Contra Celso - Livro III 3
Fé, razão e a origem do cristianismo
Ora, para conceder que de fato existiu um espírito de cura chamado Esculápio, que costumava curar os corpos dos homens, eu diria aos que se espantam com tal ocorrência, ou com o conhecimento profético de Apolo, que, já que a cura dos corpos é coisa indiferente, e está ao alcance não só dos bons, mas também dos maus, e já que a previsão do futuro também é coisa indiferente (pois quem possui a previsão não manifesta necessariamente a posse da virtude), você precisa mostrar que os que praticam a cura ou que predizem o futuro não são de modo algum perversos, mas exibem um modelo perfeito de virtude, e não estão longe de ser tidos por deuses. Mas eles não conseguirão mostrar que são virtuosos os que praticam a arte de curar, ou que são dotados de previsão, visto que se relata que muitos que não são dignos de viver foram curados, e esses, ainda por cima, pessoas que, por levarem vidas impróprias, nenhum médico sábio desejaria curar. E também nas respostas do oráculo Pítio você pode achar algumas ordens que não estão de acordo com a razão, das quais aduziremos duas nesta ocasião. A saber: quando ele deu o mandamento de que Cleômedes (o pugilista, suponho) fosse honrado com honras divinas, vendo alguma grande importância qualquer ligada à sua habilidade pugilística, mas não conferiu nem a Pitágoras nem a Sócrates as honras que concedeu ao pugilismo. E também quando chamou Arquíloco de servo das Musas, um homem que empregava seus poderes poéticos nos temas de natureza mais perversa e licenciosa, e cujo caráter público era devasso e impuro, e o intitulou piedoso por ser servo das Musas, que são tidas por deusas! Ora, inclino-me a pensar que ninguém afirmaria que era homem piedoso quem não era adornado de toda moderação e virtude, ou que um homem decoroso proferiria expressões como as que estão contidas nos iambos indecorosos de Arquíloco. E se nada que seja divino em si mesmo se mostra pertencer ou à habilidade de cura de Esculápio ou ao poder profético de Apolo, como poderia alguém, mesmo que eu concedesse que os fatos são como se alega, razoavelmente adorá-los como divindades puras? E especialmente quando o espírito profético de Apolo, livre de qualquer corpo de terra, entra secretamente pelas partes íntimas da pessoa daquela que é chamada sacerdotisa, enquanto ela está sentada à boca da caverna Pítia! Já a respeito de Jesus e de Seu poder, não temos tal noção, pois o corpo que nasceu da Virgem era composto de matéria humana, e capaz de receber feridas humanas e a morte.
Vejamos o que Celso diz a seguir, quando aduz da história ocorrências maravilhosas, que em si mesmas parecem ser incríveis, mas que não são desacreditadas por ele, ao menos no que aparece de suas palavras. E, em primeiro lugar, a respeito de Aristeas de Proconeso, de quem ele fala assim: Quanto a Aristeas de Proconeso, que desapareceu dentre os homens de modo tão indicativo de intervenção divina, e que se mostrou de novo de maneira tão inconfundível, e em muitas ocasiões posteriores visitou muitas partes do mundo, e anunciou eventos maravilhosos, e a quem Apolo ordenou que os habitantes de Metaponto considerassem um deus, ninguém o tem por deus. Esse relato ele parece ter tomado de Píndaro e Heródoto. Bastará, no entanto, por ora, citar a afirmação deste último escritor, do quarto livro de suas histórias, que é a seguinte: De que país era Aristeas, que fez esses versos, já se mencionou, e agora vou relatar o que ouvi a respeito dele em Proconeso e Cízico. Dizem que Aristeas, que não era inferior a nenhum dos cidadãos por nascimento, entrando numa loja de pisoeiro em Proconeso, morreu de repente, e que o pisoeiro, tendo fechado sua oficina, foi avisar