Contra Celso - Livro VII 5
Profecia, oráculos e a verdadeira adoração
Mas consideremos quem são essas pessoas cuja orientação Celso quer que sigamos, para que não nos falte guias recomendados tanto pela antiguidade quanto pela santidade. Ele nos remete a poetas divinamente inspirados, como os chama, a sábios e filósofos, sem mencionar seus nomes. Assim, depois de prometer apontar quem deve nos guiar, ele simplesmente nos entrega de forma genérica a poetas divinamente inspirados, sábios e filósofos. Se tivesse especificado seus nomes, nós nos sentiríamos obrigados a mostrar a ele que pretendia nos dar como guias homens cegos para a verdade, que por isso só poderiam nos levar ao erro; ou que, se não totalmente cegos, mesmo assim erram em muitos pontos de crença. Mas quer seja Orfeu, Parmênides, Empédocles, ou mesmo o próprio Homero e Hesíodo as pessoas que ele tem em mente ao falar de poetas inspirados, que alguém mostre como os que seguem a orientação deles caminham por um caminho melhor, ou levam uma vida mais excelente, do que aqueles que, instruídos na escola de Jesus Cristo, rejeitaram todas as imagens e estátuas, e até toda superstição judaica, para que possam olhar para o alto através do Verbo de Deus em direção ao único Deus, que é o Pai do Verbo. Quem são, então, esses sábios e filósofos com quem Celso quer que aprendamos tantas verdades divinas, e por quem devemos abandonar Moisés, o servo de Deus, os profetas do Criador do mundo, que falaram tantas coisas por uma inspiração verdadeiramente divina, e até mesmo Aquele que deu luz e ensinou o caminho da piedade a toda a raça humana, de modo que ninguém pode censurá-lo se permanece sem parte no conhecimento de seus mistérios? Tão grande, de fato, era o amor que Ele tinha pelos homens, que deu aos mais instruídos uma teologia capaz de elevar a alma muito acima de todas as coisas terrenas; ao mesmo tempo que, com não menos consideração, desce à capacidade mais fraca dos ignorantes, das mulheres simples, dos escravos, em suma, de todos aqueles que só de Jesus poderiam ter recebido aquele auxílio para melhor ordenar suas vidas, fornecido por seus ensinamentos sobre o Ser Divino, adaptados às suas necessidades e capacidades.
Celso a seguir nos remete a Platão como mestre mais eficaz da verdade teológica, e cita a seguinte passagem do Timeu: É tarefa difícil descobrir o Fazedor e Pai deste universo; e, depois de tê-lo encontrado, é impossível torná-lo conhecido a todos. A isso ele mesmo acrescenta este comentário: Você percebe, então, como os homens divinos buscam o caminho da verdade, e como Platão sabia bem que era impossível a todos os homens trilhá-lo. Mas, como os sábios o encontraram com o propósito expresso de poder nos transmitir alguma noção daquele que é o primeiro, o Ser inefável (uma noção, a saber, que possa representá-lo a nós por meio de outros objetos), eles se esforçam, seja pela síntese, que é a combinação de várias qualidades, seja pela análise, que é a separação e o afastamento de algumas qualidades, ou enfim pela analogia. Por esses meios, digo eu, eles se esforçam por nos apresentar aquilo que é impossível exprimir em palavras. Eu me admiraria, portanto, se você pudesse seguir esse curso, já que está tão completamente ligado à carne a ponto de ser incapaz de ver outra coisa senão o que é impuro. Essas palavras de Platão são nobres e admiráveis; mas veja se a Escritura não nos dá um exemplo de consideração pela humanidade ainda maior em Deus o Verbo, que estava no princípio com Deus, e que se fez carne, a fim de revelar a todos os homens verdades que, segundo Platão, seria impossível tornar conhecidas a todos, mesmo depois de ele próprio tê-las encontrado. Platão pode dizer que é coisa difícil descobrir o Criador e Pai deste universo; com essa linguagem, ele dá a entender que não está totalmente além do poder da natureza humana alcançar tal conhecimento, seja digno de Deus, seja, se não, muito acima do que comumente se alcança (embora, se fosse verdade que Platão ou qualquer outro dos gregos tivesse encontrado Deus, eles jamais teriam prestado homenagem e culto, ou atribuído o nome de Deus, a outro que não a Ele: teriam abandonado todos os demais, e não teriam associado a esse grande Deus objetos que nada podem ter em comum com Ele). Quanto a nós, sustentamos que a natureza humana de modo algum é capaz de buscar a Deus, ou de alcançar um conhecimento claro dele, sem o auxílio daquele que ela busca. Ele se faz conhecido aos que, depois de fazer tudo que suas forças permitem, confessam que precisam de seu auxílio; Ele se revela aos que aprova, na medida em que é possível ao homem e à alma ainda habitando no corpo conhecer a Deus.
