Contra Celso - Livro VII 1

Profecia, oráculos e a verdadeira adoração

Nos seis livros anteriores, reverendo irmão Ambrósio, nos esforçamos, dentro de nossa capacidade, para responder às acusações que Celso lançou contra os cristãos, e procuramos não deixar passar nada sem antes submetê-lo a um exame completo e minucioso. Agora, ao iniciar o sétimo livro, invocamos a Deus por meio de Jesus Cristo, a quem Celso acusa, para que aquele que é a verdade de Deus derrame luz em nossos corações e dissipe as trevas do erro, de acordo com aquela palavra do profeta que agora apresentamos como nossa oração: Destrói-os pela tua verdade. Pois é evidente que são as palavras e os raciocínios contrários à verdade que Deus destrói por sua verdade. Assim, quando estes forem destruídos, todos os que forem libertados do engano poderão prosseguir com o profeta e dizer: Eu te oferecerei sacrifício de livre vontade, e poderão apresentar ao Altíssimo um sacrifício racional e sem fumaça.
Celso agora se dispõe a combater as opiniões dos que dizem que os profetas judeus predisseram acontecimentos que se deram na vida de Cristo Jesus. Para começar, refiramo-nos a uma ideia que ele tem: a de que os que admitem a existência de outro Deus além do Deus dos judeus não têm como responder às suas objeções, enquanto nós, que reconhecemos o mesmo Deus, apoiamos nossa defesa nas profecias que foram pronunciadas a respeito de Jesus Cristo. As palavras dele são estas: Vejamos como eles podem montar uma defesa. Para os que admitem outro Deus, nenhuma defesa é possível, e os que reconhecem o mesmo Deus sempre recorrerão à mesma razão: isto e aquilo tinha de acontecer. E por quê? Porque havia sido predito muito antes. A isso respondemos que os argumentos que Celso levantou pouco contra Jesus e os cristãos eram tão completamente frágeis que poderiam facilmente ser derrubados até por aqueles que são ímpios a ponto de introduzir outro Deus. De fato, se não fosse perigoso dar aos fracos qualquer pretexto para abraçar ideias falsas, nós mesmos poderíamos dar a resposta e mostrar a Celso como é infundada sua opinião de que os que admitem outro Deus não estão em condições de enfrentar seus argumentos. No entanto, por ora vamos nos limitar a uma defesa dos profetas, dando continuidade ao que dissemos antes sobre o assunto.
Celso prossegue, dizendo a nosso respeito: Eles não dão valor algum aos oráculos da sacerdotisa pítia, dos sacerdotes de Dodona, de Claros, de Branquidas, de Júpiter Amon e de uma multidão de outros, ainda que, sob a orientação deles, possamos dizer que colônias foram enviadas e o mundo inteiro foi povoado. Mas aquelas palavras que foram ditas ou não ditas na Judeia, à maneira daquele país, como de fato ainda são proferidas entre o povo da Fenícia e da Palestina, essas eles consideram dizeres maravilhosos e imutavelmente verdadeiros. Quanto aos oráculos aqui enumerados, respondemos que nos seria possível recolher dos escritos de Aristóteles e da escola peripatética não poucas coisas para derrubar a autoridade do oráculo pítio e dos demais. De Epicuro também, e de seus seguidores, poderíamos citar passagens para mostrar que mesmo entre os próprios gregos houve alguns que desacreditavam por completo os oráculos que eram reconhecidos e admirados por toda a Grécia. Mas suponhamos que as respostas dadas pelo oráculo pítio e pelos demais não fossem proferidas por homens falsos que fingiam ter inspiração divina. Vejamos então se, ainda assim, não podemos convencer qualquer investigador sincero de que não necessidade alguma de atribuir essas respostas oraculares a divindades, mas que, ao contrário, elas podem ser rastreadas até demônios malignos, até espíritos que são inimigos da raça humana e que, dessa forma, desejam impedir que a alma se eleve, que siga o caminho da virtude e que retorne a Deus em piedade sincera. Diz-se da sacerdotisa pítia, cujo oráculo parece ter sido o mais célebre, que, quando ela se sentava à boca da caverna castália, o espírito profético de Apolo entrava por suas partes íntimas. E quando ela ficava cheia dele, pronunciava respostas que eram tidas com reverência como verdades divinas. Julgue por isto se aquele espírito não revela sua natureza profana e impura, ao escolher entrar na alma da profetisa não pelo meio mais decente dos poros do corpo, que são ao mesmo tempo abertos e invisíveis, mas por meio daquilo que nenhum homem decente jamais veria ou mencionaria. E isso ocorre não uma ou duas vezes, o que seria mais admissível, mas tantas vezes quantas se acreditava que ela recebia inspiração de Apolo. Além disso, não é próprio de um espírito divino lançar a profetisa em tal estado de êxtase e loucura que ela perde o controle de si mesma. Pois quem está sob a influência do Espírito Divino deveria ser o primeiro a receber os efeitos benéficos. E esses efeitos não deveriam ser desfrutados primeiro pelas pessoas que consultam o oráculo sobre questões da vida natural ou civil, ou com fins de ganho ou interesse passageiro. E, ainda mais, aquele deveria ser o momento de percepção mais clara, quando a pessoa está em contato estreito com a divindade.
