Contra Celso - Livro III 4

Fé, razão e a origem do cristianismo

Mas, como ele introduz em seguida o caso do favorito de Adriano (refiro-me aos relatos a respeito do jovem Antínoo, e às honras que lhe prestam os habitantes da cidade de Antínoo no Egito), e imagina que a honra prestada a ele fica pouco aquém da que rendemos a Jesus, mostremos em que espírito de hostilidade essa afirmação é feita. Pois o que em comum entre uma vida vivida entre os favoritos de Adriano, por alguém que não se abstinha nem mesmo de paixões contra a natureza, e a do venerável Jesus, contra quem nem mesmo os que levantaram incontáveis outras acusações, e que contaram tantas falsidades, foram capazes de alegar que Ele manifestou, nem mesmo no menor grau, qualquer inclinação ao que era licencioso? Mais ainda: se alguém investigasse, com espírito de verdade e imparcialidade, as histórias relativas a Antínoo, acharia que foi por causa das artes e ritos mágicos dos egípcios que houve sequer a aparência de ele realizar algo (maravilhoso) na cidade que leva o nome dele, e isso, ainda por cima, somente depois de sua morte, um efeito que se diz ter sido produzido em outros templos pelos egípcios e pelos que são hábeis nas artes que praticam. Pois eles instalam em certos lugares demônios que reivindicam poder profético ou de cura, e que com frequência atormentam os que parecem ter cometido algum erro a respeito de tipos comuns de comida, ou a respeito de tocar o corpo morto de um homem, para que tenham a aparência de alarmar a multidão sem instrução. Dessa natureza é o ser que é considerado um deus em Antinópolis, no Egito, cujas (supostas) virtudes são as invenções mentirosas de alguns que vivem do ganho daí derivado, enquanto outros, enganados pelo demônio ali instalado, e outros ainda, condenados por uma consciência fraca, de fato pensam que estão pagando uma penalidade divina infligida por Antínoo. De tal natureza são também os mistérios que eles realizam, e as supostas predições que proferem. Bem diferentes desses são os de Jesus. Pois não foi uma companhia de feiticeiros, cortejando um rei ou governante a mando dele, que parecia tê-Lo feito um deus. Antes, foi o próprio Arquiteto do universo que, em harmonia com o poder maravilhosamente persuasivo de Suas palavras, O recomendou como digno de honra, não aos homens que eram bem dispostos, mas também aos demônios e a outros poderes invisíveis, que até no tempo presente mostram que ou temem o nome de Jesus como o de um ser de poder superior, ou O aceitam com reverência como seu legítimo governante. Pois, se a recomendação não lhe tivesse sido dada por Deus, os demônios não se teriam retirado daqueles a quem tinham assaltado, em obediência à mera menção de Seu nome.