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Contra Celso - Livro VII
O Livro VII na Obra
O Livro VII é o penúltimo dos oito que compõem o Contra Celso, a longa refutação que Orígenes escreveu, por volta de 248, ao tratado Discurso Verdadeiro do filósofo pagão Celso, redigido cerca de setenta anos antes. Orígenes abre o livro retomando o fio dos seis anteriores e anunciando o tema central: a defesa das profecias hebraicas, que Celso atacava por sustentarem que os eventos da vida de Jesus haviam sido preditos. A partir daí, o livro contrapõe a profecia de Israel aos oráculos do mundo grego e discute o que é a verdadeira adoração.
A unidade do livro é a oposição entre dois modos de acesso ao divino. De um lado, os oráculos famosos da Antiguidade, Delfos, Dodona, Claros, Branquidas, Júpiter Amon; de outro, os profetas de Israel. Orígenes não nega que os oráculos pronunciassem respostas, mas as atribui a demônios, não a deuses, e tenta mostrar que a vida austera dos profetas hebreus traía uma inspiração de outra ordem. Na segunda metade, o foco se desloca para a adoração: a recusa cristã de templos, altares e imagens, a esperança de uma vida futura, a ressurreição e a tese, herdada do platonismo e dela cara a Orígenes, de que Deus é incorpóreo.
Conteúdo do Livro
- Celso elogia os oráculos gregos (Delfos, Dodona, Claros, Branquidas, Júpiter Amon) e Orígenes os atribui a demônios — (Contra Celso - Livro VII 1:3)
- A sacerdotisa pítia e o destino das almas após a morte: as puras sobem, as poluídas vagueiam junto a sepulcros — (Contra Celso - Livro VII 1:5)
- A vida austera dos profetas hebreus como prova de que sua inspiração diferia da adivinhação dos demônios — (Contra Celso - Livro VII 1:7)
- A resposta de que os profetas anunciaram um homem de dores, não que Deus morreria — (Contra Celso - Livro VII 2:16)
- A lei tem duplo sentido, literal e espiritual: a letra mata, o espírito vivifica — (Contra Celso - Livro VII 3:20)
- A recusa de que os cristãos atribuam um corpo a Deus: Deus é incorpóreo — (Contra Celso - Livro VII 3:27)
- A doutrina da ressurreição como ensino elevado, contra a caricatura de Celso — (Contra Celso - Livro VII 4:32)
- Ninguém conhece o Pai senão o Filho: o conhecimento de Deus excede a razão e exige graça — (Contra Celso - Livro VII 5:44)
- A acusação de Celso: os cristãos não toleram templos, altares nem imagens — (Contra Celso - Livro VII 7:62)
- A recusa cristã de imagens nasce de um princípio distinto do dos cítios, líbios e persas — (Contra Celso - Livro VII 7:64)
Oráculos Antigos e Profecia Hebraica
O coração polêmico do livro é a comparação entre os oráculos gregos e os profetas de Israel. Celso, homem culto, considerava arbitrário que os cristãos descartassem Delfos e Dodona, que haviam orientado a fundação de colônias por todo o mundo grego, e tratassem como sagradas apenas as palavras ditas na Judeia. Orígenes responde em duas frentes. Primeiro, lembra que mesmo entre os gregos houve quem descresse dos oráculos, citando os peripatéticos e os epicuristas. Depois, concede que os oráculos de fato falavam, mas sustenta que falavam demônios, não deuses, e ataca em particular o procedimento da pítia de Delfos, possuída em transe que lhe tirava o domínio de si. Ao profeta hebreu, ao contrário, atribui lucidez crescente e vida íntegra. O argumento é apologético e não historiográfico: ele não prova a inspiração divina, mas desloca o critério da verdade do prestígio do oráculo para o caráter de quem profetiza.
Iconoclasmo Cristão e a Adoração de Deus
A parte final do livro registra um dado social pouco lembrado: aos olhos do mundo greco-romano, os cristãos eram gente sem templos, sem altares e sem imagens, e Celso os alinha aos cítios, aos líbios nômades, aos seres e aos persas, povos que ele considerava bárbaros justamente por isso. Orígenes assume a acusação como elogio. Reconhece que cristãos e judeus partilham com persas e cítios a recusa de imagens, mas insiste que o princípio é outro: não se trata de hábito ou de menosprezo pela matéria, e sim de não rebaixar a adoração de Deus a coisas feitas por mãos humanas, e de não adorar a criatura em lugar do Criador. O texto é uma das exposições antigas mais claras do porquê de a Igreja primitiva ter sido aniconica, anterior à devoção às imagens que se firmaria séculos depois.
“Eles não toleram templos, altares ou imagens. Nisso são como os cítios, as tribos nômades da Líbia, os seres, que não adoram nenhum deus.”Orígenes, Contra Celso - Livro VII 7:62
Relevância para o Cristão de Hoje
O Livro VII guarda interesse por dois motivos. Como documento histórico, mostra um cristianismo do século III que ainda definia a si mesmo pela ausência de imagens e pela espiritualização da adoração, antes que a piedade figurativa se tornasse comum, o que ajuda a entender debates posteriores sobre ícones. Como peça teológica, contém doutrinas tipicamente origenistas que a Igreja depois examinaria com reserva: a preexistência das almas sugerida na ascensão das almas puras, e uma ressurreição entendida em chave espiritualizada. Convém ler com distância crítica. Orígenes argumenta de dentro de uma cosmologia platônica, e nem toda a sua resposta a Celso se tornou doutrina recebida; partes do seu pensamento foram condenadas no século VI. Ainda assim, o livro preserva, com rara franqueza, o esforço de um cristão erudito por responder ao melhor crítico pagão de sua época nos termos da própria filosofia dele.