Observe que, quando Platão diz que, depois de descobrir o Criador e Pai do universo, é impossível torná-lo conhecido a todos os homens, ele não fala dele como inefável e incapaz de ser expresso em palavras. Pelo contrário, dá a entender que se pode falar dele, e que há uns poucos a quem ele pode ser dado a conhecer. Mas Celso, como se esquecesse a linguagem que acabara de citar de Platão, imediatamente dá a Deus o nome de inefável. Ele diz: já que os sábios encontraram esse caminho, a fim de poder nos dar alguma ideia do Primeiro dos Seres, que é inefável. Quanto a nós, sustentamos que não só Deus é inefável, mas também outras coisas que lhe são inferiores. Tais são as coisas que Paulo se esforça por exprimir quando diz: Ouvi palavras inefáveis, que não é lícito ao homem proferir, onde a palavra ouvi é usada no sentido de compreendi; como na passagem: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Também sustentamos que é coisa difícil ver o Criador e Pai do universo; mas é possível vê-lo da maneira a que se refere isto: Bem-aventurados os puros de coração, pois eles verão a Deus; e não só assim, mas também no sentido das palavras daquele que é a imagem do Deus invisível: Quem me viu, viu o Pai que me enviou. Nenhuma pessoa sensata poderia supor que essas últimas palavras foram ditas em referência à sua presença corporal, que estava aberta à vista de todos; do contrário, todos aqueles que disseram: Crucifica-o, crucifica-o, e Pilatos, que tinha poder sobre a humanidade de Jesus, estariam entre os que viram a Deus o Pai, o que é absurdo. Além disso, que essas palavras, Quem me viu, viu o Pai que me enviou, não devem ser tomadas em seu sentido mais grosseiro, fica claro pela resposta que Ele deu a Filipe: Há tanto tempo estou convosco, e ainda não me conheces, Filipe?, depois que Filipe havia pedido: Mostra-nos o Pai, e isso nos basta. Aquele, então, que percebe como essas palavras, O Verbo se fez carne, devem ser entendidas a respeito do Filho unigênito de Deus, o primogênito de toda a criação, também entenderá como, ao ver a imagem do Deus invisível, vemos o Criador e Pai do universo.
Celso supõe que podemos chegar a um conhecimento de Deus seja combinando, seja separando certas coisas pelos métodos que os matemáticos chamam de síntese e análise, ou ainda por analogia, também empregada por eles, e que desse modo podemos, por assim dizer, ganhar acesso ao bem supremo. Mas, quando o Verbo de Deus diz: Ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar, Ele declara que ninguém pode conhecer a Deus senão pelo auxílio da graça divina vinda do alto, com certa inspiração divina. De fato, é razoável supor que o conhecimento de Deus está além do alcance da natureza humana, e daí os muitos erros em que os homens caíram em suas concepções sobre Deus. É, então, pela bondade e amor de Deus pela humanidade, e por um exercício admirável da graça divina, em favor daqueles que Ele viu em sua presciência, e soube que andariam de modo digno daquele que se dera a conhecer a eles, e que jamais se desviariam de um apego fiel ao seu serviço, ainda que fossem condenados à morte ou expostos ao ridículo por aqueles que, ignorando o que é a verdadeira religião, dão esse nome ao que merece ser chamado de qualquer outra coisa menos religião. Deus sem dúvida viu o orgulho e a arrogância daqueles que, com desprezo por todos os outros, se vangloriam de seu conhecimento de Deus e de seu profundo trato com as coisas divinas obtido da filosofia, mas que, ainda assim, não menos que os mais ignorantes, correm atrás de suas imagens, templos e mistérios famosos. Vendo isso, Ele escolheu as coisas loucas deste mundo (os mais simples dos cristãos, que levam, no entanto, uma vida de maior moderação e pureza do que muitos filósofos) para confundir os sábios, que não se envergonham de dirigir-se a coisas inanimadas como deuses ou imagens dos deuses. Pois que homem razoável pode deixar de sorrir quando vê que alguém que aprendeu da filosofia sentimentos tão profundos e nobres sobre Deus ou os deuses se volta logo para imagens e lhes oferece suas orações, ou imagina que, contemplando essas coisas materiais, pode ascender do símbolo visível ao que é espiritual e imaterial? Mas um cristão, mesmo dentre o povo comum, tem a certeza de que todo lugar faz parte do universo, e que o universo inteiro é o templo de Deus. Em qualquer parte do mundo em que esteja, ele ora; mas ele se eleva acima do universo, fechando os olhos do sentido e erguendo para o alto os olhos da alma. E ele não para na abóbada do céu, mas, passando em pensamento para além dos céus, sob a orientação do Espírito de Deus, e tendo assim, por assim dizer, ido além do universo visível, ele oferece orações a Deus. Mas ele não ora por bênçãos triviais, pois aprendeu de Jesus a não buscar nada de pequeno ou mesquinho, isto é, objetos sensíveis, mas a pedir apenas o que é grande e verdadeiramente divino; e essas coisas Deus nos concede, para nos conduzir àquela bem-aventurança que só se encontra com Ele por meio de seu Filho, o Verbo, que é Deus.