os parentes do falecido. Quando o relato se espalhou pela cidade de que Aristeas estava morto, certo homem de Cízico, chegando de Artace, entrou em disputa com os que faziam o relato, afirmando que o tinha encontrado e conversado com ele em seu caminho para Cízico, e contestou veementemente a verdade do relato. Mas os parentes do falecido foram à loja do pisoeiro, levando consigo o necessário para carregar o corpo. Quando, no entanto, a casa foi aberta, Aristeas não foi visto, nem morto nem vivo. Dizem que depois, no sétimo ano, ele apareceu em Proconeso, compôs aqueles versos que pelos gregos são agora chamados Arimaspeus, e, tendo-os composto, desapareceu uma segunda vez. Tal é a história corrente nessas cidades. Mas essas coisas, eu sei, aconteceram aos metapontinos na Itália 340 anos após o segundo desaparecimento de Aristeas, como descobri por cálculo em Proconeso e Metaponto. Os metapontinos dizem que o próprio Aristeas, tendo aparecido em seu país, os exortou a erguer um altar a Apolo e a colocar perto dele uma estátua com o nome de Aristeas, o de Proconeso. Pois disse que Apolo tinha visitado o país deles, e somente o deles, dentre todos os italianos, e que ele mesmo, que era agora Aristeas, o acompanhava, e que, quando acompanhou o deus, era um corvo. E depois de dizer isso, sumiu. E os metapontinos dizem que enviaram a Delfos para perguntar ao deus o que significava a aparição do homem, mas o Pítio mandou que obedecessem à aparição, e que, se obedecessem, isso lhes traria proveito. Tendo eles, assim, recebido essa resposta, cumpriram as ordens. E agora uma estátua com o nome de Aristeas está colocada perto da imagem de Apolo, e ao redor dela plantaram-se loureiros: a imagem está colocada na praça pública. Isto basta a respeito de Aristeas.
Ora, em resposta a esse relato de Aristeas, temos a dizer que, se Celso o tivesse aduzido como história, sem indicar seu próprio assentimento à verdade dele, é de outro modo que teríamos enfrentado seu argumento. Mas, já que ele afirma que Aristeas desapareceu por intervenção da divindade, e se mostrou de novo de maneira inconfundível, e visitou muitas partes do mundo, e fez anúncios maravilhosos, e, além disso, que houve um oráculo de Apolo ordenando aos metapontinos que tratassem Aristeas como um deus, ele apresenta os relatos a respeito dele como por sua própria autoridade e com seu pleno assentimento. E, sendo esse o caso, perguntamos: como é possível que, supondo que as maravilhas relatadas pelos discípulos de Jesus a respeito de seu Mestre sejam totalmente fictícias, e censurando os que creem nelas, você, ó Celso, não considere essas suas histórias como produtos de charlatanismo ou invenções? E como, ao acusar outros de uma crença irracional nas maravilhas registradas de Jesus, você pode mostrar-se justificado em dar crédito a tal afirmação como a acima, sem produzir alguma prova ou evidência de que as supostas ocorrências de fato aconteceram? Ou Heródoto e Píndaro lhe parecem dizer a verdade, enquanto os que fizeram questão de morrer pela doutrina de Jesus, e que deixaram a seus sucessores escritos tão notáveis sobre as verdades em que criam, teriam entrado, por amor a ficções (como você as considera), e mitos, e charlatanices, numa luta que acarreta uma vida de perigo e uma morte de violência? Coloque-se, então, como parte neutra, entre o que se relata de Aristeas e o que se registra de Jesus, e veja se, pelo resultado, e pelos benefícios que vieram da reforma dos costumes e da adoração do Deus que está acima de todas as coisas, não é cabível concluir que devemos crer que os eventos registrados de Jesus não aconteceram sem a intervenção divina, mas que esse não foi o caso com a história de Aristeas, o de Proconeso.
