Contra Celso - Livro VII 2
Profecia, oráculos e a verdadeira adoração
Mas, se ele estivesse agindo com honestidade em suas acusações, deveria ter apresentado os termos exatos das profecias, fossem aquelas em que se introduz o orador alegando ser Deus Todo-Poderoso, fossem aquelas em que fala o Filho de Deus, fossem, por fim, aquelas sob o nome do Espírito Santo. Pois assim ele poderia ter tentado derrubar essas afirmações e mostrar que não havia inspiração divina alguma naquelas palavras que instavam os homens a abandonar seus pecados, que condenavam o passado e prediziam o futuro. Pois as profecias foram registradas e preservadas por homens que viviam na época, para que os que viessem depois pudessem lê-las e admirá-las como os oráculos de Deus, e para que se beneficiassem não só das advertências e exortações, mas também das predições, as quais, sendo comprovadas pelos acontecimentos como procedentes do Espírito de Deus, ligam os homens à prática da piedade tal como exposta na lei e nos profetas. Os profetas, portanto, como Deus lhes ordenou, declararam com toda a clareza aquelas coisas que era desejável que os ouvintes compreendessem de imediato, para a regulação de sua conduta; ao passo que, em relação a assuntos mais profundos e misteriosos, que estavam além do alcance do entendimento comum, eles os apresentaram na forma de enigmas e alegorias, ou daquilo que se chama dizeres obscuros, parábolas ou comparações. E seguiram esse plano para que aqueles que estão dispostos a não poupar esforço algum nem fadiga em sua busca pela verdade e pela virtude pudessem investigar seu sentido e, tendo-o encontrado, pudessem aplicá-lo conforme a razão exige. Mas Celso, sempre enérgico em suas denúncias, como se estivesse irritado por sua incapacidade de entender a linguagem dos profetas, zomba deles assim: A essas grandiosas promessas acrescentam-se palavras estranhas, fanáticas e completamente ininteligíveis, cujo sentido nenhuma pessoa racional consegue encontrar; pois são tão obscuras que não têm sentido algum, mas dão ensejo a todo tolo ou impostor de aplicá-las de modo a servir aos seus próprios propósitos. Essa afirmação de Celso parece engenhosamente concebida para dissuadir os leitores de tentar qualquer indagação ou busca cuidadosa de seu sentido. E nisso ele não é diferente de certas pessoas que disseram a um homem visitado por um profeta para lhe anunciar acontecimentos futuros: Para que veio a ti esse louco?
Estou convencido, de fato, de que se poderiam apresentar argumentos muito melhores do que qualquer um que eu tenha sido capaz de trazer, para mostrar a falsidade dessas alegações de Celso e para expor a inspiração divina das profecias; mas nós, dentro de nossa capacidade, em nossos comentários sobre Isaías, Ezequiel e alguns dos doze profetas menores, explicamos literalmente e em detalhe o que ele chama de passagens fanáticas e completamente ininteligíveis. E se Deus nos der a graça, no tempo que ele determinar para nós, de avançar no conhecimento de sua palavra, continuaremos nossa investigação das partes que restam, ou pelo menos daquelas que formos capazes de tornar claras. E outras pessoas inteligentes que desejem estudar a Escritura também poderão descobrir seu sentido por si mesmas; pois, embora haja muitos lugares em que o sentido não é evidente, ainda assim não há nenhum em que, como afirma Celso, não haja sentido algum. Tampouco é verdade que qualquer tolo ou impostor possa explicar as passagens de modo a fazê-las servir aos seus próprios propósitos. Pois cabe somente àqueles que são sábios na verdade de Cristo (e a todos eles cabe) desdobrar a conexão e o sentido até mesmo das partes obscuras da profecia, comparando as coisas espirituais com as espirituais e interpretando cada passagem segundo o uso dos escritores da Escritura. E não se deve dar crédito a Celso quando ele diz que ouviu tais homens profetizar; pois nenhum profeta que tivesse qualquer semelhança com os antigos profetas apareceu no tempo de Celso. Se tivesse havido algum, os que os ouviram e admiraram teriam seguido o exemplo dos antigos e teriam registrado as profecias por escrito. E parece bastante claro que Celso fala falsamente quando diz que aqueles profetas que ele tinha ouvido, ao serem por ele pressionados, confessaram seus verdadeiros motivos e reconheceram que as palavras ambíguas que usavam de fato não significavam nada. Ele deveria ter dado os nomes daqueles que diz ter ouvido, se tivesse algum a dar, para que os que fossem competentes para julgar pudessem decidir se suas alegações eram verdadeiras ou falsas.
