História Eclesiástica - Livro II 22
Livro II: a era apostólica de Tibério a Nero, com os martírios de Tiago o Justo, Pedro e Paulo
Festo foi enviado por Nero para suceder a Félix. Sob seu governo, Paulo, depois de apresentar sua defesa, foi enviado preso a Roma. Aristarco estava com ele, a quem em algum ponto de suas cartas Paulo chama, com toda naturalidade, de companheiro de prisão. E Lucas, que escreveu os Atos dos Apóstolos, encerrou sua narrativa neste ponto, depois de afirmar que Paulo passou dois anos inteiros em Roma como prisioneiro em regime aberto e pregou a palavra de Deus sem restrições.
Assim, depois de apresentar sua defesa, diz-se que o apóstolo foi enviado de novo ao ministério da pregação e que, ao chegar pela segunda vez à mesma cidade, sofreu o martírio. Nessa prisão ele escreveu sua segunda carta a Timóteo, na qual menciona sua primeira defesa e sua morte iminente.
Mas escute o testemunho dele sobre esses fatos: Em minha primeira defesa, diz ele, ninguém esteve ao meu lado, mas todos me abandonaram. Que isso não lhes seja levado em conta. No entanto, o Senhor esteve comigo e me deu forças, para que por mim a pregação fosse plenamente conhecida e todos os gentios a ouvissem; e fui livrado da boca do leão.
Com essas palavras ele indica claramente que, na primeira ocasião, para que a pregação se cumprisse por meio dele, foi resgatado da boca do leão, referindo-se com essa expressão a Nero, como é provável, por causa da crueldade deste. Por isso não acrescentou depois a afirmação semelhante: Ele me resgatará da boca do leão, pois via em espírito que seu fim não tardaria.
Por isso, às palavras E ele me livrou da boca do leão, ele acrescenta esta sentença: O Senhor me livrará de toda obra maligna e me preservará para o seu reino celestial, indicando seu próximo martírio, que prediz ainda mais claramente na mesma carta, quando escreve: Pois já estou sendo derramado como oferta, e o tempo da minha partida está próximo.
Além disso, em sua segunda carta a Timóteo, ele indica que Lucas estava com ele quando escreveu, mas em sua primeira defesa nem mesmo Lucas. Daí é provável que Lucas tenha escrito os Atos dos Apóstolos nessa época, levando sua narrativa até o período em que esteve com Paulo.
Mas trouxemos esses fatos para mostrar que o martírio de Paulo não ocorreu durante aquela estada em Roma que Lucas registra.
É provável, de fato, que, como Nero se inclinava mais à clemência no início, a defesa que Paulo fez de sua doutrina tenha sido recebida com mais facilidade; mas, quando Nero avançou para a prática de atos audaciosos e contrários à lei, voltou seus ataques tanto contra os apóstolos quanto contra os demais.