Contra Celso - Livro VII 7
Profecia, oráculos e a verdadeira adoração
Vejamos agora o que vem a seguir. "Passemos", diz ele, "a outro ponto. Eles não toleram templos, altares ou imagens. Nisso são como os cítios, as tribos nômades da Líbia, os seres, que não adoram nenhum deus, e algumas outras das nações mais bárbaras e ímpias do mundo. Que os persas têm as mesmas noções, Heródoto o mostra com estas palavras: 'Sei que entre os persas se considera ilegal erguer imagens, altares ou templos; mas acusam de loucura os que o fazem, porque, como conjecturo, não supõem, como os gregos, que os deuses sejam da natureza dos homens.' Heráclito também diz, em certo trecho: 'As pessoas que dirigem orações a essas imagens agem como quem fala com as paredes, sem saber quem são os deuses ou os heróis.' E que lição mais sábia têm eles a nos ensinar do que Heráclito? Ele certamente deixa bem claro que é coisa tola um homem oferecer orações a imagens enquanto não sabe quem são os deuses e os heróis. Esta é a opinião de Heráclito; mas, quanto a eles, vão mais longe e desprezam sem exceção todas as imagens. Se querem dizer apenas que a pedra, a madeira, o bronze ou o ouro trabalhado por este ou aquele artesão não pode ser um deus, então são ridículos com sua sabedoria. Pois quem, a não ser que seja completamente infantil em sua simplicidade, pode tomar essas coisas por deuses, e não por oferendas consagradas ao serviço dos deuses, ou por imagens que os representam? Mas se não devemos considerá-las como representações do Ser Divino, já que Deus tem uma forma diferente (como os persas concordam com eles em dizer), então que tomem cuidado para não se contradizerem; pois dizem que Deus fez o homem à sua própria imagem e que lhe deu uma forma semelhante à sua. Contudo, eles admitirão que essas imagens, semelhantes ou não, são feitas e dedicadas em honra de certos seres. Mas sustentarão que os seres a quem são dedicadas não são deuses, e sim demônios, e que um adorador de Deus não deve adorar demônios."
A isto respondemos o seguinte. Se os cítios, as tribos nômades da Líbia, os seres (que, segundo Celso, não têm deus), se aquelas outras nações mais bárbaras e ímpias do mundo, e se até os persas não suportam ver templos, altares e imagens, não se segue, pelo fato de nós também não os suportarmos mais do que eles, que os motivos pelos quais os rejeitamos sejam os mesmos que os deles. Precisamos investigar os princípios sobre os quais se funda a objeção a templos e imagens, para aprovarmos os que objetam por princípios sólidos e condenarmos aqueles cujos princípios são falsos. Pois uma só e mesma coisa pode ser feita por razões diferentes. Por exemplo, os filósofos que seguem Zenão de Cítio se abstêm de cometer adultério; os seguidores de Epicuro fazem o mesmo, assim como outros que o fazem sem nenhum princípio filosófico. Mas observe as razões tão diferentes que determinam a conduta dessas diferentes classes. Os primeiros consideram os interesses da sociedade e sustentam ser proibido pela natureza que um homem, sendo um ser racional, corrompa uma mulher que as leis já entregaram a outro, desfazendo assim o lar de outro homem. Os epicuristas não raciocinam dessa maneira; mas, se se abstêm do adultério, é porque, vendo o prazer como o fim supremo do homem, percebem que quem se entrega ao adultério enfrenta, por causa desse único prazer, uma multidão de obstáculos ao prazer, tais como prisão, exílio e a própria morte. Aliás, muitas vezes correm risco considerável logo de início, ao espreitar a saída de casa do dono e dos que estão a seu serviço. De modo que, supondo possível um homem cometer adultério e escapar do conhecimento do marido, dos seus servos e dos demais cuja estima ele perderia, então o epicurista cederia à prática do crime por causa do prazer. Já o homem sem nenhum sistema filosófico, que se abstém do adultério quando a oportunidade lhe surge, geralmente o faz por medo da lei e de suas penas, e não para desfrutar de um número maior de outros prazeres. Você vê, então, que um ato que passa por ser um só e o mesmo, a saber, a abstenção do adultério, não é o mesmo, mas difere de homem para homem conforme os motivos que o movem: um se abstém por razões sólidas, outro por razões tão más e ímpias como as do epicurista e do homem comum de quem falamos.