Mas vejamos ainda quais são as coisas que ele se propõe a nos ensinar, se é que conseguimos compreendê-las, já que ele fala de nós como completamente ligados à carne; embora, se vivemos bem e de acordo com o ensino de Jesus, ouçamos isto ser dito de nós: Vós não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Ele diz também que não contemplamos nada que seja puro, embora nosso empenho seja manter mesmo nossos pensamentos livres de toda mácula de pecado, e embora em oração digamos: Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova dentro de mim um espírito reto, para que possamos contemplá-lo com aquele coração puro a quem somente é concedido o privilégio de vê-lo. Isto, então, é o que ele propõe para nossa instrução: As coisas ou são inteligíveis, que chamamos de substância, o ser; ou são visíveis, que chamamos de devir. Com as primeiras está a verdade; das últimas surge o erro. A verdade é o objeto do conhecimento; verdade e erro formam a opinião. Os objetos inteligíveis são conhecidos pela razão, os objetos visíveis pelos olhos; a ação da razão se chama percepção inteligente, a dos olhos visão. Assim, pois, como entre as coisas visíveis o sol não é nem o olho nem a visão, mas aquilo que permite ao olho ver e torna possível a visão, e, em consequência dele, as coisas visíveis são vistas, todas as coisas sensíveis existem, e ele próprio é tornado visível; assim, entre as coisas inteligíveis, aquilo que não é nem razão, nem percepção inteligente, nem conhecimento, é, ainda assim, a causa que permite à razão conhecer, que torna possível a percepção inteligente; e, em consequência dele, surge o conhecimento, todas as coisas inteligíveis, a própria verdade e a substância têm sua existência; e ele próprio, que está acima de todas essas coisas, se torna, de algum modo inefável, inteligível. Essas coisas são oferecidas à consideração dos inteligentes; e, se você puder compreender ao menos algumas delas, está bem. E se você pensa que um Espírito Divino desceu de Deus para anunciar coisas divinas aos homens, é sem dúvida esse mesmo Espírito que revela essas verdades, e foi sob a mesma influência que os homens de antigamente tornaram conhecidas muitas verdades importantes. Mas se você não consegue compreender essas coisas, então cale-se; não exponha sua própria ignorância, e não acuse de cegueira aqueles que veem, ou de coxos aqueles que correm, enquanto vocês mesmos estão completamente coxos e mutilados na mente, e levam uma vida meramente animal, a vida do corpo, que é a parte morta de nossa natureza.