Ele pensa, ademais, que aqueles que sustentam a causa de Cristo recorrendo aos escritos dos profetas não conseguem dar resposta adequada quanto a afirmações neles que atribuem a Deus aquilo que é mau, vergonhoso ou impuro; e, supondo que nenhuma resposta possa ser dada, ele passa a tirar toda uma série de inferências, nenhuma das quais pode ser admitida. Mas ele deveria saber que aqueles que desejam viver segundo o ensino da sagrada Escritura entendem o dito: O conhecimento do insensato é como conversa sem sentido, Eclesiástico 21:18 e aprenderam a estar sempre prontos para dar resposta a todo aquele que nos pede a razão da esperança que há em nós. E não se contentam em afirmar que tais e tais coisas foram preditas, mas se esforçam por remover quaisquer aparentes incoerências e por mostrar que, longe de haver algo mau, vergonhoso ou impuro nessas predições, tudo é digno de ser recebido pelos que entendem as sagradas Escrituras. Mas Celso deveria ter apresentado, a partir dos profetas, exemplos do que considerava mau, ou vergonhoso, ou impuro, se viu alguma passagem assim; pois então seu argumento teria tido muito mais força e teria servido muito melhor ao seu propósito. Ele não dá exemplo algum, no entanto, e se contenta em afirmar em alta voz a falsa acusação de que essas coisas se encontram na Escritura. Não há razão, então, para nos defendermos de acusações infundadas, que são apenas sons vazios, ou para nos darmos ao trabalho de mostrar que, nos escritos dos profetas, não há nada mau, vergonhoso, impuro ou abominável.
E não há verdade alguma na afirmação de Celso de que Deus pratica os atos mais desavergonhados, ou sofre os padecimentos mais desavergonhados, ou que ele favorece a prática do mal; pois, diga ele o que disser, nada disso jamais foi predito. Ele deveria ter citado dos profetas as passagens em que Deus é representado como favorecendo o mal, ou como praticando e suportando os atos mais desavergonhados, e não deveria ter procurado, sem fundamento, prejudicar a mente de seus leitores. Os profetas, de fato, predisseram o que Cristo haveria de sofrer e expuseram a razão pela qual ele haveria de sofrer. Deus, portanto, também sabia o que Cristo iria sofrer; mas onde ele aprendeu que aquilo que o Cristo de Deus haveria de sofrer era a coisa mais vil e desonrosa? Ele prossegue, explicando quais eram aquelas coisas mais vergonhosas e degradantes que Cristo sofreu, nestas palavras: Pois que vantagem havia para Deus em comer a carne de ovelhas, ou em beber vinagre e fel, do que alimentar-se de imundície? Mas Deus, segundo nós, não comeu a carne de ovelhas; e, embora pareça que Jesus comeu, ele o fez apenas por possuir um corpo. Mas quanto ao vinagre e ao fel mencionados na profecia, Deram-me também fel por alimento, e na minha sede deram-me vinagre para beber, já nos referimos a esse ponto; e, como Celso nos obriga a voltar a ele, diremos apenas mais o seguinte: que aqueles que resistem à palavra da verdade sempre oferecem a Cristo, o Filho de Deus, o fel de sua própria maldade e o vinagre de suas más inclinações; mas, embora ele o prove, não o beberá.