Assim como esse ato de autodomínio, que na aparência é um só e o mesmo, na verdade se mostra diferente em pessoas diferentes, segundo os princípios e motivos que a ele conduzem, do mesmo modo se dá com aqueles que não admitem altares, templos ou imagens na adoração do Ser Divino. Os cítios, os líbios nômades, os seres sem deus e os persas concordam nisto com os cristãos e os judeus, mas são movidos por princípios muito diferentes. Pois nenhum daqueles primeiros abomina altares e imagens por temer rebaixar a adoração de Deus, reduzindo-a à adoração de coisas materiais feitas por mãos humanas. Nem objetam a elas por acreditarem que os demônios escolhem certas formas e lugares, seja porque ali estejam retidos pela força de certos encantamentos, seja porque, por algum outro motivo possível, tenham selecionado esses covis onde possam buscar seus prazeres criminosos, partilhando da fumaça das vítimas sacrificiais. Mas os cristãos e os judeus atentam para este mandamento: "Temerás o Senhor teu Deus e só a ele servirás"; e para este outro: "Não terás outros deuses diante de mim; não farás para ti imagem esculpida, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, ou embaixo na terra, ou nas águas debaixo da terra; não te prostrarás diante delas nem as servirás"; e ainda: "Adorarás o Senhor teu Deus e só a ele servirás." É em consideração a esses e a muitos outros mandamentos semelhantes que eles não só evitam templos, altares e imagens, mas estão prontos a sofrer a morte quando necessário, em vez de rebaixar, por uma impiedade dessas, a concepção que têm do Deus Altíssimo.
Quanto aos persas, já dissemos que, embora não construam templos, adoram o sol e as outras obras de Deus. Isto nos é proibido, pois fomos ensinados a não adorar a criatura em lugar do Criador, e sim a saber que "a própria criação será libertada da escravidão da corrupção para a liberdade da glória dos filhos de Deus"; e que "a ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus"; e que "a criação foi sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança". Cremos, portanto, que as coisas sob a escravidão da corrupção, sujeitas à vaidade, que permanecem nessa condição na esperança de um estado melhor, não devem, em nossa adoração, ocupar o lugar de Deus, o todo-suficiente, e de seu Filho, o Primogênito de toda a criação. Que isto baste, além do que já dissemos sobre os persas, que abominam altares e imagens, mas servem à criatura em lugar do Criador. Quanto à passagem que Celso citou de Heráclito, cujo sentido ele apresenta como sendo que é tolice infantil oferecer orações a imagens enquanto não se sabe quem são os deuses e os heróis, podemos responder que é fácil saber que Deus, e o Filho Unigênito de Deus, e aqueles a quem Deus honrou com o título de deus e que partilham de sua natureza divina, são muito diferentes de todos os deuses das nações, que são demônios. Mas não é possível, ao mesmo tempo, conhecer a Deus e dirigir orações a imagens.
E a acusação de tolice se aplica não só aos que oferecem orações a imagens, mas também aos que fingem fazê-lo para acompanhar o exemplo da multidão. A essa classe pertencem os filósofos peripatéticos e os seguidores de Epicuro e de Demócrito. Pois não há falsidade nem fingimento na alma possuída por verdadeira piedade para com Deus. Outra razão pela qual nos abstemos de prestar honra a imagens é para não dar nenhum apoio à noção de que as imagens são deuses. É por esse motivo que condenamos Celso e todos os outros que, embora admitam que elas não são deuses, mesmo assim, com reputação de homens sábios, prestam a elas o que passa por homenagem. Desse modo, levam ao pecado a multidão que segue seu exemplo e que adora essas imagens não por simples deferência ao costume, mas por uma crença em que caíram, a de que são deuses verdadeiros, e a de que não se deve dar ouvidos aos que sustentam que os objetos de sua adoração não são deuses verdadeiros. Celso, é verdade, diz que eles não as tomam por deuses, e sim apenas como oferendas dedicadas aos deuses. Mas ele não prova que elas não estejam dedicadas antes a homens do que, como ele diz, à honra dos próprios deuses; pois é claro que são as oferendas de homens equivocados em suas concepções do Ser Divino. Além disso, não imaginamos que essas imagens sejam representações de Deus, pois não podem representar um ser que é invisível e incorpóreo. Mas, como Celso supõe que caímos em contradição, ao dizermos por um lado que Deus não tem forma humana e por outro professarmos crer que Deus fez o homem à imagem de si mesmo e criou o homem à imagem de Deus, nossa resposta é a mesma que já foi dada: sustentamos que a semelhança com Deus se conserva na alma racional, que é formada para a virtude. E embora Celso, que não enxerga a diferença entre ser a imagem de Deus e ser criado segundo a imagem de Deus, finja que dissemos "Deus fez o homem à sua própria imagem e lhe deu uma forma semelhante à sua", isto também já foi examinado antes.
