Contra Celso - Livro III 8
Fé, razão e a origem do cristianismo
Vendo, contudo, que Celso alega que os cristãos são conquistados por nós através de esperanças vãs, respondemos-lhe assim quando ele censura nossa doutrina da vida bem-aventurada e da comunhão com Deus: quanto a você, bom senhor, também são conquistados por esperanças vãs os que aceitaram a doutrina de Pitágoras e Platão a respeito da alma, de que é da sua natureza ascender à abóbada do céu e, no espaço supraceleste, contemplar as visões que são vistas pelos bem-aventurados espectadores do alto. Segundo você, ó Celso, também os que aceitaram a doutrina da duração da alma após a morte, e que levam uma vida pela qual se tornam heróis e fazem suas moradas com os deuses, são conquistados por esperanças vãs. Provavelmente, também os que estão persuadidos de que a alma vem de fora para o corpo, e de que ela será retirada do poder da morte, seriam, segundo Celso, conquistados por esperanças vazias. Que ele, então, venha ao embate, não mais ocultando a seita à qual pertence, mas confessando ser um epicurista, e que enfrente os argumentos, não levianamente apresentados entre gregos e bárbaros, a respeito da imortalidade da alma, ou de sua duração após a morte, ou da imortalidade do princípio pensante; e que ele prove que essas são palavras que enganam com esperanças vazias os que lhes dão seu assentimento, mas que os adeptos de seu sistema filosófico estão livres de esperanças vazias, e que de fato conduzem a esperanças de bem, ou, o que é mais coerente com suas opiniões, não dão origem a esperança alguma, por causa da imediata e completa destruição da alma após a morte. A menos, talvez, que Celso e os epicuristas neguem que seja uma esperança vã a que eles alimentam a respeito de seu fim, o prazer, que, segundo eles, é o bem supremo, e que consiste na saúde permanente do corpo, e a esperança a respeito dele que Epicuro alimenta.
E não pense que contraria a religião cristã eu ter aceitado, contra Celso, as opiniões dos filósofos que trataram da imortalidade ou da continuidade da alma após a morte. Por compartilharmos com eles certos pontos de vista, fica mais fácil estabelecer nossa posição: a vida futura de bem-aventurança será apenas para aqueles que aceitaram a religião que é segundo Jesus, e aquela devoção ao Criador de todas as coisas que é pura e sincera, sem mistura de nenhuma coisa criada. Quem quiser, que mostre quais coisas melhores nós persuadimos os homens a desprezar, e que compare o fim bem-aventurado com Deus em Cristo (isto é, o Verbo, a sabedoria e toda virtude), que, segundo nosso entendimento, será concedido pelo dom de Deus aos que viveram uma vida pura e irrepreensível e que sentiram um amor único e indivisível pelo Deus de todas as coisas, com aquele fim que decorre do ensino de cada escola filosófica, seja grega ou bárbara, ou das promessas dos mistérios religiosos. E que prove que o fim anunciado por qualquer um dos outros é superior ao que nós prometemos, e que, por consequência, esse é verdadeiro, e o nosso é indigno do dom de Deus e dos que viveram uma vida boa. Ou então que prove que estas palavras não foram ditas pelo Espírito divino, que encheu as almas dos santos profetas. E quem quiser, que mostre que aquelas palavras reconhecidas por todos os homens como humanas são superiores às que se comprovam divinas e proferidas por inspiração. E quais são as coisas melhores das quais ensinamos os que as recebem que seria melhor se abster? Pois, se não for arrogante falar assim, é evidente por si mesmo que nada pode ser apontado como melhor do que confiar-se ao Deus de todos, e entregar-se à doutrina que nos eleva acima de todas as coisas criadas e nos conduz, por meio do verbo animado e vivo (que é também a sabedoria viva e o Filho de Deus), a Deus que está acima de tudo. Mas, como o terceiro livro de nossas respostas ao tratado de Celso já se estendeu o bastante, encerramos aqui as observações presentes, e no que vem a seguir enfrentaremos o que Celso escreveu em seguida.