Contra Celso - Livro III 6

Fé, razão e a origem do cristianismo

É provável, contudo, que ele quisesse dizer algo assim: que os que, tanto por natureza quanto por hábito, se entregam à prática daqueles pecados cometidos pelos mais perdidos dos homens, não poderiam ser completamente transformados nem pelo castigo. E, no entanto, isso se mostra falso pela história de certos filósofos. Pois quem não classificaria entre os mais perdidos dos homens aquele indivíduo que, de algum modo, se submeteu a se entregar ao seu senhor, quando este o colocou num prostíbulo para que se deixasse poluir por qualquer um que quisesse? E, no entanto, tal circunstância se relata de Fédon! E quem não concordará que aquele que irrompeu, acompanhado de um tocador de flauta e de um grupo de farristas, seus companheiros devassos, na escola do venerável Xenócrates, para insultar um homem que era a admiração de seus amigos, era um dos maiores celerados entre os homens? E, apesar disso, a razão foi poderosa o bastante para operar a conversão deles e para capacitá-los a fazer tal progresso na filosofia, que um foi julgado digno por Platão de relatar o discurso de Sócrates sobre a imortalidade e de registrar sua firmeza na prisão, quando demonstrou seu desprezo pela cicuta e, com toda a intrepidez e tranquilidade de espírito, tratou de assuntos tão numerosos e importantes que é difícil até para quem toda a sua atenção, sem distração alguma, acompanhá-los. Enquanto Polêmon, por outro lado, que de devasso se tornou homem de vida muito comedida, foi sucessor na escola de Xenócrates, tão célebre por seu caráter venerável. Celso, então, não diz a verdade quando afirma que pecadores por natureza e hábito não podem ser completamente reformados nem pelo castigo.