Contra Celso - Livro VII 1
Profecia, oráculos e a verdadeira adoração
Celso prossegue, dizendo a nosso respeito: Eles não dão valor algum aos oráculos da sacerdotisa pítia, dos sacerdotes de Dodona, de Claros, de Branquidas, de Júpiter Amon e de uma multidão de outros, ainda que, sob a orientação deles, possamos dizer que colônias foram enviadas e o mundo inteiro foi povoado. Mas aquelas palavras que foram ditas ou não ditas na Judeia, à maneira daquele país, como de fato ainda são proferidas entre o povo da Fenícia e da Palestina, essas eles consideram dizeres maravilhosos e imutavelmente verdadeiros. Quanto aos oráculos aqui enumerados, respondemos que nos seria possível recolher dos escritos de Aristóteles e da escola peripatética não poucas coisas para derrubar a autoridade do oráculo pítio e dos demais. De Epicuro também, e de seus seguidores, poderíamos citar passagens para mostrar que mesmo entre os próprios gregos houve alguns que desacreditavam por completo os oráculos que eram reconhecidos e admirados por toda a Grécia. Mas suponhamos que as respostas dadas pelo oráculo pítio e pelos demais não fossem proferidas por homens falsos que fingiam ter inspiração divina. Vejamos então se, ainda assim, não podemos convencer qualquer investigador sincero de que não há necessidade alguma de atribuir essas respostas oraculares a divindades, mas que, ao contrário, elas podem ser rastreadas até demônios malignos, até espíritos que são inimigos da raça humana e que, dessa forma, desejam impedir que a alma se eleve, que siga o caminho da virtude e que retorne a Deus em piedade sincera. Diz-se da sacerdotisa pítia, cujo oráculo parece ter sido o mais célebre, que, quando ela se sentava à boca da caverna castália, o espírito profético de Apolo entrava por suas partes íntimas. E quando ela ficava cheia dele, pronunciava respostas que eram tidas com reverência como verdades divinas. Julgue por isto se aquele espírito não revela sua natureza profana e impura, ao escolher entrar na alma da profetisa não pelo meio mais decente dos poros do corpo, que são ao mesmo tempo abertos e invisíveis, mas por meio daquilo que nenhum homem decente jamais veria ou mencionaria. E isso ocorre não uma ou duas vezes, o que seria mais admissível, mas tantas vezes quantas se acreditava que ela recebia inspiração de Apolo. Além disso, não é próprio de um espírito divino lançar a profetisa em tal estado de êxtase e loucura que ela perde o controle de si mesma. Pois quem está sob a influência do Espírito Divino deveria ser o primeiro a receber os efeitos benéficos. E esses efeitos não deveriam ser desfrutados primeiro pelas pessoas que consultam o oráculo sobre questões da vida natural ou civil, ou com fins de ganho ou interesse passageiro. E, ainda mais, aquele deveria ser o momento de percepção mais clara, quando a pessoa está em contato estreito com a divindade.