Contra Celso - Livro III 1
Fé, razão e a origem do cristianismo
No primeiro livro de nossa resposta à obra de Celso, que havia intitulado com vaidade o tratado que compôs contra nós de O Discurso Verdadeiro, percorremos, como você pediu, meu fiel Ambrósio, na medida de nossas forças, o prefácio dele e as partes que vinham logo em seguida, examinando cada uma de suas afirmações conforme avançávamos, até concluirmos com o discurso furioso desse judeu que ele inventa, fingido como se tivesse sido proferido contra Jesus. E no segundo livro enfrentamos, da melhor maneira que pudemos, todas as acusações contidas na invectiva do tal judeu, dirigidas contra nós que cremos em Deus por meio de Cristo. Agora entramos nesta terceira parte de nosso discurso, cujo objetivo é refutar as alegações que ele faz em seu próprio nome. Ele declara ser de sua opinião que a controvérsia entre judeus e cristãos é coisa das mais tolas, e afirma que as discussões que temos uns com os outros a respeito de Cristo em nada diferem do que o provérbio chama de 'uma briga pela sombra de um burro'. E acha que não há nada de importante nas investigações dos judeus e dos cristãos, pois ambos creem que foi predito pelo Espírito Divino que alguém viria como Salvador da raça humana, mas ainda não concordam sobre se a pessoa predita de fato veio ou não. Nós cristãos, de fato, cremos em Jesus como aquele que veio segundo as predições dos profetas. Mas a maioria dos judeus está tão longe de crer nele que aqueles que viveram no tempo de sua vinda conspiraram contra ele; e os de hoje, aprovando o que os judeus de antigamente ousaram fazer contra ele, falam mal dele, afirmando que foi por meio de feitiçaria que ele se fez passar por aquele que os profetas predisseram como o que havia de vir, e que, conforme as tradições dos judeus, era chamado o Cristo.
Mas que Celso, e os que concordam com suas acusações, nos digam se em algo se parece com a sombra de um burro que os profetas judeus tenham predito o lugar de nascimento daquele que seria o governante dos que viveram vidas justas, e que são chamados a herança de Deus; e que o Emanuel seria concebido por uma virgem; e que tais sinais e prodígios seriam realizados por aquele que era o objeto da profecia; e que sua palavra teria curso tão rápido que a voz de seus apóstolos sairia por toda a terra; e que ele padeceria certos sofrimentos depois de ser condenado pelos judeus; e que ressuscitaria dos mortos. Pois teria sido por acaso que os profetas fizeram esses anúncios, sem nenhuma convicção da verdade em suas mentes, que os movesse não só a falar, mas a julgar seus anúncios dignos de serem postos por escrito? E uma nação tão grande como a dos judeus, que muito tempo antes havia recebido um país próprio para nele habitar, reconheceu certos homens como profetas e rejeitou outros como proferidores de falsas predições, sem nenhuma convicção da solidez dessa distinção? E não houve motivo algum que os levasse a colocar entre os livros de Moisés, tidos como sagrados, as palavras daqueles que depois foram considerados profetas? E poderão os que acusam de tolice os judeus e os cristãos mostrar-nos como a nação judaica poderia ter continuado a subsistir, caso não existisse entre eles nenhuma promessa do conhecimento de eventos futuros? E como, enquanto cada uma das nações vizinhas acreditava, segundo suas antigas instituições, que recebia oráculos e predições daqueles que tinham por deuses, só este povo, que fora ensinado a desprezar como não sendo deuses, mas demônios, todos os que os pagãos consideravam deuses, segundo a declaração dos profetas, Pois todos os deuses das nações são demônios, não teve entre eles ninguém que se dissesse profeta e que pudesse conter aqueles que, por desejo de conhecer o futuro, estavam prontos a desertar para os demônios das outras nações? Julgue, então, se não era uma necessidade que, tendo a nação inteira sido ensinada a desprezar as divindades de outras terras, tivessem em abundância profetas que dessem a conhecer eventos muito mais importantes em si mesmos, e que superavam os oráculos de todos os outros países.