Em seguida, querendo abalar a fé daqueles que creem em Jesus com base nas profecias que foram pronunciadas a respeito dele, Celso diz: Mas, por favor, se os profetas predisseram que o grande Deus (para não dizê-lo de modo mais áspero) se tornaria escravo, ou adoeceria, ou morreria, haveria por isso alguma necessidade de que Deus morresse, ou sofresse doença, ou se tornasse escravo, simplesmente porque tais coisas haviam sido preditas? Deve ele morrer para provar sua divindade? Mas os profetas jamais pronunciariam predições tão perversas e ímpias. Não precisamos, portanto, indagar se algo foi predito ou não, mas se a coisa é em si mesma honrosa e digna de Deus. Naquilo que é mau e vil, ainda que parecesse que todos os homens do mundo o tivessem predito num acesso de loucura, não devemos crer. Como, então, pode a mente piedosa admitir que aquelas coisas que se dizem ter acontecido a ele poderiam ter acontecido a alguém que é Deus? Disto fica claro que Celso percebe que o argumento a partir da profecia é muito eficaz para convencer aqueles a quem Cristo é pregado; mas ele parece esforçar-se por derrubá-lo com uma probabilidade contrária, a saber, que a questão não é se os profetas pronunciaram ou não essas predições. Mas, se ele quisesse raciocinar com justiça e sem evasivas, deveria antes ter dito: Temos de mostrar que essas coisas nunca foram preditas, ou que aquelas coisas que foram preditas de Cristo nunca se cumpriram nele, e desse modo ele teria estabelecido a posição que defende. Desse modo ficaria claro quais são as profecias que aplicamos a Jesus, e como Celso poderia justificar-se ao afirmar que tal aplicação era falsa. E assim teríamos visto se ele de fato refutou tudo o que trazemos dos profetas em favor de Jesus, ou se ele próprio fica convicto de uma desavergonhada tentativa de resistir às verdades mais claras por meio de afirmações violentas.
Depois de supor que algumas coisas foram preditas que são impossíveis em si mesmas e incompatíveis com o caráter de Deus, ele diz: Se essas coisas foram preditas do Deus Altíssimo, somos obrigados a crê-las de Deus simplesmente porque foram preditas? E assim ele pensa provar que, embora os profetas pudessem ter predito com verdade tais coisas a respeito do Filho de Deus, ainda assim é impossível para nós crer naquelas profecias que declaram que ele faria ou sofreria tais coisas. A isso respondemos que a suposição é absurda, pois combina duas linhas de raciocínio que se opõem uma à outra e, portanto, se destroem mutuamente. Isso pode ser mostrado assim. Um dos argumentos é: Se quaisquer verdadeiros profetas do Altíssimo dizem que Deus se tornará escravo, ou sofrerá doença, ou morrerá, essas coisas acontecerão a Deus; pois é impossível que os profetas do grande Deus profiram mentiras. O outro é: Se mesmo verdadeiros profetas do Deus Altíssimo dizem que essas mesmas coisas vão acontecer, visto que essas coisas preditas são, pela natureza das coisas, impossíveis, então as profecias não são verdadeiras e, portanto, aquilo que foi predito não acontecerá a Deus. Quando, então, encontramos dois processos de raciocínio em ambos os quais a premissa maior é a mesma, levando a duas conclusões contraditórias, usamos a forma de argumento chamada teorema das duas proposições, para provar que a premissa maior é falsa, a qual, no caso diante de nós, é esta: que os profetas predisseram que o grande Deus se tornaria escravo, sofreria doença ou morreria. Concluímos, então, que os profetas nunca predisseram tais coisas; e o argumento é formalmente expresso assim: primeiro, de duas coisas, se a primeira é verdadeira, a segunda é verdadeira; segundo, se a primeira é verdadeira, a segunda não é verdadeira; logo, a primeira não é verdadeira. O exemplo concreto que os estoicos dão para ilustrar essa forma de argumento é o seguinte: primeiro, se você sabe que está morto, você está morto; segundo, se você sabe que está morto, você não está morto. E a conclusão é: você não sabe que está morto. Essas proposições se desenvolvem assim: Se você sabe que está morto, aquilo que você sabe é certo; logo, você está morto. Por outro lado, se você sabe que está morto, sua morte é objeto de conhecimento; mas, como os mortos nada sabem, o fato de você saber isso prova que você não está morto. Por isso, juntando os dois argumentos, chega-se à conclusão: você não sabe que está morto. Ora, a hipótese de Celso que apresentamos acima é muito do mesmo tipo.
