Contra Celso - Livro VII 5

Profecia, oráculos e a verdadeira adoração

Celso supõe que podemos chegar a um conhecimento de Deus seja combinando, seja separando certas coisas pelos métodos que os matemáticos chamam de síntese e análise, ou ainda por analogia, também empregada por eles, e que desse modo podemos, por assim dizer, ganhar acesso ao bem supremo. Mas, quando o Verbo de Deus diz: Ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar, Ele declara que ninguém pode conhecer a Deus senão pelo auxílio da graça divina vinda do alto, com certa inspiração divina. De fato, é razoável supor que o conhecimento de Deus está além do alcance da natureza humana, e daí os muitos erros em que os homens caíram em suas concepções sobre Deus. É, então, pela bondade e amor de Deus pela humanidade, e por um exercício admirável da graça divina, em favor daqueles que Ele viu em sua presciência, e soube que andariam de modo digno daquele que se dera a conhecer a eles, e que jamais se desviariam de um apego fiel ao seu serviço, ainda que fossem condenados à morte ou expostos ao ridículo por aqueles que, ignorando o que é a verdadeira religião, dão esse nome ao que merece ser chamado de qualquer outra coisa menos religião. Deus sem dúvida viu o orgulho e a arrogância daqueles que, com desprezo por todos os outros, se vangloriam de seu conhecimento de Deus e de seu profundo trato com as coisas divinas obtido da filosofia, mas que, ainda assim, não menos que os mais ignorantes, correm atrás de suas imagens, templos e mistérios famosos. Vendo isso, Ele escolheu as coisas loucas deste mundo (os mais simples dos cristãos, que levam, no entanto, uma vida de maior moderação e pureza do que muitos filósofos) para confundir os sábios, que não se envergonham de dirigir-se a coisas inanimadas como deuses ou imagens dos deuses. Pois que homem razoável pode deixar de sorrir quando que alguém que aprendeu da filosofia sentimentos tão profundos e nobres sobre Deus ou os deuses se volta logo para imagens e lhes oferece suas orações, ou imagina que, contemplando essas coisas materiais, pode ascender do símbolo visível ao que é espiritual e imaterial? Mas um cristão, mesmo dentre o povo comum, tem a certeza de que todo lugar faz parte do universo, e que o universo inteiro é o templo de Deus. Em qualquer parte do mundo em que esteja, ele ora; mas ele se eleva acima do universo, fechando os olhos do sentido e erguendo para o alto os olhos da alma. E ele não para na abóbada do céu, mas, passando em pensamento para além dos céus, sob a orientação do Espírito de Deus, e tendo assim, por assim dizer, ido além do universo visível, ele oferece orações a Deus. Mas ele não ora por bênçãos triviais, pois aprendeu de Jesus a não buscar nada de pequeno ou mesquinho, isto é, objetos sensíveis, mas a pedir apenas o que é grande e verdadeiramente divino; e essas coisas Deus nos concede, para nos conduzir àquela bem-aventurança que se encontra com Ele por meio de seu Filho, o Verbo, que é Deus.