Em seguida, milagres foram realizados em todos os países, ou pelo menos em muitos deles, como o próprio Celso admite, citando o caso de Esculápio, que concedeu benefícios a muitos e que predisse eventos futuros a cidades inteiras, consagradas a ele, como Trica, Epidauro, Cós e Pérgamo; e junto com Esculápio menciona Aristeas de Proconeso, e um certo clazomênio, e Cleomedes de Astipaleia. Mas só entre os judeus, que dizem ser consagrados ao Deus de todas as coisas, não se operou milagre ou sinal que pudesse ajudar a confirmar sua fé no Criador de todas as coisas e fortalecer sua esperança de outra vida, melhor! Mas como podem imaginar tal situação? Pois eles teriam de imediato passado ao culto daqueles demônios que davam oráculos e realizavam curas, e abandonado o Deus que, em palavras ao menos, se acreditava ajudá-los, mas que nunca lhes manifestou sua presença visível. Mas se esse resultado não se deu e se, ao contrário, eles sofreram incontáveis calamidades em vez de renunciar ao judaísmo e à sua lei, e foram tratados com crueldade, ora na Assíria, ora na Pérsia, ora sob Antíoco, não está de acordo com as probabilidades do caso supor, para os que não dão crédito às suas histórias e profecias milagrosas, que os eventos em questão não poderiam ser invenções, mas que um certo Espírito divino, estando nas almas santas dos profetas, como em homens que enfrentavam qualquer esforço pela causa da virtude, os movia a profetizar algumas coisas relativas aos seus contemporâneos e outras à sua posteridade, mas sobretudo a respeito de certa pessoa que viria como Salvador da raça humana?
E se esse é o estado do caso, como é que judeus e cristãos buscam a sombra de um burro ao procurar averiguar, a partir daquelas profecias em que ambos creem, se aquele que foi predito já veio, ou ainda não chegou e continua sendo objeto de expectativa? Mas suponhamos que se conceda a Celso que não foi Jesus o anunciado pelos profetas. Então, mesmo nessa hipótese, a investigação do sentido dos escritos proféticos não é busca pela sombra de um burro, se aquele de quem se falou puder ser claramente indicado, e se for possível mostrar tanto que tipo de pessoa foi predito que ele seria, quanto o que haveria de fazer, e, se possível, quando haveria de chegar. Mas nas páginas anteriores já falamos sobre o ponto de Jesus ser aquele que foi predito como o Cristo, citando algumas profecias de um número maior delas. Nem os judeus nem os cristãos, portanto, estão errados ao supor que os profetas falaram sob influência divina; mas estão em erro os que formam opiniões equivocadas a respeito daquele que os profetas esperavam que viesse, e cuja pessoa e caráter foram dados a conhecer em seus verdadeiros discursos.
Logo após esses pontos, Celso, imaginando que os judeus são egípcios por descendência, e que haviam abandonado o Egito depois de se revoltarem contra o Estado egípcio e desprezarem os costumes daquele povo em matéria de culto, diz que eles sofreram, da parte dos seguidores de Jesus, que nele creram como o Cristo, o mesmo tratamento que haviam infligido aos egípcios; e que a causa que levou à nova ordem de coisas em ambos os casos foi a rebelião contra o Estado. Observemos agora o que Celso fez aqui. Os antigos egípcios, depois de infligir muitas crueldades à raça hebraica, que se estabelecera no Egito por causa de uma fome que irrompera na Judeia, sofreram, em consequência de sua injustiça para com estrangeiros e suplicantes, aquele castigo que a divina Providência decretara que recairia sobre a nação inteira por terem se unido contra um povo inteiro que fora seu hóspede e que nenhum mal lhes fizera; e depois de serem feridos por pragas vindas de Deus, permitiram-lhes, com dificuldade e após breve período, ir para onde quisessem, por estarem injustamente retidos na escravidão. Porque, então, eram um povo egoísta, que honrava os que de algum modo lhes eram aparentados muito mais do que a estrangeiros de vidas melhores, não há acusação que tenham deixado de levantar contra Moisés e os hebreus, sem de fato negar por completo os milagres e prodígios feitos por ele, mas alegando que foram operados por feitiçaria, e não por poder divino. Moisés, no entanto, não como um mágico, mas como homem devoto, e dedicado ao Deus de todas as coisas, e participante do Espírito divino, tanto promulgou leis para os hebreus, segundo as sugestões da Divindade, quanto registrou os eventos como aconteceram, com perfeita fidelidade.
