Contra Celso - Livro III 7

Fé, razão e a origem do cristianismo

Que discursos filosóficos, contudo, marcados por disposição ordenada e expressão elegante, produzam tais resultados no caso desses indivíduos que acabamos de enumerar, e de outros que levaram vidas más, não é nada de admirar. Mas, quando consideramos que esses discursos a que Celso chama vulgares estão cheios de poder, como se fossem encantamentos, e vemos que de imediato convertem multidões de uma vida de libertinagem para uma de extrema regularidade, de uma vida de maldade para uma melhor, e de um estado de covardia ou fraqueza para um de coragem tão elevada que leva os homens a desprezar até a morte pela piedade que se mostra dentro deles, por que não admiraríamos com justiça o poder que eles contêm? Pois as palavras dos que primeiro assumiram o ofício de embaixadores cristãos e que dedicaram seus trabalhos a edificar as Igrejas de Deus, e também a sua pregação, vinham acompanhadas de um poder persuasivo, embora não como o que se encontra nos que professam a filosofia de Platão ou de qualquer outro filósofo meramente humano, que não possui outras qualidades além das da natureza humana. Mas a demonstração que seguia as palavras dos apóstolos de Jesus era dada por Deus e era confirmada pelo Espírito e pelo poder. E por isso a sua palavra corria rápida e veloz, ou melhor, a palavra de Deus por meio deles transformava grande número de pessoas que tinham sido pecadoras tanto por natureza quanto por hábito, que ninguém teria conseguido reformar pelo castigo, mas que foram mudadas pela palavra, que as moldava e transformava segundo o seu prazer.
Celso continua à sua maneira habitual, afirmando que mudar inteiramente uma natureza é coisa extremamente difícil. Nós, no entanto, que conhecemos apenas uma natureza em toda alma racional, e que sustentamos que nenhuma foi criada pelo Autor de todas as coisas, mas que muitas se tornaram más pela educação, pelo mau exemplo e pelas influências do ambiente, de modo que a maldade se naturalizou em alguns indivíduos, estamos convencidos de que, para a palavra de Deus, mudar uma natureza na qual o mal se naturalizou não não é impossível, como é até obra de não muito grande dificuldade, bastando que o homem creia que deve confiar-se ao Deus de todas as coisas e fazer tudo com vistas a agradar àquele junto a quem não pode acontecer que tanto o bom quanto o mau tenham a mesma honra, ou que o homem ocioso e o que muito trabalhou pereçam por igual. Mas, mesmo que seja extremamente difícil operar uma mudança em algumas pessoas, a causa deve ser atribuída à própria vontade delas, que reluta em aceitar a crença de que o Deus acima de todas as coisas é justo Juiz de todos os atos feitos durante a vida. Pois a escolha deliberada e a prática contam muito para a realização de coisas que parecem muito difíceis e, falando com exagero, quase impossíveis. A natureza do homem, ao desejar caminhar sobre uma corda estendida no ar pelo meio do teatro e carregar ao mesmo tempo pesos numerosos e pesados, conseguiu, pela prática e pela atenção, realizar tal façanha; mas, ao desejar viver em conformidade com a prática da virtude, vai achar impossível fazê-lo, ainda que antes tenha sido extremamente má? Veja se quem sustenta tais ideias não faz uma acusação contra a natureza do Criador do animal racional, mais do que contra a criatura, caso ele tenha formado a natureza do homem com poderes para alcançar coisas de tamanha dificuldade e de nenhuma utilidade, mas a tenha tornado incapaz de assegurar sua própria bem-aventurança. Mas essas observações podem bastar como resposta à afirmação de que mudar inteiramente uma natureza é coisa extremamente difícil. Ele alega, em seguida, que os que estão sem pecado participam de uma vida melhor, sem deixar claro o que entende por aqueles que estão sem pecado: se os que o são desde o princípio de suas vidas, ou os que o se tornam por uma transformação. Dos que o foram desde o princípio de suas vidas, não pode haver nenhum; ao passo que os que o são depois de uma transformação do coração se mostram poucos em número, sendo os que se tornaram assim depois de darem sua adesão à palavra que salva. E não eram assim quando deram sua adesão. Pois, sem o auxílio da palavra, e isso da palavra da perfeição, é impossível um homem ficar livre do pecado.