Sua observação seguinte sobre os cristãos é esta: "Eles admitirão que essas imagens, semelhantes ou não, são feitas e dedicadas em honra de certos seres; mas sustentarão que os seres a quem são dedicadas não são deuses, e sim demônios, e que um adorador de Deus não deve adorar demônios." Se ele estivesse familiarizado com a natureza dos demônios e com suas diversas operações, quer sejam induzidos a elas pelas conjurações dos que são hábeis na arte, quer sejam impelidos por sua própria inclinação a agir segundo seu poder e desejo; se, digo, tivesse compreendido a fundo esse assunto, que é tanto vasto quanto difícil para o entendimento humano, não nos teria condenado por dizermos que aqueles que adoram o Ser Supremo não devem servir a demônios. Quanto a nós, estamos tão longe de querer servir a demônios que, pelo uso de orações e de outros meios que aprendemos da Escritura, nós os expulsamos das almas dos homens, dos lugares onde se estabeleceram e, às vezes, até dos corpos de animais; pois mesmo essas criaturas muitas vezes sofrem danos infligidos por demônios.
Depois de tudo o que já dissemos a respeito de Jesus, seria repetição inútil responder a estas palavras de Celso: "É fácil convencê-los de que adoram não um deus, nem mesmo demônios, mas um morto." Deixando, então, de lado essa objeção, pela razão já apontada, passemos ao que vem a seguir: "Em primeiro lugar, eu perguntaria por que não devemos servir a demônios. Não é verdade que todas as coisas estão ordenadas segundo a vontade de Deus, e que a sua providência governa tudo? Não é tudo o que acontece no universo, seja obra de Deus, de anjos, de outros demônios ou de heróis, regulado pela lei do Deus Altíssimo? Não lhes foram atribuídas diversas funções de que cada um foi julgado digno? Não é justo, portanto, que aquele que adora a Deus sirva também àqueles a quem Deus atribuiu tal poder? No entanto", diz ele, "é impossível a um homem servir a muitos senhores." Observe aqui mais uma vez como ele resolve de uma só vez uma porção de questões que exigem pesquisa considerável e um conhecimento profundo do que há de mais misterioso no governo do universo. Pois precisamos investigar o sentido da afirmação de que todas as coisas estão ordenadas segundo a vontade de Deus, e averiguar se os pecados estão ou não incluídos entre as coisas que Deus ordena. Pois se o governo de Deus se estende aos pecados não só nos homens, mas também nos demônios e em quaisquer outros seres espirituais capazes de pecar, cabe aos que falam dessa maneira ver como é inconveniente a expressão de que todas as coisas estão ordenadas pela vontade de Deus. Pois daí se segue que todos os pecados e todas as suas consequências estão ordenados pela vontade de Deus, o que é coisa diferente de dizer que ocorrem com a permissão de Deus. Pois se tomarmos a palavra "ordenado" em seu sentido próprio e dissermos que todos os resultados do pecado foram ordenados, então fica evidente que todas as coisas estão ordenadas segundo a vontade de Deus, e que todos, portanto, os que praticam o mal não ofendem contra o seu governo. E a mesma distinção vale para a providência. Quando dizemos que a providência de Deus regula todas as coisas, dizemos uma grande verdade se atribuímos a essa providência apenas o que é justo e reto. Mas se atribuirmos à providência de Deus todas as coisas, por mais injustas que sejam, então já não é verdade que a providência de Deus regula todas as coisas, a não ser que refiramos diretamente à providência de Deus as coisas que decorrem como resultados de suas disposições. Celso sustenta também que tudo o que acontece no universo, seja obra de Deus, de anjos, de outros demônios ou de heróis, é regulado pela lei do Deus Altíssimo. Mas isto também é incorreto; pois não podemos dizer que os transgressores sigam a lei de Deus quando transgridem; e a Escritura declara que não só os homens maus são transgressores, mas também os demônios maus e os anjos maus.
