Capítulos

História Eclesiástica - Livro II

Autor e Data de Composição

Eusébio de Cesareia, bispo na Palestina entre o fim do século III e a primeira metade do IV, compôs a sua História Eclesiástica em dez livros, concluída em sua forma final por volta de 325. É a primeira grande história do cristianismo e a fonte principal para o conhecimento da Igreja dos três primeiros séculos, em boa parte porque Eusébio transcreve documentos e autores hoje perdidos.

O Livro II na Obra

O Livro II cobre a era apostólica, do período logo após a ascensão até o início da guerra judaica contra Roma e os martírios de Pedro e Paulo sob Nero, por volta de 64 a 67. Eusébio entrelaça a narrativa dos Atos dos Apóstolos com longas citações de Josefo, de Filo de Alexandria, de Clemente de Alexandria e do historiador cristão Hegesipo. Para o tema das mortes dos apóstolos, este é um dos livros centrais: aqui estão o martírio de Tiago, filho de Zebedeu, o de Tiago o Justo e a tradição da execução de Pedro e Paulo em Roma.

Conteúdo do Livro

A Morte de Herodes Agripa

O capítulo 10 narra a morte de Herodes Agripa I, em 44. Eusébio coloca lado a lado o relato de Atos 12:23, em que um anjo do Senhor fere o rei e ele morre comido por vermes, e o de Josefo nas Antiguidades, que descreve fortes dores abdominais ao longo de cinco dias após o rei ser aclamado como deus. As duas fontes concordam no essencial, a morte súbita após a presunção do rei, mas diferem na linguagem, uma providencial e a outra mais clínica. É um dos pontos em que Atos e Josefo se confirmam mutuamente.

O Martírio de Tiago, o Justo

O capítulo 23 preserva o relato de Hegesipo sobre a morte de Tiago, irmão do Senhor e líder da igreja de Jerusalém. Nessa versão, Tiago é levado ao pináculo do Templo, lançado de lá, apedrejado e por fim morto com o bastão de um pisoeiro, orando pelos seus algozes. Josefo, numa passagem tida como autêntica, registra de forma mais sóbria que Tiago foi apedrejado por ordem do sumo sacerdote Anano, por volta de 62. A crítica tende a preferir a versão de Josefo como mais histórica e a ver no relato de Hegesipo uma narrativa modelada sobre a paixão de Cristo. Eusébio também cita uma frase atribuída a Josefo, ligando a destruição de Jerusalém à morte de Tiago, que não se encontra nas obras conhecidas do historiador.

O Martírio de Pedro e Paulo

O capítulo 25 reúne as tradições sobre a morte dos dois apóstolos em Roma durante a perseguição de Nero. Eusébio cita Tertuliano, o presbítero Caio, que falava dos "troféus" de Pedro no Vaticano e de Paulo na via Ostiense, e Dionísio de Corinto. Segundo essas tradições, Paulo, cidadão romano, foi decapitado, e Pedro foi crucificado. O detalhe da crucificação de cabeça para baixo não está aqui: vem de Orígenes e dos apócrifos Atos de Pedro. A presença e a morte dos dois apóstolos em Roma são aceitas pela maioria dos historiadores como prováveis, ainda que a data exata, entre 64 e 67, e os pormenores sejam tradição e não documentação contemporânea. As escavações sob a Basílica de São Pedro e em São Paulo Fora dos Muros revelaram monumentos antigos compatíveis com essas memórias, sem que se possa confirmar a identificação dos restos.

Uma Leitura Anacrônica: Os Terapeutas

No capítulo 17 Eusébio interpreta os terapeutas descritos por Filo, uma comunidade ascética às margens do lago Mareótis, no Egito, como os primeiros monges cristãos fundados por Marcos. A erudição moderna rejeita essa leitura: os terapeutas eram ascetas judeus do século I, anteriores ou contemporâneos do cristianismo nascente, e as semelhanças com a vida monástica posterior se explicam por um fundo ascético comum, não por uma origem cristã.

Sobre Esta Tradução

A tradução portuguesa foi feita a partir da versão inglesa de Arthur Cushman McGiffert, publicada em 1890 na série Nicene and Post-Nicene Fathers e hoje em domínio público. As seções numeradas de cada capítulo foram tratadas como versículos para facilitar a referência. O aparato crítico da edição original não foi incluído no corpo do texto.

Valor Histórico

O Livro II é uma das fontes antigas mais importantes sobre as mortes dos apóstolos, mas combina relatos de valor desigual. As passagens em que Eusébio cita Josefo e documentos romanos têm peso histórico. As tradições sobre os martírios preservam memórias antigas, ainda que filtradas pela devoção e pela teologia da retribuição divina, que Eusébio aplica de modo recorrente à sorte dos judeus e dos perseguidores. A leitura pede que se distinga o que é documento do que é tradição piedosa.