Contra Celso - Livro VII 4

Profecia, oráculos e a verdadeira adoração

Celso em seguida ataca a doutrina da ressurreição, que é uma doutrina elevada e difícil, e uma que mais do que outras exige um grau alto e avançado de sabedoria para se expor o quanto ela é digna de Deus; e quão sublime é a verdade que nos ensina que um princípio seminal alojado naquilo que a Escritura chama de tabernáculo da alma, no qual os justos gemem, sobrecarregados, não por quererem ser despojados, mas revestidos. Celso ridiculariza essa doutrina porque não a entende e porque a aprendeu de pessoas ignorantes, incapazes de sustentá-la por quaisquer fundamentos razoáveis. Será proveitoso, portanto, que, além do que dissemos acima, façamos esta observação. Nosso ensino sobre o tema da ressurreição não deriva, como Celso imagina, de algo que tenhamos ouvido sobre a doutrina da metempsicose; mas sabemos que a alma, que é imaterial e invisível em sua natureza, não existe em nenhum lugar material sem ter um corpo adequado à natureza daquele lugar. Por isso, ora ela despe um corpo que era necessário antes, mas que não é adequado em seu estado alterado, e o troca por um segundo; e ora assume um outro além do anterior, que é necessário como um revestimento melhor, adequado às regiões etéreas mais puras do céu. Quando vem ao mundo no nascimento, ela se desfaz dos invólucros de que precisava no ventre; e antes de fazer isso, veste um outro corpo adequado à sua vida sobre a terra. Então, novamente, como um tabernáculo e uma casa terrena que é de certo modo necessária para esse tabernáculo, a Escritura nos ensina que a casa terrena deste tabernáculo se desfará, mas que o tabernáculo será revestido com uma casa não feita por mãos, eterna nos céus. Os homens de Deus dizem também que o corruptível se revestirá da incorrupção, que é coisa diferente do incorruptível; e o mortal se revestirá da imortalidade, que é diferente do imortal. De fato, o que a sabedoria é para o sábio, e a justiça para o justo, e a paz para o pacífico, a mesma relação tem a incorrupção com o incorruptível, e a imortalidade com o imortal. Vede, então, a que perspectiva a Escritura nos encoraja a olhar, quando nos fala de sermos revestidos de incorrupção e imortalidade, que são, por assim dizer, vestes que não permitirão que os que estão cobertos por elas cheguem à corrupção ou à morte. Até aqui tomei a liberdade de me referir a este assunto, em resposta a quem ataca a doutrina da ressurreição sem entendê-la, e que, simplesmente por nada saber sobre ela, fez dela objeto de desprezo e zombaria.