Mas, além disso, as profecias que ele introduz em seu argumento são muito diferentes do que os profetas de fato predisseram a respeito de Jesus Cristo. Pois as profecias não predizem que Deus será crucificado, quando dizem daquele que haveria de sofrer: Nós o vimos, e ele não tinha forma nem formosura; mas sua aparência estava desonrada e desfigurada mais do que a dos filhos dos homens; ele era um homem de dores e experimentado no sofrimento. Observe, então, com que clareza eles dizem que era um homem que haveria de suportar esses padecimentos humanos. E o próprio Jesus, que sabia perfeitamente que aquele que deveria morrer tinha de ser um homem, disse aos seus acusadores: Mas agora procurais matar-me, um homem que vos disse a verdade que ouvi de Deus. E se, naquele homem tal como apareceu entre os homens, havia algo de divino, a saber, o Filho unigênito de Deus, o primogênito de toda a criação, aquele que disse de si mesmo: Eu sou a verdade, eu sou a vida, eu sou a porta, eu sou o caminho, eu sou o pão vivo que desceu do céu, sobre este Ser e sua natureza devemos julgar e raciocinar de um modo bem diferente daquele com que julgamos o homem que foi visto em Jesus Cristo. Por isso, você não encontrará cristão algum, por mais simples que seja e por menos versado que esteja em estudos críticos, que dissesse que aquele que morreu era a verdade, a vida, o caminho, o pão vivo que desceu do céu, a ressurreição; pois foi ele que nos apareceu na forma do homem Jesus, que nos ensinou, dizendo: Eu sou a ressurreição. Não há ninguém entre nós, repito, tão desvairado a ponto de afirmar que a Vida morreu, que a Ressurreição morreu. A suposição de Celso teria algum fundamento se disséssemos que havia sido predito pelos profetas que a morte sobreviria a Deus, o Verbo, a Verdade, a Vida, a Ressurreição, ou qualquer outro nome que é atribuído ao Filho de Deus.
Num único ponto Celso está correto em suas afirmações sobre esse assunto. É aquele em que ele diz: Os profetas não prediriam isto, porque envolve aquilo que é mau e ímpio, a saber, que o grande Deus se tornasse escravo ou sofresse a morte. Mas aquilo que é predito pelos profetas é digno de Deus: que aquele que é o resplendor e a imagem expressa da natureza divina viesse ao mundo com a santa alma humana que haveria de animar o corpo de Jesus, para semear a semente de sua palavra, que pudesse trazer todos os que a recebessem e nutrissem à união com o Deus Altíssimo, e que conduziria à bem-aventurança perfeita todos aqueles que sentissem em si o poder de Deus, o Verbo, que haveria de estar no corpo e na alma de um homem. Ele haveria de estar nele, de fato, mas não de tal modo que confinasse ali todos os raios de sua glória; e não devemos supor que a luz daquele que é Deus, o Verbo, se difunda de nenhum outro modo a não ser nele. Se, então, considerarmos Jesus em relação à divindade que havia nele, as coisas que ele fez nessa capacidade não apresentam nada que ofenda nossas ideias de Deus, nada a não ser o que é santo; e, se o considerarmos como homem, distinto acima de todos os outros homens por uma comunhão íntima com o Verbo Eterno, com a Sabedoria absoluta, ele sofreu como alguém que era sábio e perfeito, tudo o que lhe coube sofrer, ele que fez tudo para o bem da raça humana, sim, até para o bem de todos os seres inteligentes. E não há nada de absurdo em um homem ter morrido, e em sua morte ser não só um exemplo de morte suportada por amor à piedade, mas também o primeiro golpe no conflito que há de derrubar o poder daquele espírito maligno, o diabo, que havia obtido domínio sobre o mundo inteiro. Pois temos sinais e penhores da destruição de seu império naqueles que, pela vinda de Cristo, estão em toda parte escapando do poder dos demônios e que, depois de libertados dessa servidão em que eram mantidos, se consagram a Deus e se dedicam com fervor, dia após dia, a progredir numa vida de piedade.
