Contra Celso - Livro III 1
Fé, razão e a origem do cristianismo
Do mesmo modo, assim como é falsa a afirmação de que os hebreus, sendo (originalmente) egípcios, dataram o início (de sua existência política) do tempo de sua rebelião, também o é esta: que nos dias de Jesus outros, que eram judeus, se revoltaram contra o Estado judaico e se tornaram seus seguidores. Pois nem Celso nem os que pensam como ele conseguem apontar qualquer ato da parte dos cristãos que tenha sabor de rebelião. E, no entanto, se uma revolta tivesse levado à formação da comunidade cristã, de modo que ela derivasse sua existência, por essa via, da dos judeus, aos quais era permitido pegar em armas em defesa dos membros de suas famílias e matar seus inimigos, o Legislador cristão não teria proibido por completo a morte de homens; e, contudo, ele em nenhum lugar ensina ser correto que seus próprios discípulos ofereçam violência a quem quer que seja, por mais perverso que seja. Pois ele não julgou condizente com leis como as suas, derivadas de uma fonte divina, permitir a morte de qualquer indivíduo que fosse. Nem os cristãos, tivessem devido sua origem a uma rebelião, teriam adotado leis de caráter tão extraordinariamente brando, a ponto de não lhes permitir, quando lhes coubesse em sorte serem mortos como ovelhas, resistir em ocasião alguma aos seus perseguidores. E, na verdade, se olharmos um pouco mais fundo nas coisas, podemos dizer a respeito do êxodo do Egito que é um milagre uma nação inteira ter adotado de uma só vez a língua chamada hebraico, como se fosse um dom do céu, quando um de seus próprios profetas disse: Ao saírem do Egito, ouviram uma língua que não entendiam.