Contra Celso - Livro VII 3
Profecia, oráculos e a verdadeira adoração
Celso acrescenta que foi predito aos judeus que, se não obedecessem à lei, seriam tratados da mesma maneira como trataram seus inimigos; e então ele cita do ensino de Cristo alguns preceitos que considera contrários aos da lei, e usa isso como argumento contra nós. Mas, antes de passar a esse ponto, devemos falar do que vem antes. Sustentamos, então, que a lei tem um duplo sentido: um literal, o outro espiritual, como já foi mostrado por alguns antes de nós. Do primeiro sentido, o literal, diz-se, não por nós, mas por Deus, falando por um dos profetas, que os estatutos não são bons, e os juízos não são bons; ao passo que, tomado num sentido espiritual, o mesmo profeta faz Deus dizer que seus estatutos são bons e seus juízos são bons. Contudo, é evidente que o profeta não está dizendo coisas que se contradizem. Paulo, de modo semelhante, diz que a letra mata, e o espírito vivifica, entendendo por letra o sentido literal, e por espírito o sentido espiritual da Escritura. Podemos, portanto, encontrar em Paulo, assim como no profeta, contradições aparentes. De fato, se Ezequiel diz num lugar: Dei-lhes mandamentos que não eram bons, e juízos pelos quais não viveriam, e em outro: Dei-lhes bons mandamentos e juízos, os quais, se um homem os cumprir, viverá por eles; Paulo, de modo semelhante, quando deseja desvalorizar a lei tomada literalmente, diz: Se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, foi glorioso, de modo que os filhos de Israel não podiam fitar o rosto de Moisés por causa da glória do seu semblante, glória essa que devia desaparecer, como não será de maior glória o ministério do Espírito? Mas quando, em outro lugar, ele deseja louvar e recomendar a lei, ele a chama espiritual e diz: Sabemos que a lei é espiritual; e: Portanto a lei é santa, e o mandamento santo, e justo, e bom.