Por isso, podemos mostrar, a partir de um exame das sagradas Escrituras, que os profetas judeus, iluminados na medida necessária para sua obra profética pelo Espírito de Deus, foram os primeiros a desfrutar do benefício da inspiração. E, pelo contato (se assim posso dizer) do Espírito Santo, tornaram-se mais lúcidos de mente, e suas almas se encheram de uma luz mais brilhante. E o corpo não servia de obstáculo a uma vida virtuosa, pois àquilo que chamamos de desejo da carne ele estava morto. Pois estamos convencidos de que o Espírito Divino faz morrer as obras do corpo e destrói aquela inimizade contra Deus que as paixões carnais servem para excitar. Se, então, a sacerdotisa pítia está fora de si quando profetiza, que espírito de ser aquele que enche sua mente e obscurece seu juízo com trevas, a não ser que seja da mesma ordem daqueles demônios que muitos cristãos expulsam das pessoas possuídas por eles? E isso, podemos observar, eles fazem sem o uso de quaisquer artes curiosas de magia, nem encantamentos, mas apenas pela oração e por adjurações simples que a pessoa mais comum é capaz de usar. Porque, na maior parte das vezes, são pessoas sem instrução que realizam essa obra, manifestando assim a graça que na palavra de Cristo e a desprezível fraqueza dos demônios, os quais, para serem vencidos e expulsos dos corpos e das almas dos homens, não exigem o poder e a sabedoria daqueles que são poderosos na argumentação e doutíssimos nas questões da fé.
Além disso, se é crido não entre cristãos e judeus, mas também por muitos outros entre os gregos e os bárbaros, que a alma humana vive e subsiste após sua separação do corpo, e se a razão apoia a ideia de que as almas puras, que não são oprimidas pelo pecado como por um peso de chumbo, sobem para o alto, à região de corpos mais puros e mais etéreos, deixando aqui embaixo seus corpos mais grosseiros junto com suas impurezas, enquanto as almas que estão poluídas e arrastadas para a terra por seus pecados, de modo que nem sequer conseguem respirar para cima, vagueiam de um lado para outro, ora ao redor de sepulcros, onde aparecem como aparições de espíritos sombrios, ora entre outros objetos no chão; se assim é, o que devemos pensar daqueles espíritos que ficam presos por eras inteiras, por assim dizer, a certas moradas e lugares, seja por uma espécie de força mágica, seja por sua própria maldade natural? Não somos compelidos pela razão a classificar como maus os espíritos que empregam o poder de profetizar (poder que em si mesmo não é nem bom nem mau) com o propósito de enganar os homens, afastando-os assim de Deus e da pureza do seu serviço? Aliás, fica evidente que esse é o caráter deles quando acrescentamos que se deleitam no sangue das vítimas e no cheiro da fumaça dos sacrifícios, que alimentam seus corpos com isso, e que sentem prazer em frequentar tais lugares, como se buscassem neles o sustento de suas vidas, parecendo-se nisso com aqueles homens depravados que desprezam a pureza de uma vida apartada dos sentidos e que não têm inclinação alguma a não ser para os prazeres do corpo e para aquela vida terrena e corporal em que esses prazeres se encontram. Se o Apolo délfico fosse um deus, como supõem os gregos, não teria ele preferido escolher como seu profeta algum homem sábio? Ou, se não se encontrasse alguém assim, então alguém que se esforçasse por tornar-se sábio? Como é que ele não preferiu um homem a uma mulher para pronunciar suas profecias? E se preferiu o sexo feminino, como se pudesse encontrar prazer no peito de uma mulher, por que não escolheu entre as mulheres uma virgem para interpretar sua vontade?