Tomamos cuidado para não nos opor a argumentos justos, ainda que venham de quem não é de nossa fé; esforçamo-nos por não ser capciosos, nem por derrubar qualquer raciocínio sólido. Mas aqui temos de responder àqueles que caluniam o caráter de pessoas que desejam fazer o melhor no serviço de Deus, que aceita a fé daqueles que ocupam o lugar mais humilde diante dele, assim como a piedade mais refinada e inteligente dos instruídos; visto que ambos igualmente dirigem ao Criador do mundo suas orações e ações de graças, por meio do Sumo Sacerdote que apresentou aos homens a natureza da religião pura. Dizemos, então, que aqueles que são estigmatizados como coxos e mutilados em espírito, como vivendo apenas em favor do corpo, que está morto, são pessoas cujo empenho é dizer com sinceridade: Pois, embora vivamos na carne, não guerreamos segundo a carne; pois as armas da nossa milícia não são carnais, mas poderosas por Deus. Cabe àqueles que lançam acusações tão vis contra homens que desejam ser servos de Deus tomar cuidado para que, pelas calúnias que arremessam contra outros que se esforçam por viver bem, não estropiem suas próprias almas e mutilem o homem interior, arrancando dele aquela justiça e moderação de mente que o Criador plantou na natureza de todas as suas criaturas racionais. Quanto àqueles, no entanto, que, junto com outras lições dadas pelo Verbo Divino, aprenderam e praticaram isto, abençoar quando injuriados, suportar quando perseguidos, suplicar quando difamados, pode-se dizer que caminham em espírito pelos caminhos da retidão, que purificam e ordenam a alma inteira. Eles distinguem (e para eles a distinção não é só de palavras) entre a substância, ou aquilo que é, e aquilo que está vindo a ser; entre as coisas apreendidas pela razão e as coisas apreendidas pelo sentido; e conectam a verdade à primeira, e evitam os erros que surgem da segunda; olhando, como foram ensinados, não para as coisas que vêm a ser ou fenomênicas, que são vistas e por isso temporárias, mas para coisas melhores que essas, quer as chamemos de substância, ou coisas espirituais, por serem apreendidas pela razão, ou invisíveis, por estarem fora do alcance dos sentidos. Os discípulos de Jesus consideram essas coisas fenomênicas apenas para usá-las como degraus pelos quais ascender ao conhecimento das coisas da razão. Pois as coisas invisíveis de Deus, isto é, os objetos da razão, desde a criação do mundo são claramente vistas pela razão, sendo compreendidas pelas coisas que foram feitas. E, quando se elevaram das coisas criadas deste mundo às coisas invisíveis de Deus, eles não param ali; mas, depois de exercitar suficientemente suas mentes sobre estas, e de ter compreendido sua natureza, ascendem ao poder eterno de Deus, em uma palavra, à sua divindade. Pois sabem que Deus, em seu amor pelos homens, manifestou sua verdade e aquilo que dele se pode conhecer, não só aos que se dedicam ao seu serviço, mas também a alguns que estão bem distantes da pureza de culto e serviço que Ele exige; e que alguns daqueles que, pela providência de Deus, haviam alcançado um conhecimento dessas verdades, mesmo assim faziam coisas indignas desse conhecimento, e detinham a verdade na injustiça, e ficam sem qualquer desculpa diante de Deus depois do conhecimento de verdades tão grandes que Ele lhes deu.
Pois a Escritura testemunha, a respeito daqueles que têm conhecimento das coisas de que Celso fala, e que professam uma filosofia fundada nesses princípios, que eles, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, mas se tornaram vãos em seus pensamentos; e, apesar da luz brilhante do conhecimento com que Deus os havia iluminado, seu coração insensato se deixou arrastar e se obscureceu. Assim podemos ver como aqueles que se julgavam sábios deram provas de grande loucura quando, depois de argumentos tão grandiosos proferidos nas escolas sobre Deus e sobre as coisas apreendidas pela razão, mudaram a glória do Deus incorruptível na imagem semelhante ao homem corruptível, e às aves, e aos quadrúpedes, e aos répteis. Como, pois, viviam de modo indigno do conhecimento que haviam recebido de Deus, sua providência deixando-os entregues a si mesmos, eles foram entregues à impureza, pelas concupiscências de seus próprios corações, para desonrarem seus próprios corpos, em desavergonhamento e licenciosidade, porque mudaram a verdade de Deus em mentira, e adoraram e serviram à criatura mais do que ao Criador.