Celso acrescenta: Não farão eles, além disso, esta reflexão? Se os profetas do Deus dos judeus predisseram que aquele que haveria de vir ao mundo seria o Filho desse mesmo Deus, como pôde ele ordenar-lhes, por meio de Moisés, que acumulassem riquezas, que estendessem seu domínio, que enchessem a terra, que passassem ao fio da espada seus inimigos de toda idade e os destruíssem por completo, o que de fato ele próprio fez, como diz Moisés, ameaçando-os, ademais, de que, se não obedecessem aos seus mandamentos, ele os trataria como seus declarados inimigos; enquanto, por outro lado, seu Filho, o homem de Nazaré, promulgou leis bem opostas a estas, declarando que ninguém pode vir ao Pai se ama o poder, ou as riquezas, ou a glória; que os homens não devem ser mais cuidadosos em prover alimento do que os corvos; que deveriam preocupar-se menos com suas vestes do que os lírios; que, a quem lhes desse um golpe, deveriam oferecer-se a receber outro? Quem ensina falsamente, Moisés ou Jesus? Acaso o Pai, ao enviar Jesus, esqueceu os mandamentos que tinha dado a Moisés? Ou mudou de ideia, condenou suas próprias leis e enviou um mensageiro com instruções contrárias? Celso, com toda a sua jactância de conhecimento universal, caiu aqui no mais vulgar dos erros, ao supor que na lei e nos profetas não há um sentido mais profundo do que o oferecido por uma tradução literal das palavras. Ele não vê quão manifestamente inacreditável é que riquezas mundanas sejam prometidas aos que levam uma vida reta, quando é observação comum que os melhores dos homens viveram em extrema pobreza. De fato, os próprios profetas, que pela pureza de suas vidas receberam o Espírito Divino, andaram errantes, vestidos de peles de ovelhas e de cabras, sendo destituídos, afligidos, atormentados; vaguearam por desertos, e montanhas, e covas e cavernas da terra. Pois, como diz o salmista, muitas são as aflições do justo. Se Celso tivesse lido os escritos de Moisés, ele, ouso dizer, teria suposto que, quando se diz àquele que guardava a lei: Emprestarás a muitas nações, e tu mesmo não tomarás emprestado, a promessa feita ao homem justo é a de que suas riquezas temporais seriam tão abundantes que ele seria capaz de emprestar não só aos judeus, não só a duas ou três nações, mas a muitas nações. Que riqueza, então, deve ter recebido o homem justo segundo a lei, por sua justiça, se podia emprestar a muitas nações? E não devemos supor também, de acordo com essa interpretação, que o homem justo jamais tomaria emprestado coisa alguma? Pois está escrito: e tu mesmo nada tomarás emprestado. Acaso aquela nação permaneceu por tão longo período apegada à religião que foi ensinada por Moisés se, segundo a suposição de Celso, eles se viam tão gravemente enganados por aquele legislador? Pois em nenhum lugar se diz de ninguém que fosse tão rico a ponto de emprestar a muitas nações. Não é de crer que eles teriam lutado com tanto zelo em defesa de uma lei cujas promessas se houvessem mostrado clamorosamente falsas, se as entendessem no sentido que Celso lhes dá. E se alguém disser que os pecados que se registra terem sido cometidos pelo povo são prova de que eles desprezavam a lei, sem dúvida pela sensação de que haviam sido por ela enganados, podemos responder que basta lermos a história daqueles tempos para ver demonstrado que todo o povo, depois de ter feito aquilo que era mau aos olhos do Senhor, voltava em seguida ao seu dever e à religião prescrita pela lei.
Ora, se essas palavras na lei, Terás domínio sobre muitas nações, e ninguém dominará sobre ti, fossem simplesmente uma promessa de domínio para eles, e se não contivessem nenhum sentido mais profundo do que este, então é certo que o povo teria tido razões ainda mais fortes para desprezar as promessas da lei. Celso apresenta outra passagem, embora altere seus termos, em que se diz que a terra inteira será preenchida pela raça hebraica; o que, de fato, segundo o testemunho da história, realmente aconteceu após a vinda de Cristo, ainda que mais como resultado da ira de Deus, se assim posso dizer, do que de sua bênção. Quanto à promessa feita aos judeus de que matariam seus inimigos, pode-se responder que qualquer um que examinar com cuidado o sentido dessa passagem se verá incapaz de interpretá-la literalmente. Por ora, basta referir-se à maneira como, nos Salmos, o homem justo é representado dizendo, entre outras coisas: Cada manhã destruirei os ímpios da terra; para exterminar da cidade do Senhor todos os que praticam a iniquidade. Julgue, então, pelas palavras e pelo espírito de quem fala, se é concebível que, depois de ter, na parte anterior do salmo, como qualquer um pode ler por si mesmo, expressado os mais nobres pensamentos e propósitos, ele dissesse na sequência, segundo a tradução literal de suas palavras, que de manhã, e em nenhum outro momento do dia, destruiria todos os pecadores da terra, e não deixaria nenhum deles vivo, e que mataria todo aquele que praticasse a iniquidade em Jerusalém. E há muitas expressões semelhantes a serem encontradas na lei, como esta, por exemplo: Não deixamos nada com vida.