Mas não; a pítia, tão admirada entre os gregos, não julgou nenhum homem sábio, ou melhor, nenhum homem sequer, digno da posse divina, como eles a chamam. E, entre as mulheres, não escolheu uma virgem, ou uma recomendada por sua sabedoria, ou por seus dotes em filosofia, mas selecionou uma mulher comum. Talvez a classe superior dos homens fosse boa demais para se tornar objeto da inspiração. Além disso, se ele fosse um deus, deveria ter empregado seu poder profético como uma isca, por assim dizer, com a qual atrair os homens a uma mudança de vida e à prática da virtude. Mas a história em parte alguma menciona algo do gênero. Pois, se o oráculo de fato chamou Sócrates o mais sábio de todos os homens, ele tira o valor desse elogio com o que diz a respeito de Eurípides e Sófocles. As palavras são estas: Sófocles é sábio, e Eurípides é mais sábio, mas mais sábio que todos os homens é Sócrates. Ora, que ele a designação de sábio aos poetas trágicos, não é por causa de sua filosofia que ele exalta Sócrates à veneração, nem por causa do seu amor à verdade e à virtude. É pobre elogio a Sócrates dizer que ele o prefere a homens que, por uma recompensa miserável, competem no palco e que, com suas representações, levam os espectadores ora às lágrimas e ao pesar, ora a um riso indecoroso (pois é essa a intenção do drama satírico). E talvez não fosse tanto em relação à sua filosofia que ele chamou Sócrates o mais sábio de todos os homens, mas por causa das vítimas que ele sacrificava a ele e aos outros demônios. Pois parece que os demônios dão mais atenção, ao distribuir seus favores, aos sacrifícios que lhes são oferecidos do que aos atos de virtude. Por isso, Homero, o melhor dos poetas, que descreve o que costumava acontecer, querendo mostrar-nos o que mais influenciava os demônios a atender aos desejos de seus devotos, introduz Crises, que, por umas poucas guirlandas e pelas coxas de touros e bodes, obteve resposta às suas orações em favor de sua filha Criseida, de modo que os gregos foram levados por uma peste a devolvê-la a ele. E me lembro de ter lido no livro de certo pitagórico, ao escrever sobre os sentidos ocultos naquele poeta, que a oração de Crises a Apolo, e a praga que Apolo depois enviou sobre os gregos, são provas de que Homero conhecia certos demônios malignos que se deleitam na fumaça dos sacrifícios e que, para recompensar os que lhes oferecem, concedem, em resposta às suas orações, a destruição de outros. Ele, isto é, Júpiter, que reina sobre a gélida Dodona, onde seus profetas sempre têm os pés por lavar e dormem no chão, rejeitou o sexo masculino e, como observa Celso, emprega as mulheres de Dodona no ofício profético. Concedido que existam oráculos semelhantes a estes, como o de Claros, outro em Branquidas, outro no templo de Júpiter Amon, ou em qualquer outro lugar, ainda assim, como se de provar que estes são deuses, e não demônios?