Pois com que propósito em vista a Providência realizou as maravilhas relatadas de Aristeas? E para conferir que benefício à raça humana ocorreram tais eventos notáveis, como você os considera? Você não consegue responder. Mas nós, quando relatamos os eventos da história de Jesus, não temos uma defesa comum a oferecer para que tenham ocorrido, a saber, esta: que Deus desejou recomendar a doutrina de Jesus como uma doutrina destinada a salvar a humanidade, e que se baseou, de fato, nos apóstolos como fundamentos do edifício nascente do cristianismo, mas que também cresceu em magnitude nas eras seguintes, nas quais não poucas curas são realizadas em nome de Jesus, e certas outras manifestações de não pequena importância ocorreram. Ora, que tipo de pessoa é Apolo, que ordenou aos metapontinos que tratassem Aristeas como um deus? E com que objetivo ele faz isso? E que vantagem ele estava obtendo para os metapontinos com essa adoração divina, se eles deviam considerar como deus aquele que pouco antes era um mortal? E, no entanto, as recomendações de Apolo (visto por nós como um demônio que obteve a honra da libação e dos odores sacrificiais) a respeito desse Aristeas lhe parecem dignas de consideração, enquanto as do Deus de todas as coisas e de Seus santos anjos, dadas a conhecer de antemão por meio dos profetas (não depois do nascimento de Jesus, mas antes que Ele aparecesse entre os homens), não despertam em você admiração, não só pelos profetas que receberam o Espírito Divino, mas também por Aquele que era o objeto de suas predições, cuja entrada na vida foi tão claramente predita muitos anos antes por numerosos profetas, que todo o povo judeu, que estava na expectativa da vinda daquele que era esperado, depois do advento de Jesus, entrou em viva disputa uns com os outros. E uma grande multidão deles reconheceu Cristo, e creu que Ele era o objeto da profecia, enquanto outros não creram nele, mas, desprezando a mansidão dos que, por causa do ensino de Jesus, não queriam causar nem mesmo a mais insignificante sedição, ousaram infligir a Jesus aquelas crueldades que Seus discípulos tão verídica e francamente registraram, sem omitir secretamente de sua maravilhosa história dele o que parece à multidão trazer desonra à doutrina do cristianismo. Mas tanto o próprio Jesus quanto Seus discípulos desejavam que Seus seguidores cressem não apenas em Sua divindade e milagres, como se Ele não tivesse também participado da natureza humana e assumido a carne humana que cobiça contra o Espírito. Antes, eles viram também que o poder que tinha descido à natureza humana, e ao meio das misérias humanas, e que tinha assumido uma alma e um corpo humanos, contribuía, por meio da fé, junto com seus elementos divinos, para a salvação dos crentes, quando veem que dele começou a união do divino com a natureza humana, para que o humano, por comunhão com o divino, pudesse elevar-se a ser divino, não só em Jesus, mas em todos os que não apenas creem, mas entram na vida que Jesus ensinou, a qual eleva à amizade com Deus e à comunhão com Ele todo aquele que vive segundo os preceitos de Jesus.
Segundo Celso, então, Apolo desejou que os metapontinos tratassem Aristeas como um deus. Mas, como os metapontinos consideraram que a evidência a favor de Aristeas ser um homem (e provavelmente não um homem virtuoso) era mais forte do que a declaração do oráculo de que ele era um deus ou digno de honras divinas, por essa razão não obedeceram a Apolo, e por consequência ninguém teve Aristeas por deus. Mas, a respeito de Jesus, diríamos que, como era vantajoso para a raça humana aceitá-Lo como o Filho de Deus (Deus vindo em uma alma e um corpo humanos), e como isso não parecia ser vantajoso para os apetites glutões dos demônios que amam corpos, e para os que os têm por deuses por causa disso, os demônios que estão na terra (que são supostos deuses pelos que não estão instruídos na natureza dos demônios), e também seus adoradores, desejaram impedir a propagação da doutrina de Jesus. Pois viram que as libações e os odores em que se deliciavam avidamente estavam sendo varridos pela prevalência das instruções de Jesus. Mas o Deus que enviou Jesus dissipou todas as conspirações dos demônios, e fez o Evangelho de Jesus prevalecer pelo mundo inteiro para a conversão e a reforma dos homens, e fez com que Igrejas fossem estabelecidas por toda parte em oposição às assembleias dos homens supersticiosos, licenciosos e perversos, pois esse é o caráter das multidões que constituem os cidadãos nas assembleias das diversas cidades. Já as Igrejas de Deus, que são instruídas por Cristo, quando cuidadosamente contrastadas com as assembleias dos lugares em que estão situadas, são como faróis no mundo. Pois quem não admitiria que até os membros inferiores da Igreja, e os que, em comparação com os melhores, são menos dignos, são, ainda assim, mais excelentes do que muitos dos que pertencem às assembleias dos diferentes lugares?