E não somos só nós que falamos de demônios maus, mas quase todos os que reconhecem a existência de demônios. Assim, então, não é verdade que todos observem a lei do Altíssimo; pois todos os que se afastam da lei divina, seja por descuido, seja por depravação e vício, seja por ignorância do que é certo, todos esses não guardam a lei de Deus, mas, para usar uma expressão nova que encontramos na Escritura, a lei do pecado. Digo, então, que, na opinião da maioria dos que creem na existência de demônios, alguns deles são maus; e estes, em vez de guardarem a lei de Deus, ofendem contra ela. Mas, segundo nossa crença, é verdade de todos os demônios que eles não eram demônios desde a origem, e sim se tornaram tais ao se afastarem do verdadeiro caminho; de modo que o nome de demônios é dado àqueles seres que se desviaram de Deus. Por conseguinte, os que adoram a Deus não devem servir a demônios. Podemos também aprender a verdadeira natureza dos demônios se considerarmos a prática dos que os invocam por encantamentos, seja para impedir certas coisas, seja para muitos outros fins. Pois este é o método que adotam, a fim de, por meio de encantações e artes mágicas, invocar os demônios e induzi-los a favorecer seus desejos. Por isso, a adoração de quaisquer demônios seria incoerente em nós, que adoramos o Deus Supremo; e o serviço aos demônios é o serviço aos chamados deuses, pois todos os deuses dos pagãos são demônios. A mesma coisa também se vê pelo fato de que a dedicação dos mais famosos dos chamados lugares sagrados, sejam templos ou estátuas, vinha acompanhada de curiosas encantações mágicas, realizadas pelos que serviam zelosamente os demônios com artes mágicas. Por isso estamos decididos a evitar a adoração de demônios como evitaríamos a morte; e sustentamos que a adoração que, segundo se supõe entre os gregos, é prestada aos deuses nos altares, nas imagens e nos templos, é na realidade oferecida a demônios.
Sua observação seguinte foi: "Não receberam esses poderes inferiores, da parte de Deus, diferentes funções, conforme cada um foi julgado digno?" Mas esta é uma questão que exige um conhecimento muito profundo. Pois precisamos determinar se o Verbo de Deus, que governa todas as coisas, designou demônios maus para certos serviços, do mesmo modo que nos Estados são designados executores e outros funcionários com deveres cruéis mas necessários a cumprir; ou se, como entre os salteadores que infestam lugares desertos é costume escolherem do seu número um que lhes sirva de chefe, assim também os demônios, espalhados por assim dizer em bandos por diferentes partes da terra, escolheram para si um chefe sob cujo comando possam saquear e pilhar as almas dos homens. Para explicar isto plenamente e justificar a conduta dos cristãos ao recusarem homenagem a qualquer objeto exceto ao Deus Altíssimo e ao Primogênito de toda a criação, que é o seu Verbo e Deus, precisamos citar isto da Escritura: "Todos quantos vieram antes de mim são ladrões e salteadores; mas as ovelhas não os ouviram"; e ainda: "O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir"; e outras passagens semelhantes, como: "Eis que vos dei autoridade para pisar serpentes e escorpiões, e sobre todo o poder do inimigo; e nada de modo algum vos fará dano"; e ainda: "Pisarás o leão e a víbora; calcarás aos pés o filhote do leão e o dragão." Mas dessas coisas Celso nada sabia, senão não teria usado linguagem como esta: "Não é tudo o que acontece no universo, seja obra de Deus, de anjos, de outros demônios ou de heróis, regulado pela lei do Deus Altíssimo? Não lhes foram atribuídas diversas funções de que cada um foi julgado digno? Não é justo, portanto, que aquele que serve a Deus sirva também àqueles a quem Deus atribuiu tal poder?" Ao que ele acrescenta: "É impossível, dizem eles, a um homem servir a muitos senhores." Este último ponto devemos adiar para o livro seguinte; pois este, que é o sétimo livro que escrevemos em resposta ao tratado de Celso, já tem extensão suficiente.