Em seguida, ele objeta à afirmação, como se fosse sustentada por nós, de que Deus poderá fazer todas as coisas, sem ver, nem aqui, como essas palavras são entendidas, quais são as todas as coisas nelas incluídas, e como se diz que Deus poderá. Mas sobre esses assuntos não é necessário falar agora; pois, embora ele pudesse, com alguma aparência de razão, ter-se oposto a essa proposição, não o fez. Talvez não tenha entendido os argumentos que se poderiam usar de modo plausível contra ela, ou, se entendeu, viu as respostas que se poderiam dar. Ora, em nosso juízo, Deus pode fazer tudo o que lhe é possível fazer sem deixar de ser Deus, e bom, e sábio. Mas Celso afirma, sem compreender o sentido da expressão Deus pode fazer todas as coisas, que ele não desejará fazer nada de mau, admitindo que tem o poder, mas não a vontade, de cometer o mal. Nós, ao contrário, sustentamos que, assim como aquilo que por natureza tem a propriedade de adoçar outras coisas pela sua própria doçura inerente não pode produzir amargor contrário à sua natureza peculiar, nem aquilo cuja natureza é produzir luz por ser luz pode causar escuridão, assim também Deus não é capaz de cometer maldade, pois o poder de fazer o mal é contrário à sua divindade e à sua onipotência. Ao passo que, se algo entre as coisas existentes é capaz de cometer maldade por estar inclinado à maldade por natureza, fá-lo por não ter em sua natureza a capacidade de não fazer o mal.
Ele, em seguida, assume o que não é concedido pela classe mais racional dos crentes, mas o que talvez seja tido por verdadeiro por alguns que carecem de inteligência: a saber, que Deus, como os que são vencidos pela pena, sendo ele próprio vencido, alivia os sofrimentos dos maus por pena de seus lamentos, e rejeita os bons, que não fazem nada desse tipo, o que é o cúmulo da injustiça. Ora, em nosso juízo, Deus não alivia o sofrimento de nenhum homem mau que não tenha se voltado para uma vida virtuosa, e não rejeita ninguém que seja bom, nem tampouco alivia o sofrimento de quem quer que se lamente simplesmente por proferir lamentação, ou tem pena dele, para usar a palavra pena em seu sentido mais comum. Mas os que passaram severa condenação sobre si mesmos por causa de seus pecados, e que, por essa razão, se lamentam e choram por si como perdidos, no que se refere à sua conduta anterior, e que manifestaram uma mudança satisfatória, são recebidos por Deus por causa de seu arrependimento, como os que passaram por uma transformação a partir de uma vida de grande maldade. Pois a virtude, ao se instalar na alma dessas pessoas e expulsar a maldade que antes as possuía, produz um esquecimento do passado. E, ainda que a virtude não consiga entrar, mesmo assim, se houver um progresso considerável na alma, isso basta, na proporção em que avança, para expulsar e destruir a torrente de maldade, de modo que ela quase deixa de permanecer na alma.
Em seguida, falando como na pessoa de um mestre de nossa doutrina, ele se expressa assim: os sábios rejeitam o que dizemos, sendo levados ao erro e apanhados por sua sabedoria. Em resposta a isso dizemos que, que a sabedoria é o conhecimento das coisas divinas e humanas e de suas causas, ou, como a define a palavra de Deus, o sopro do poder de Deus, e uma pura influência que emana da glória do Todo-Poderoso, e o esplendor da luz eterna, e o espelho sem mácula do poder de Deus, e a imagem da sua bondade, nenhum que fosse realmente sábio rejeitaria o que é dito por um cristão familiarizado com os princípios do cristianismo, nem seria levado ao erro ou apanhado por isso. Pois a verdadeira sabedoria não engana, mas a ignorância engana, enquanto, das coisas existentes, o conhecimento é permanente, e a verdade que deriva da sabedoria. Mas se, contrariando a definição de sabedoria, você chama de sábio qualquer um, seja quem for, que dogmatize com opiniões sofísticas, respondemos que, conforme aquilo que você chama de sabedoria, tal pessoa rejeita as palavras de Deus, sendo enganada e apanhada por sofismas plausíveis. E, que, segundo nossa doutrina, a sabedoria não é o conhecimento do mal, mas o conhecimento do mal, por assim dizer, está nos que sustentam opiniões falsas e são por elas enganados, eu, portanto, em tais pessoas, chamaria isso de ignorância em vez de sabedoria.