Pois a Igreja de Deus, por exemplo, que está em Atenas, é um corpo manso e estável, sendo um que deseja agradar a Deus, que está acima de todas as coisas. Já a assembleia dos atenienses é dada à sedição, e de modo algum se compara à Igreja de Deus naquela cidade. E você pode dizer o mesmo da Igreja de Deus em Corinto e da assembleia do povo coríntio, e também da Igreja de Deus em Alexandria e da assembleia do povo de Alexandria. E se quem ouve isso for um homem sincero, e um que investiga as coisas com o desejo de averiguar a verdade, ele se encherá de admiração por Aquele que não só concebeu o plano, mas também foi capaz de garantir, em todos os lugares, o estabelecimento de Igrejas de Deus ao lado das assembleias do povo em cada cidade. Da mesma maneira, também, ao comparar o conselho da Igreja de Deus com o conselho de qualquer cidade, você descobriria que certos conselheiros da Igreja são dignos de governar na cidade de Deus, se houver alguma cidade assim no mundo inteiro. Já os conselheiros de todos os outros lugares não exibem em seu caráter nenhuma qualidade digna da superioridade convencional que parecem desfrutar sobre seus concidadãos. E assim, também, você precisa comparar o governante da Igreja em cada cidade com o governante do povo da cidade, a fim de observar que, mesmo entre aqueles conselheiros e governantes da Igreja de Deus que ficam muito aquém de seu dever, e que levam vidas mais indolentes do que outros mais enérgicos, é, ainda assim, possível descobrir uma superioridade geral, no que se refere ao progresso da virtude, sobre o caráter dos conselheiros e governantes das diversas cidades.
Ora, se essas coisas são assim, por que não seria coerente com a razão sustentar, a respeito de Jesus, que foi capaz de produzir resultados tão grandes, que nele habitava uma divindade nada comum? Enquanto isso não era o caso nem com o proconésio Aristeas (embora Apolo quisesse que ele fosse tido por deus), nem com os outros indivíduos enumerados por Celso, quando ele diz: Ninguém tem por deus Ábaris, o hiperbóreo, que possuía tal poder, a ponto de ser carregado como uma flecha disparada de um arco. Pois com que objetivo a divindade que concedeu a esse Ábaris hiperbóreo o poder de ser transportado como uma flecha lhe conferiu tal dom? Foi para que a raça humana fosse beneficiada com isso, ou ele mesmo obteve alguma vantagem da posse de tal poder? E isso sempre supondo que se conceda que essas afirmações não são totalmente invenções, mas que a coisa de fato aconteceu pela cooperação de algum demônio. Mas, se está registrado que o meu Jesus foi recebido na glória, percebo o arranjo divino em tal ato, a saber: que Deus, que fez com que isso acontecesse, recomenda, dessa maneira, o Mestre aos que o testemunharam, para que, como homens que lutam não por doutrina humana, mas por ensino divino, eles se dediquem o quanto possível ao Deus que está acima de tudo, e façam tudo a fim de agradar a Ele, como aqueles que hão de receber, no juízo divino, a recompensa do bem ou do mal que fizeram nesta vida.
Mas, como Celso menciona em seguida o caso do clazomênio, acrescentando à história sobre ele esta observação: Não se conta que a alma dele com frequência deixava o corpo e esvoaçava de forma incorpórea? E, no entanto, os homens não o tinham por deus. Temos a responder que provavelmente certos demônios perversos tramaram que tais afirmações fossem postas por escrito (pois não creio que tenham tramado que tal coisa de fato acontecesse), para que as predições a respeito de Jesus, e os discursos por Ele proferidos, ou fossem mal faladas, como invenções iguais a essas, ou não causassem nenhuma surpresa, por não serem mais notáveis do que outras ocorrências. Mas o meu Jesus disse a respeito de Sua própria alma (que foi separada do corpo não por força de alguma necessidade humana, mas pelo poder milagroso que lhe foi dado também para esse fim): Ninguém tira a minha vida de mim, mas eu a dou de mim mesmo. Tenho poder para dá-la, e tenho poder para retomá-la. Pois, como tinha poder para dá-la, deu-a quando disse: Pai, por que me desamparaste? E, tendo clamado com grande voz, entregou o espírito, antecipando-se aos executores públicos dos crucificados, que quebram as pernas das vítimas, e que fazem isso para que o castigo delas não se prolongue ainda mais. E retomou a Sua vida quando se manifestou a Seus discípulos, tendo, na presença deles, predito aos judeus incrédulos: Destruí este templo, e em três dias eu o levantarei de novo, e Ele falava isso do templo do Seu corpo. Os profetas, além disso, tinham predito tal resultado em muitas outras passagens de seus escritos, e nesta: A minha carne também repousará em esperança, pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção.
