História Eclesiástica - Livro II 1
Livro II: a era apostólica de Tibério a Nero, com os martírios de Tiago o Justo, Pedro e Paulo
Primeiro, então, no lugar de Judas, o traidor, Matias, que, como já se mostrou, também era um dos Setenta, foi escolhido para o apostolado. E foram designados para o diaconato, a fim de servir à comunidade, por meio de oração e da imposição das mãos dos apóstolos, homens de reconhecida idoneidade, em número de sete, entre os quais estava Estêvão. Ele foi o primeiro, depois do Senhor, a ser apedrejado até a morte, no próprio momento de sua ordenação, pelas mãos dos que mataram o Senhor, como se tivesse sido promovido justamente para isso. E assim foi o primeiro a receber a coroa, que corresponde ao seu nome e pertence aos mártires de Cristo, dignos do prêmio da vitória.
Em seguida, Tiago, a quem os antigos apelidaram de o Justo por causa da excelência de sua virtude, é registrado como tendo sido o primeiro a ser feito bispo da igreja de Jerusalém. Esse Tiago era chamado de irmão do Senhor porque era conhecido como filho de José, e supunha-se que José fosse o pai de Cristo, porque a Virgem, estando prometida em casamento a ele, ficou grávida pelo Espírito Santo antes de se unirem, como mostra o relato dos santos Evangelhos.
Mas Clemente, no sexto livro de suas Hipotiposes, escreve o seguinte: Dizem que Pedro, Tiago e João, depois da ascensão de nosso Salvador, embora também fossem distinguidos por nosso Senhor, não disputaram a honra, mas escolheram Tiago, o Justo, como bispo de Jerusalém.
E o mesmo autor, no sétimo livro da mesma obra, relata ainda o seguinte a respeito dele: O Senhor, depois de sua ressurreição, transmitiu o conhecimento a Tiago, o Justo, a João e a Pedro, e eles o transmitiram aos demais apóstolos, e os demais apóstolos aos setenta, dos quais Barnabé era um. Mas havia dois Tiagos: um chamado o Justo, que foi lançado do pináculo do templo e morto a golpes de bastão por um pisoeiro, e outro que foi decapitado. Paulo também menciona esse mesmo Tiago, o Justo, quando escreve: Não vi nenhum outro dos apóstolos, a não ser Tiago, o irmão do Senhor.
Naquele tempo também se cumpriu a promessa de nosso Salvador ao rei dos osroenos. Pois Tomé, movido por um impulso divino, enviou Tadeu a Edessa como pregador e evangelista da religião de Cristo, como mostramos um pouco antes a partir do documento ali encontrado.
Ao chegar àquele lugar, ele curou Abgaro pela palavra de Cristo; e, depois de levar todo o povo dali à devida disposição de espírito por meio de suas obras, conduzindo-o a adorar o poder de Cristo, fez deles discípulos do ensino do Salvador. E desde aquele tempo até o presente, toda a cidade de Edessa tem sido dedicada ao nome de Cristo, oferecendo prova nada comum da bondade de nosso Salvador também para com eles.
Esses fatos foram extraídos de relatos antigos; mas voltemos agora à divina Escritura. Quando a primeira e mais intensa perseguição foi instigada pelos judeus contra a igreja de Jerusalém, ligada ao martírio de Estêvão, e quando todos os discípulos, exceto os Doze, foram dispersos por toda a Judeia e Samaria, alguns, como diz a divina Escritura, foram até a Fenícia, Chipre e Antioquia, mas ainda não ousavam levar a palavra da fé às nações, e por isso a pregavam somente aos judeus.
Durante esse tempo, Paulo ainda perseguia a igreja e, entrando nas casas dos crentes, arrastava homens e mulheres e os entregava à prisão.
Filipe também, um daqueles que, com Estêvão, haviam sido encarregados do diaconato, estando entre os que foram dispersos, desceu a Samaria e, cheio do poder divino, foi o primeiro a pregar a palavra aos habitantes daquela região. E a graça divina agiu de modo tão poderoso por meio dele que até Simão Mago, com muitos outros, foi atraído por suas palavras.
Simão era naquele tempo tão célebre e, por suas artes de ilusionismo, havia adquirido tamanha influência sobre os que enganava, que era tido como o Grande Poder de Deus. Mas nessa ocasião, espantado com os feitos maravilhosos realizados por Filipe pelo poder divino, fingiu e simulou fé em Cristo, chegando até a receber o batismo.
E o que é surpreendente: a mesma coisa acontece até hoje com os que seguem sua heresia tão impura. Pois eles, à maneira de seu predecessor, infiltrando-se na Igreja como uma doença pestilenta e leprosa, afligem gravemente aqueles em quem conseguem infundir o veneno mortal e terrível que escondem em si mesmos. A maioria deles tem sido expulsa assim que é flagrada em sua maldade, como o próprio Simão, ao ser desmascarado por Pedro, recebeu o merecido castigo.
Mas, como a pregação do Evangelho do Salvador avançava a cada dia, uma certa providência trouxe da terra dos etíopes um oficial da rainha daquele país, pois a Etiópia, até o presente dia, é governada por uma mulher, segundo o costume ancestral. Ele, o primeiro entre os gentios, recebeu de Filipe os mistérios da palavra divina, em consequência de uma revelação, e, tornando-se as primícias dos crentes em todo o mundo, diz-se que foi o primeiro, ao voltar para seu país, a proclamar o conhecimento do Deus do universo e a vinda vivificante de nosso Salvador entre os homens; de modo que, por meio dele, cumpriu-se de fato a profecia que declara que a Etiópia estende as mãos para Deus.
Além desses, Paulo, aquele vaso escolhido, não pelos homens nem por intermédio de homens, mas pela revelação do próprio Jesus Cristo e de Deus Pai, que o ressuscitou dos mortos, foi designado apóstolo, tornado digno do chamado por uma visão e por uma voz pronunciada numa revelação vinda do céu.