Depois disso, ele de novo calunia o embaixador do cristianismo e divulga a respeito dele que relata coisas ridículas, embora não mostre nem aponte claramente quais são as coisas que chama de ridículas. E, em suas calúnias, ele diz que nenhum sábio crê no Evangelho, sendo afastado pelas multidões que aderem a ele. E, nisso, ele age como quem dissesse que, por causa da multidão daquelas pessoas ignorantes que são submetidas às leis, nenhum sábio prestaria obediência a Sólon, por exemplo, ou a Licurgo, ou a Zaleuco, ou a qualquer outro legislador, especialmente se por sábio ele entende alguém que é sábio por viver em conformidade com a virtude. Pois, assim como, em relação a essas pessoas ignorantes, os legisladores, segundo suas ideias de utilidade, fizeram com que fossem cercadas de orientação e leis apropriadas, assim Deus, legislando por meio de Jesus Cristo para os homens em todas as partes do mundo, traz a si mesmo até os que não são sábios, do modo como é possível tais pessoas serem trazidas a uma vida melhor. E Deus, sabendo bem disso, como mostramos nas páginas anteriores, diz nos livros de Moisés: provocaram-me a ciúme com aquilo que não é Deus; irritaram-me com seus ídolos; e eu os provocarei a ciúme com aquilo que não é povo; irritá-los-ei com uma nação insensata. E Paulo, sabendo também disto, disse: mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo para confundir as sábias, chamando, de modo geral, de sábios todos os que parecem ter avançado no conhecimento, mas caíram num politeísmo ateu, pois, declarando-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus incorruptível por uma imagem semelhante ao homem corruptível, e a aves, e a quadrúpedes, e a répteis.
Ele acusa o mestre cristão, ainda por cima, de procurar os néscios. Em resposta, perguntamos: a quem você chama de néscios? Pois, falando com precisão, todo homem mau é néscio. Se, então, por néscios você entende os maus, ao atrair homens para a filosofia, você procura ganhar os maus ou os virtuosos? Mas é impossível ganhar os virtuosos, porque eles se entregaram à filosofia. Os maus, então, é a quem você procura; mas, se são maus, são néscios? E muitos assim você procura ganhar para a filosofia, e portanto você procura os néscios. Mas, se eu procuro os que são assim chamados de néscios, ajo como um médico benevolente que procura os doentes para ajudá-los e curá-los. Se, contudo, por néscios você entende pessoas que não são inteligentes, mas a classe intelectualmente inferior dos homens, responderei que me esforço por melhorar também essas o melhor que posso, embora eu não desejasse edificar a comunidade cristã com tais materiais. Pois eu busco de preferência os que são mais inteligentes e perspicazes, porque são capazes de compreender o sentido das frases difíceis e daquelas passagens na lei, nas profecias e nos Evangelhos que são expressas com obscuridade, e que você desprezou como se não contivessem nada digno de nota, porque você não apurou o sentido que elas contêm, nem tentou penetrar no propósito dos autores.