Celso, contudo, mostra que leu muitas histórias gregas, quando cita ainda o que se conta de Cleômedes de Astipaleia, que, segundo relata, entrou numa arca e, embora trancado dentro dela, não foi achado ali, mas, por algum arranjo da divindade, voou para fora, quando certas pessoas tinham aberto a arca a golpes para prendê-lo. Ora, essa história, se for uma invenção, como parece ser, não pode ser comparada com o que se relata de Jesus, já que nas vidas de tais homens não se encontra nenhum indício de que possuíssem a divindade que lhes é atribuída. Já a divindade de Jesus é estabelecida tanto pela existência das Igrejas dos que foram salvos, quanto pelas profecias proferidas a Seu respeito, e pelas curas realizadas em Seu nome, e pela sabedoria e conhecimento que há nele, e pelas verdades mais profundas que são descobertas por aqueles que sabem ascender de uma fé simples e investigar o sentido que jaz nas divinas Escrituras, de acordo com as ordens de Jesus, que disse: Examinai as Escrituras, e com o desejo de Paulo, que ensinou que devemos saber como responder a cada um, e ainda daquele que disse: Estai sempre prontos a responder a todo aquele que vos pedir a razão da fé que há em vós. Se ele quiser, no entanto, que se conceda que não se trata de uma ficção, que mostre com que objetivo esse poder sobrenatural o fez, por algum arranjo da divindade, fugir da arca. Pois, se ele aduzir alguma razão digna de consideração, e apontar algum propósito digno de Deus em conferir tal poder a Cleômedes, decidiremos sobre a resposta que devemos dar. Mas, se não conseguir dizer nada convincente sobre o ponto, claramente porque nenhuma razão pode ser descoberta, então ou falaremos com desdém da história aos que não a aceitaram, e a acusaremos de ser falsa, ou diremos que algum poder demoníaco, lançando um encantamento sobre os olhos, produziu, no caso do homem de Astipaleia, um resultado como o que é produzido pelos que fazem truques de ilusionismo, enquanto Celso pensa que, a respeito dele, falou como um oráculo, quando disse que, por algum arranjo divino, ele voou para fora da arca.
Sou, no entanto, de opinião que esses indivíduos são os únicos casos que Celso conhecia. E, no entanto, para que parecesse passar de propósito por outros casos semelhantes, ele diz: E poderíamos nomear muitos outros do mesmo tipo. Que se conceda, então, que muitas pessoas assim existiram, que não conferiram benefício algum à raça humana: a quanto se reduziria cada um de seus atos, em comparação com a obra de Jesus, e os milagres relatados dele, dos quais já falamos com considerável extensão? Ele em seguida imagina que, ao adorar aquele que, como diz, foi feito prisioneiro e morto, agimos como os getas que adoram Zalmóxis, e os cilícios que adoram Mopso, e os acarnânios que prestam honras divinas a Anfíloco, e como os tebanos que fazem o mesmo a Anfiarau, e os lebádios a Trofônio. Ora, nesses casos provaremos que ele nos comparou aos anteriores sem bons fundamentos. Pois essas diferentes tribos ergueram templos e estátuas àqueles indivíduos acima enumerados, ao passo que nós nos abstivemos de oferecer honra à Divindade por qualquer meio assim (visto que tais meios são adequados antes aos demônios, que de algum modo estão fixados em certo lugar que preferem a qualquer outro, ou que estabelecem sua morada, por assim dizer, depois de serem removidos de um lugar para outro por certos ritos e encantamentos). E estamos perdidos em admiração reverente por Jesus, que recobrou as nossas mentes de todas as coisas sensíveis, por serem não só corruptíveis, mas destinadas à corrupção, e as elevou a honrar o Deus que está acima de tudo com orações e uma vida justa, que oferecemos a Ele como sendo intermediário entre a natureza do incriado e a de todas as coisas criadas, e que nos concede os benefícios que vêm do Pai, e que, como Sumo Sacerdote, leva as nossas orações ao Deus supremo.