Celso, portanto, não investigando com espírito de imparcialidade os fatos, relatados pelos egípcios de um modo e pelos hebreus de outro, mas estando enfeitiçado, por assim dizer, em favor dos primeiros, aceitou como verdadeiras as declarações dos que haviam oprimido os estrangeiros, e afirmou que os hebreus, que tinham sido tratados injustamente, haviam partido do Egito depois de se revoltarem contra os egípcios. Ele não percebe quão impossível era que uma multidão tão grande de egípcios rebeldes se tornasse uma nação que, datando sua origem da tal revolta, mudasse de língua no momento de sua rebelião, de modo que aqueles que até então usavam o idioma egípcio adotassem por completo, de uma só vez, a língua dos hebreus! Concedamos, no entanto, segundo a suposição dele, que ao abandonar o Egito eles conceberam também ódio à sua língua materna. Como teria acontecido que, depois de fazer isso, não adotassem antes a língua síria ou fenícia, em vez de preferir o hebraico, que é diferente de ambas? Mas a razão me parece demonstrar que é falsa a afirmação que faz aqueles que eram egípcios de raça terem se revoltado contra os egípcios, deixado o país, seguido para a Palestina e ocupado a terra agora chamada Judeia. Pois o hebraico era a língua de seus pais antes de descerem ao Egito; e as letras hebraicas, empregadas por Moisés ao escrever aqueles cinco livros tidos como sagrados pelos judeus, eram diferentes das dos egípcios.
Do mesmo modo, assim como é falsa a afirmação de que os hebreus, sendo (originalmente) egípcios, dataram o início (de sua existência política) do tempo de sua rebelião, também o é esta: que nos dias de Jesus outros, que eram judeus, se revoltaram contra o Estado judaico e se tornaram seus seguidores. Pois nem Celso nem os que pensam como ele conseguem apontar qualquer ato da parte dos cristãos que tenha sabor de rebelião. E, no entanto, se uma revolta tivesse levado à formação da comunidade cristã, de modo que ela derivasse sua existência, por essa via, da dos judeus, aos quais era permitido pegar em armas em defesa dos membros de suas famílias e matar seus inimigos, o Legislador cristão não teria proibido por completo a morte de homens; e, contudo, ele em nenhum lugar ensina ser correto que seus próprios discípulos ofereçam violência a quem quer que seja, por mais perverso que seja. Pois ele não julgou condizente com leis como as suas, derivadas de uma fonte divina, permitir a morte de qualquer indivíduo que fosse. Nem os cristãos, tivessem devido sua origem a uma rebelião, teriam adotado leis de caráter tão extraordinariamente brando, a ponto de não lhes permitir, quando lhes coubesse em sorte serem mortos como ovelhas, resistir em ocasião alguma aos seus perseguidores. E, na verdade, se olharmos um pouco mais fundo nas coisas, podemos dizer a respeito do êxodo do Egito que é um milagre uma nação inteira ter adotado de uma só vez a língua chamada hebraico, como se fosse um dom do céu, quando um de seus próprios profetas disse: Ao saírem do Egito, ouviram uma língua que não entendiam.
Da maneira seguinte também podemos concluir que aqueles que saíram do Egito com Moisés não eram egípcios; pois, se tivessem sido egípcios, seus nomes também seriam egípcios, porque em toda língua as designações (de pessoas e coisas) são aparentadas à língua. Mas se é certo, pelo fato de os nomes serem hebraicos, que o povo não era egípcio (e as Escrituras estão cheias de nomes hebraicos, dados, aliás, aos seus filhos enquanto ainda estavam no Egito), fica claro que o relato egípcio é falso, pois afirma que eram egípcios e saíram do Egito com Moisés. Ora, é absolutamente certo que, sendo descendentes, como registra a história mosaica, de ancestrais hebreus, eles empregavam uma língua da qual também tiravam os nomes que davam aos seus filhos. Mas quanto aos cristãos, porque foram ensinados a não se vingar de seus inimigos (e assim observaram leis de caráter brando e filantrópico); e porque não teriam, ainda que capazes, feito guerra mesmo que tivessem recebido autoridade para isso, receberam de Deus esta recompensa: que ele sempre guerreou em favor deles e, em certas ocasiões, conteve os que se levantavam contra eles e desejavam destruí-los. Pois, para lembrar aos outros que, vendo alguns poucos empenhados numa luta por sua religião, eles também ficariam mais aptos a desprezar a morte, alguns, em ocasiões especiais, e estes indivíduos que podem ser facilmente contados, suportaram a morte por causa do cristianismo, não permitindo Deus que a nação inteira fosse exterminada, mas desejando que ela continuasse, e que o mundo inteiro se enchesse dessa doutrina salutar e religiosa. E, por outro lado, para que os de mente mais fraca pudessem recobrar a coragem e elevar-se acima do pensamento da morte, Deus interpôs sua providência em favor dos crentes, dispersando, por um ato somente de sua vontade, todas as conspirações formadas contra eles; de modo que nem reis, nem governantes, nem o povo pudessem enfurecer-se contra eles além de certo ponto. Tal, então, é a nossa resposta às afirmações de Celso, de que uma revolta foi o começo originário do antigo Estado judaico e, depois, do cristianismo.