Mas, como ele depois diz que o mestre do cristianismo age como alguém que promete restaurar a saúde física dos doentes, mas que os impede de consultar médicos competentes, por quem sua ignorância seria exposta, vamos indagar em resposta: que médicos são esses a que você se refere, dos quais afastamos os indivíduos ignorantes? Pois você não supõe que exortamos a abraçar o Evangelho os que se dedicam à filosofia, de modo que você consideraria os filósofos os médicos dos quais mantemos afastados os que convidamos a vir à palavra de Deus. Ele, de fato, não dará resposta alguma, porque não pode nomear os médicos; ou então será obrigado a recorrer àqueles dentre eles que são ignorantes, e que, por vontade própria, se entregam servilmente ao culto de muitos deuses e a quaisquer outras opiniões sustentadas por indivíduos ignorantes. Em qualquer dos casos, então, ele será mostrado ter empregado em seu argumento, sem proveito, a ilustração de alguém que afasta outros de médicos competentes. Mas se, a fim de preservar da filosofia de Epicuro, e dos que são considerados médicos segundo seu sistema, os que são por eles enganados, por que não estaríamos agindo de modo muito razoável ao mantê-los afastados de uma doença perigosa causada pelos médicos de Celso, a saber, aquela que leva à aniquilação da providência e à introdução do prazer como um bem? Mas concedamos que de fato afastamos os que estimulamos a se tornarem nossos discípulos de outros filósofos-médicos, dos peripatéticos, por exemplo, que negam a existência da providência e a relação da Divindade com o homem. Por que não haveríamos de, piedosamente, instruir e curar os que foram assim estimulados, persuadindo-os a se dedicarem ao Deus de todas as coisas, e libertar os que nos prestam obediência das grandes feridas infligidas pelas palavras dos que são tidos por filósofos? E admitamos ainda que afastamos os homens dos médicos da seita dos estoicos, que introduzem um deus corruptível e afirmam que sua essência consiste num corpo, capaz de ser mudado e alterado em todas as suas partes, e que também sustentam que todas as coisas um dia perecerão, e que Deus permanecerá. Por que não haveríamos, mesmo assim, de libertar nossos discípulos dos males e trazê-los, por argumentos piedosos, a se dedicarem ao Criador e a admirar o Pai do sistema cristão, que dispôs as coisas de modo que a instrução do tipo mais benevolente, e adequada para a conversão das almas, fosse distribuída por todo o gênero humano? E mais: se curássemos os que caíram na tolice de crer na transmigração das almas, pelo ensino de médicos que afirmam que a natureza racional desce às vezes a todo tipo de animais irracionais, e às vezes àquele estado de ser que é incapaz de usar a imaginação, por que não haveríamos de melhorar as almas de nossos discípulos por meio de uma doutrina que não ensina que um estado de insensibilidade ou de irracionalidade é produzido nos maus em vez de castigo, mas que mostra que os trabalhos e castigos infligidos por Deus aos maus são uma espécie de remédios que levam à conversão? Pois os cristãos inteligentes, tendo isso em vista, tratam os simples como os pais tratam crianças muito pequenas. Não nos dirigimos, então, a pessoas jovens e a rústicos tolos dizendo-lhes: fujam dos médicos. Nem dizemos: cuidem para que nenhum de vocês se apodere do conhecimento; nem afirmamos que o conhecimento é um mal; nem somos loucos o bastante para dizer que o conhecimento faz os homens perderem a sanidade da mente. Nem mesmo diríamos que alguém algum dia se perdeu pela sabedoria; e, embora demos instrução, nunca dizemos: atenção a mim, mas: atenção ao Deus de todas as coisas, e a Jesus, o doador da instrução a respeito dele. E nenhum de nós é tão fanfarrão a ponto de dizer o que Celso pôs na boca de um de nossos mestres a seus conhecidos: eu vou salvar você. Observe aqui as mentiras que ele profere contra nós! Além disso, não afirmamos que médicos verdadeiros destroem aqueles que prometem curar.
E ele produz uma segunda ilustração em nosso desfavor, dizendo que nosso mestre age como um bêbado que, entrando numa companhia de bêbados, acusaria de estarem bêbados os que estão sóbrios. Mas que ele mostre, digamos pelos escritos de Paulo, que o apóstolo de Jesus se entregou à embriaguez e que suas palavras não eram de sobriedade; ou pelos escritos de João, que seus pensamentos não respiram um espírito de moderação e de liberdade da embriaguez do mal. Ninguém, então, que seja de mente e ensine as doutrinas do cristianismo se embriaga com vinho; mas Celso profere essas calúnias contra nós num espírito muito diferente do de um filósofo. Além disso, que Celso diga quem são as pessoas sóbrias que os embaixadores do cristianismo acusam. Pois, em nosso juízo, todos estão embriagados os que se dirigem a objetos inanimados como a Deus. E por que digo embriagados? Insanos seria a palavra mais apropriada para os que correm aos templos e adoram imagens ou animais como divindades. E não menos insanos são os que pensam que imagens, feitas por homens de caráter sem valor e às vezes muito mau, conferem alguma honra a divindades genuínas.
