aceitar Jesus, visto após a morte, e recusar os heróis pagãos; Orígenes responde apelando ao caráter moral de Jesus e atribuindo as maravilhas dos santuários pagãos a magia e a demônios fixados em lugares específicos.
A Acusação de Anti-Intelectualismo
O tema mais conhecido do Livro III é a acusação de que o cristianismo atrai apenas os tolos, os ignorantes, as mulheres e as crianças, aliciados às escondidas por trabalhadores de lã e sapateiros, contra a autoridade dos pais e dos mestres. O retrato que Celso pinta é uma das descrições pagãs mais vívidas de como o cristianismo primitivo se difundia nas camadas mais humildes e nos ambientes domésticos, e historiadores o usam como evidência de que a primeira expansão cristã correu em larga medida por redes informais, oficinas e lares. Orígenes não nega o perfil social humilde de muitos convertidos; disputa a interpretação maliciosa. Responde acumulando exemplos bíblicos de sabedoria e distinguindo entre a conduta de cristãos individuais e o ensino do Evangelho em si, que ele insiste em apresentar como exigente e aberto também aos homens cultos. Vale notar que essa defesa tem limites: o próprio Orígenes ensina, no livro, uma distinção entre a fé simples das multidões e a sabedoria reservada aos "perfeitos", estrutura de níveis de conhecimento típica da escola de Alexandria.
“As discussões que temos uns com os outros a respeito de Cristo em nada diferem do que o provérbio chama de uma briga pela sombra de um burro.”Orígenes, Contra Celso - Livro III 1:1
Relevância
O Livro III é uma fonte dupla. Como documento histórico, preserva, em negativo, a voz de um crítico pagão culto do século II, e oferece testemunhos valiosos sobre o pacifismo da igreja pré-constantiniana, sobre o catecumenato e a disciplina moral das primeiras comunidades, e sobre o perfil social dos convertidos. Como peça de argumentação, expõe o método de Orígenes: aliar-se à filosofia grega onde concorda, sobretudo na imortalidade da alma defendida por Pitágoras e Platão, e cobrar coerência do adversário onde diverge. Convém ler com a mesma cautela que o próprio livro recomenda em outros contextos: as profecias que Orígenes apresenta como cumpridas em Jesus dependem de uma chave de leitura cristã que o judaísmo e a crítica moderna disputam, e o argumento da transformação moral é um teste sobre frutos, não uma prova histórica direta da divindade. Ainda assim, poucos textos antigos mostram com tanta clareza como cristianismo e cultura clássica se mediam diante das mesmas evidências.