Mas, como ele é manifestamente culpado de falsidade nas declarações que se seguem, examinemos sua afirmação quando diz: Se todos os homens quisessem se tornar cristãos, os cristãos não desejariam tal resultado. Ora, que a afirmação acima é falsa fica claro disto: que os cristãos não deixam, no que está ao seu alcance, de tomar medidas para difundir sua doutrina pelo mundo inteiro. Alguns deles, por isso, fizeram questão de percorrer não só cidades, mas até aldeias e casas de campo, para fazer convertidos a Deus. E ninguém sustentaria que faziam isso por amor ao lucro, já que às vezes não aceitavam nem o sustento necessário; ou, se em algum momento eram pressionados por uma necessidade desse tipo, contentavam-se com o mero suprimento de suas carências, embora muitos estivessem dispostos a partilhar (de sua fartura) com eles e a prestar-lhes ajuda muito acima de sua necessidade. No presente, de fato, quando, por causa da multidão de crentes cristãos, não só homens ricos, mas pessoas de posição, e damas delicadas e de alta linhagem recebem os mestres do cristianismo, alguns talvez ousem dizer que é por um pouco de glória que certos indivíduos assumem o ofício de instrutores cristãos. É impossível, no entanto, nutrir racionalmente tal suspeita a respeito do cristianismo em seus inícios, quando o perigo incorrido, especialmente pelos seus mestres, era grande; ao passo que, no presente, o descrédito que lhe é atribuído entre o restante da humanidade é maior do que qualquer suposta honra desfrutada entre os que têm a mesma crença, sobretudo quando tal honra não é partilhada por todos. É falso, então, pela própria natureza do caso, dizer que, se todos os homens quisessem se tornar cristãos, os cristãos não desejariam tal resultado.
Mas observe o que ele alega como prova de sua afirmação: Os cristãos, no início, eram poucos em número, e tinham as mesmas opiniões; mas quando cresceram até serem uma grande multidão, dividiram-se e separaram-se, cada um querendo ter seu próprio partido individual: pois esse era o objetivo deles desde o começo. Que os cristãos, no início, eram poucos em número, em comparação com as multidões que depois se tornaram cristãs, é indubitável; e, contudo, considerando tudo, não eram tão poucos assim. Pois o que despertou a inveja dos judeus contra Jesus, e os incitou a conspirar contra ele, foi o grande número dos que o seguiram ao deserto: cinco mil homens em uma ocasião, e quatro mil em outra, tendo-o acompanhado ali, sem contar as mulheres e as crianças. Pois tamanho era o encanto das palavras de Jesus que não só homens estavam dispostos a segui-lo ao deserto, mas também mulheres, esquecendo a fraqueza de seu sexo e o cuidado com o decoro externo ao seguir assim o seu Mestre por lugares desertos. Crianças, também, que de modo algum são tocadas por tais emoções, seguindo seus pais ou talvez atraídas também por sua divindade, para que esta fosse implantada nelas, tornaram-se seus seguidores junto com seus pais. Mas concedamos que os cristãos eram poucos em número no começo: como isso ajuda a provar que os cristãos não estariam dispostos a fazer todos os homens crerem na doutrina do Evangelho?
Ele diz, além disso, que todos os cristãos eram de um só pensamento, não percebendo, nem mesmo neste ponto, que desde o início havia diferenças de opinião entre os crentes a respeito do sentido dos livros tidos por divinos. De todo modo, enquanto os apóstolos ainda pregavam, e enquanto testemunhas oculares (das obras) de Jesus ainda ensinavam sua doutrina, não foi pequena a discussão entre os convertidos do judaísmo a respeito dos crentes gentios, sobre o ponto de saber se deviam observar os costumes judaicos, ou se deviam rejeitar o fardo das carnes puras e impuras, como não sendo obrigatório àqueles que tinham abandonado seus costumes gentios ancestrais e se tornado crentes em Jesus. Mais ainda: mesmo nas Epístolas de Paulo, que foi contemporâneo dos que haviam visto Jesus, encontram-se certos pormenores mencionados como tendo sido objeto de disputa, a saber, a respeito da ressurreição, e se ela já era passada, e do dia do Senhor, se estava ou não próximo. Mais ainda: a própria exortação a evitar conversas profanas e vãs, e oposições da ciência falsamente chamada assim: a qual alguns, professando, erraram quanto à fé, basta para mostrar que desde o começo, quando, como Celso imagina, os crentes eram poucos em número, havia certas doutrinas interpretadas de modos diferentes.