Ele, em seguida, compara nosso mestre a alguém que sofre de oftalmia, e seus discípulos aos que sofrem da mesma doença, e diz que tal pessoa, em meio a uma companhia dos afligidos pela oftalmia, acusa de cegos os que têm vista aguçada. Quem, então, perguntamos, ó gregos, são os que, em nosso juízo, não veem, senão os que são incapazes de erguer os olhos, diante da imensa grandeza do mundo e de seu conteúdo, e da beleza das coisas criadas, e de ver que devem adorar, admirar e reverenciar somente aquele que fez essas coisas, e que não convém tratar com reverência nada que seja inventado pelo homem e aplicado à honra de Deus, quer sem referência ao Criador, quer com ela? Pois comparar com aquela excelência ilimitada, que supera todo ser criado, coisas que não deveriam ser trazidas à comparação com ela, é o ato dos que têm o entendimento obscurecido. Não dizemos, então, que os que têm vista aguçada sofrem de oftalmia ou de cegueira; mas afirmamos que os que, na ignorância de Deus, se entregam a templos e imagens, e às chamadas estações sagradas, estão cegos em suas mentes, e especialmente quando, além de sua impiedade, vivem também em libertinagem, sem nem mesmo procurar qualquer obra honrosa que seja, mas fazendo tudo o que é de caráter vergonhoso.
Depois de levantar contra nós acusações de natureza tão grave, ele deseja dar a entender que, embora tenha outras a apresentar, passa-as em silêncio. Suas palavras são as seguintes: estas acusações tenho a fazer contra eles, e outras de natureza semelhante, sem as enumerar uma a uma; e afirmo que estão em erro e que agem com insolência para com Deus, a fim de levar os homens maus por esperanças vazias e persuadi-los a desprezar coisas melhores, dizendo que, se delas se abstiverem, será melhor para eles. Em resposta a isto, poder-se-ia dizer que, pelo poder que se mostra nos que se convertem ao cristianismo, não são de modo algum os maus que são conquistados para o Evangelho, mas a classe mais simples de pessoas e, como muitos as chamariam, os toscos. Pois tais indivíduos, pelo temor dos castigos ameaçados, que os desperta e os exorta a se absterem das ações seguidas de castigos, esforçam-se por se entregar à religião cristã, sendo influenciados pelo poder do Verbo a tal ponto que, pelo temor do que na palavra são chamados castigos eternos, desprezam todos os tormentos inventados contra eles entre os homens, a própria morte inclusive, junto com incontáveis outros males, o que nenhum sábio diria ser ato de pessoas de mente má. Como poderiam a temperança e a sobriedade de mente, ou a benevolência e a generosidade, ser praticadas por um homem de mente má? Aliás, nem mesmo o temor de Deus pode ser sentido por tal pessoa; com respeito ao qual, por ser útil aos muitos, o Evangelho encoraja os que ainda não são capazes de escolher aquilo que deveria ser escolhido por si mesmo, a escolhê-lo como a maior bênção, e acima de toda promessa; pois esse princípio não pode ser implantado em quem prefere viver na maldade.
Mas, se nessas matérias alguém imaginasse que é superstição, mais do que maldade, o que aparece na multidão dos que creem na palavra, e quisesse acusar nossa doutrina de tornar os homens supersticiosos, respondemos-lhe dizendo que, assim como certo legislador respondeu à pergunta de alguém que lhe perguntou se ele havia promulgado para seus cidadãos as melhores leis, que não lhes havia dado as melhores em termos absolutos, mas as melhores que eles eram capazes de receber, assim poderia ser dito pelo Pai da doutrina cristã: dei as melhores leis e a melhor instrução para o aprimoramento dos costumes de que os muitos eram capazes, não ameaçando os pecadores com trabalhos e castigos imaginários, mas com os que são reais e necessários de se aplicar para a correção dos que oferecem resistência, embora eles não entendam em nada o objetivo de quem inflige o castigo, nem o efeito dos trabalhos. Pois a doutrina do castigo é tanto acompanhada de utilidade quanto está de acordo com a verdade, e é declarada em termos obscuros com proveito. Além disso, como, na maioria das vezes, não são os maus que os embaixadores do cristianismo conquistam, tampouco insultamos a Deus. Pois falamos a respeito dele tanto o que é verdadeiro quanto o que parece claro aos muitos, mas não tão claro a eles quanto o é aos poucos que investigam as verdades do Evangelho de maneira filosófica.