Mas aqueles que são desprezados por sua ignorância, e tidos por tolos e escravos abjetos, assim que se entregam à orientação de Deus aceitando o ensino de Jesus, longe de se contaminarem com a indulgência licenciosa ou a satisfação de paixões desavergonhadas, em muitos casos, como sacerdotes perfeitos, para quem tais prazeres não têm atrativo algum, mantêm-se em ato e em pensamento em estado de pureza virginal. Os atenienses têm um hierofante que, não tendo confiança em sua capacidade de refrear as paixões dentro dos limites que prescrevera para si mesmo, decidiu detê-las em sua sede pela aplicação de cicuta; e assim foi considerado puro, e apto para a celebração do culto religioso entre os atenienses. Mas entre os cristãos podem ser encontrados homens que não precisam de cicuta para se tornarem aptos ao serviço puro de Deus, e para os quais o Verbo, em lugar de cicuta, é capaz de afastar todos os desejos malignos de seus pensamentos, de modo que possam apresentar suas orações ao Ser Divino. E aos outros chamados deuses está vinculado um número seleto de virgens, que são guardadas por homens, ou talvez não sejam guardadas (pois esse não é o ponto em questão no momento), e que se supõe viverem em pureza para a honra do deus que servem. Mas entre os cristãos, aqueles que mantêm uma virgindade perpétua o fazem por nenhuma honra humana, por nenhum salário ou recompensa, por nenhum motivo de vanglória; mas, como escolhem reter Deus em seu conhecimento, são preservados por Deus em um espírito que lhe é agradável, e no cumprimento de todo dever, cheios de toda justiça e bondade.
O que disse agora, então, é oferecido não com o propósito de implicar com quaisquer opiniões corretas ou doutrinas sólidas sustentadas mesmo por gregos, mas com o desejo de mostrar que as mesmas coisas, e na verdade coisas muito melhores e mais divinas que essas, foram ditas por aqueles homens divinos, os profetas de Deus e os apóstolos de Jesus. Essas verdades são plenamente investigadas por todos os que desejam alcançar um conhecimento perfeito do cristianismo, e que sabem que a boca do justo fala sabedoria, e a sua língua fala de juízo; a lei do seu Deus está em seu coração. Mas, mesmo a respeito daqueles que, seja por deficiência de conhecimento, seja por falta de disposição, seja por não terem Jesus para conduzi-los a uma visão racional da religião, não entraram nessas questões profundas, descobrimos que eles creem no Deus Altíssimo, e em seu Filho unigênito, o Verbo e Deus, e que muitas vezes exibem em seu caráter um alto grau de seriedade, de pureza e de integridade; ao passo que aqueles que se dizem sábios desprezaram essas virtudes e se rebolaram na imundície da sodomia, em concupiscência sem lei, homens com homens cometendo o que é indecente.
Celso não explicou como o erro acompanha o devir, ou produto da geração; nem se exprimiu com clareza suficiente para nos permitir comparar suas ideias com as nossas e julgá-las. Mas os profetas, que deram algumas sugestões sábias sobre o tema das coisas produzidas pela geração, nos dizem que um sacrifício pelo pecado era oferecido mesmo por recém-nascidos, como não estando livres do pecado. Eles dizem: Em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe; também: Estão alienados desde o ventre; o que é seguido pela expressão singular: Andam errantes desde que nascem, falando mentiras. Além disso, nossos sábios têm tamanho desprezo por todos os objetos sensíveis, que às vezes falam de todas as coisas materiais como vaidade: assim, Pois a criatura foi sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou em esperança; outras vezes como vaidade das vaidades, Vaidade das vaidades, diz o Pregador, tudo é vaidade. Quem deu uma avaliação tão severa da vida da alma humana aqui na terra como aquele que diz: Na verdade, todo homem, em seu melhor estado, é totalmente vaidade? Ele não hesita de modo algum quanto à diferença entre a vida presente da alma e aquela que ela há de levar depois. Ele não diz: Quem sabe se morrer não é viver, e se viver não é morte? Mas proclama ousadamente a verdade, e diz: A nossa alma está abatida até o pó; e: Trouxeste-me ao pó da morte; e, de modo semelhante: Quem me livrará do corpo desta morte? também: Quem transformará o corpo da nossa humilhação? É também um profeta que diz: Abateste-nos num lugar de aflição; querendo dizer, com lugar de aflição, esta região terrena, à qual Adão, isto é, o homem, veio depois de ser expulso do paraíso por causa do pecado. Observe também como bem foi reconhecida a diferente vida da alma aqui e depois por aquele que diz: Agora vemos num espelho, obscuramente, mas então face a face; e: Enquanto estamos em nosso lar no corpo, estamos longe de nosso lar no Senhor; por isso ficamos bem contentes em partir de nosso lar no corpo, e vir para nosso lar com o Senhor.