História Eclesiástica - Livro II 10

Livro II: a era apostólica de Tibério a Nero, com os martírios de Tiago o Justo, Pedro e Paulo

As consequências da investida do rei contra os apóstolos não tardaram, mas o ministro vingador da justiça divina o alcançou logo após suas tramas contra eles, como registra o livro dos Atos. Pois, tendo ele viajado a Cesareia, num dia de festa notável, vestido com uma roupa esplêndida e real, dirigiu um discurso ao povo de um trono elevado, diante do tribunal. E, quando toda a multidão aplaudiu o discurso como se fosse a voz de um deus e não de um homem, a Escritura relata que um anjo do Senhor o feriu, e ele, comido pelos vermes, entregou o espírito.
Devemos admirar o relato de Josefo por sua concordância com as divinas Escrituras a respeito desse acontecimento extraordinário, pois ele atesta claramente a verdade no décimo nono livro de suas Antiguidades, onde narra o prodígio com as seguintes palavras:
Ele havia completado o terceiro ano de seu reinado sobre toda a Judeia quando chegou a Cesareia, que antes se chamava Torre de Estratão. No tempo de Estrabão havia ali apenas uma pequena cidade, chamada Torre de Estratão; mas, por volta de 10 a.C., Herodes, o Grande, construiu a cidade de Cesareia, que logo se tornou a principal cidade romana da Palestina e era célebre por sua magnificência. Mais tarde, tornou-se sede de uma importante escola cristã e teve papel considerável na história da Igreja. O próprio Eusébio foi bispo de Cesareia. Era uma cidade de importância, mesmo no tempo das cruzadas, mas hoje é cenário de completa desolação. Ali ele realizou jogos em honra de César, sabendo que essa era uma festa observada em prol da segurança de César. Nessa festa reuniu-se uma grande multidão dos homens mais elevados e honrados da província.
E no segundo dia dos jogos ele dirigiu-se ao teatro ao romper do dia, vestindo uma roupa inteiramente de prata e de textura admirável. E ali a prata, iluminada pelo reflexo dos primeiros raios do sol, brilhava de modo extraordinário, reluzindo com tanto fulgor que provocava uma espécie de medo e terror nos que o contemplavam.
E logo seus aduladores, uns de um lado, outros de outro, ergueram suas vozes de um modo que não foi para o bem dele, chamando-o de deus e dizendo: misericordioso; se até agora te temíamos como homem, de agora em diante confessamos que és superior à natureza dos mortais.
O rei não os repreendeu, nem rejeitou sua ímpia adulação. Mas, pouco depois, olhando para cima, viu um anjo sentado acima de sua cabeça. E percebeu de imediato que aquilo seria a causa de seu mal, assim como uma vez fora a causa de sua boa sorte, e foi acometido por uma dor que lhe transpassou o coração.
E em seguida uma aflição, começando com a maior violência, apoderou-se de suas entranhas. E, olhando para seus amigos, ele disse: Eu, vosso deus, recebo agora a ordem de deixar esta vida; e o destino, aqui mesmo, desmente as palavras mentirosas que acabastes de proferir a meu respeito. Aquele a quem chamastes de imortal é agora levado para morrer; mas nosso destino deve ser aceito como Deus o determinou. Pois passamos nossa vida de modo nada inglório, mas naquele esplendor que se chama felicidade.
E, tendo dito isso, ele se debatia com o aumento da dor. Foi então levado às pressas ao palácio, enquanto se espalhava entre todos a notícia de que o rei sem dúvida logo morreria. Mas a multidão, com suas mulheres e filhos, sentada sobre sacos segundo o costume de seus pais, implorava a Deus em favor do rei, e todo lugar se encheu de lamentação e lágrimas. E o rei, deitado num aposento elevado e vendo-os embaixo prostrados por terra, não conseguiu conter-se e chorou.
E, depois de sofrer continuamente por cinco dias com dor nas entranhas, ele partiu desta vida, no quinquagésimo quarto ano de idade e no sétimo ano de seu reinado. Quatro anos governou sob o imperador Caio, três deles sobre a tetrarquia de Filipe, à qual se acrescentou no quarto ano a de Herodes, e três anos durante o reinado do imperador Cláudio.
Admiro-me grandemente de que Josefo, nessas coisas como em outras, concorde tão plenamente com as divinas Escrituras. Mas, se a alguém parecer haver uma discordância quanto ao nome do rei, ao menos o tempo e os acontecimentos mostram que se trata da mesma pessoa, quer a mudança de nome tenha sido causada pelo erro de um copista, quer se deva ao fato de que ele, como tantos outros, usava dois nomes.