História Eclesiástica - Livro II 6

Livro II: a era apostólica de Tibério a Nero, com os martírios de Tiago o Justo, Pedro e Paulo

Depois da morte de Tibério, Caio assumiu o império e, além de inúmeros outros atos de tirania contra muitos povos, afligiu gravemente sobretudo toda a nação dos judeus. Podemos aprender isso de forma resumida nas palavras de Filo, que escreve o seguinte:
Tão grande era o capricho de Caio em sua conduta para com todos, e especialmente para com a nação dos judeus. A estes ele odiava tão amargamente que se apropriou dos seus lugares de culto nas demais cidades e, começando por Alexandria, encheu-os de imagens e estátuas de si mesmo (pois, ao permitir que outros as erguessem, na verdade ele mesmo as erguia). O templo da cidade santa, que até então fora deixado intocado e era considerado um refúgio inviolável, ele alterou e transformou num templo seu, para que fosse chamado o templo do Júpiter visível, o jovem Caio.
Inúmeras outras calamidades terríveis e quase indescritíveis que recaíram sobre os judeus em Alexandria durante o reinado do mesmo imperador são registradas pelo mesmo autor numa segunda obra, à qual ele deu o título Sobre as Virtudes. Com ele concorda também Josefo, que igualmente indica que as desgraças de toda a nação começaram no tempo de Pilatos e com seus crimes audaciosos contra o Salvador.
Ouça o que ele diz no segundo livro de sua Guerra dos Judeus, onde escreve o seguinte: Pilatos, enviado à Judeia como procurador por Tibério, levou secretamente, de noite, para Jerusalém imagens veladas do imperador, chamadas estandartes. No dia seguinte isso causou a maior agitação entre os judeus. Pois os que estavam por perto ficaram perturbados com aquela visão, vendo suas leis, por assim dizer, pisoteadas. Pois eles não permitem que nenhuma imagem seja erguida em sua cidade.
Comparando esses fatos com os escritos dos evangelistas, você verá que não demorou muito para que viesse sobre eles a pena pela exclamação que haviam proferido sob esse mesmo Pilatos, quando bradaram que não tinham outro rei senão César.
O mesmo escritor registra ainda que, depois disso, outra calamidade os alcançou. Ele escreve o seguinte: Depois disso, Pilatos provocou outro tumulto ao usar o tesouro sagrado, chamado Corbã, na construção de um aqueduto de trezentos estádios de comprimento.
A multidão ficou muito descontente com isso e, quando Pilatos estava em Jerusalém, cercou seu tribunal e externou ruidosas queixas. Mas ele, antecipando o tumulto, havia distribuído pela multidão soldados armados disfarçados com roupas de cidadãos, proibindo-os de usar a espada, mas ordenando-lhes que golpeassem com bastões aqueles que gritassem. A esses ele deu então, do tribunal, o sinal combinado. E os judeus, sendo espancados, muitos deles morreram em consequência das pancadas, ao passo que muitos outros foram pisoteados pelos próprios compatriotas na fuga e assim perderam a vida. Mas a multidão, intimidada pela sorte dos que foram mortos, calou-se.
Além desses, o mesmo autor registra muitos outros tumultos que irromperam na própria Jerusalém e mostra que, a partir daquele momento, sedições, guerras e tramas funestas se sucederam em rápida sequência e nunca cessaram na cidade e em toda a Judeia, até que finalmente o cerco de Vespasiano os subjugou. Assim a vingança divina alcançou os judeus pelos crimes que ousaram cometer contra Cristo.