Quanto aos profetas entre os judeus, alguns deles eram homens sábios antes de se tornarem profetas divinamente inspirados, enquanto outros se tornaram sábios pela iluminação que suas mentes receberam ao serem divinamente inspirados. Eles foram escolhidos pela Providência Divina para receber o Espírito Divino e para serem os depositários de seus santos oráculos, em razão de levarem uma vida de excelência quase inatingível, intrépidos, nobres, inabaláveis diante do perigo ou da morte. Pois a razão ensina que tal deve ser o caráter dos profetas do Altíssimo, em comparação com o qual a firmeza de Antístenes, Crates e Diógenes parecerá apenas brincadeira de criança. Foi, portanto, por sua firme adesão à verdade e por sua fidelidade em repreender os ímpios, que eles foram apedrejados; foram serrados ao meio, foram tentados, foram mortos à espada; andaram errantes, vestidos de peles de ovelhas e de cabras, sendo destituídos, afligidos, atormentados; vaguearam por desertos e montanhas, e por covas e cavernas da terra, eles, dos quais o mundo não era digno; pois olhavam sempre para Deus e para suas bênçãos, as quais, sendo invisíveis e impossíveis de perceber pelos sentidos, são eternas. Temos a história da vida de cada um dos profetas, mas por ora bastará dirigir a atenção para a vida de Moisés, cujas profecias estão contidas na lei; para a de Jeremias, tal como é dada no livro que leva seu nome; para a de Isaías, que, com austeridade sem igual, andou nu e descalço pelo espaço de três anos. Leia e considere a vida severa daqueles jovens, Daniel e seus companheiros, como se abstinham de carne e viviam de água e legumes. Ou, se quiser recuar a tempos mais remotos, pense na vida de Noé, que profetizou; e na de Isaque, que deu ao seu filho uma bênção profética; ou na de Jacó, que se dirigiu a cada um de seus doze filhos, começando com: Vinde, para que eu vos diga o que vos de acontecer nos últimos dias. Estes, e uma multidão de outros, profetizando em nome de Deus, predisseram acontecimentos relativos a Jesus Cristo. É por essa razão, portanto, que não damos valor aos oráculos da sacerdotisa pítia, ou aos que eram proferidos em Dodona, em Claros, em Branquidas, no templo de Júpiter Amon, ou por uma multidão de outros assim chamados profetas, ao passo que olhamos com reverente temor para os profetas judeus; pois vemos que as vidas nobres, sérias e devotas desses homens eram dignas da inspiração do Espírito Divino, cujos efeitos maravilhosos eram totalmente diferentes da adivinhação dos demônios.
Não sei o que levou Celso, ao dizer Mas que coisas foram ditas ou não ditas na terra da Judeia, segundo o costume daquele país, a usar as palavras ou não ditas, como que insinuando que estava incrédulo e que suspeitava que aquilo que foi escrito nunca tivesse sido dito. Na verdade, ele desconhece esses tempos, e não sabe que aqueles profetas que predisseram a vinda de Cristo anunciaram de antemão uma multidão de outros acontecimentos, muitos anos antes. Ele acrescenta, com a intenção de desdenhar os antigos profetas, que estes profetizavam da mesma maneira como os vemos ainda fazendo entre os habitantes da Fenícia e da Palestina. Mas ele não nos diz se está se referindo a pessoas que têm princípios diferentes dos dos judeus e cristãos, ou a pessoas cujas profecias têm o mesmo caráter das dos profetas judeus. Seja como for, sua afirmação é falsa, tomada de qualquer um dos modos. Pois nunca nenhum dos que não abraçaram a nossa fez algo que se aproximasse do que foi feito pelos antigos profetas; e, em tempos mais recentes, desde a vinda de Cristo, não surgiram profetas entre os judeus, que, como se sabe, foram abandonados pelo Espírito Santo por causa de sua impiedade para com Deus e para com aquele de quem os seus profetas falaram. Além disso, o Espírito Santo deu sinais de sua presença no início do ministério de Cristo, e depois de sua ascensão deu ainda mais; mas, desde então, esses sinais diminuíram, embora ainda haja vestígios de sua presença em uns poucos que tiveram suas almas purificadas pelo Evangelho e suas ações reguladas por sua influência. Pois o santo Espírito de disciplina fugirá do engano e se afastará dos pensamentos que são sem entendimento. Sabedoria 1:5
Mas, como Celso promete dar conta da maneira como as profecias são proferidas na Fenícia e na Palestina, falando como se fosse algo que conhecesse plena e pessoalmente, vejamos o que ele tem a dizer sobre o assunto. Primeiro, ele estabelece que vários tipos de profecias, mas não especifica quais são; aliás, não poderia fazê-lo, e a afirmação é pura ostentação. No entanto, vejamos o que ele considera o tipo mais perfeito de profecia entre essas nações. muitos, diz ele, que, embora sem nome algum, com a maior facilidade e à menor ocasião, seja dentro, seja fora dos templos, assumem os movimentos e gestos de pessoas inspiradas; enquanto outros o fazem nas cidades ou entre exércitos, com o propósito de atrair atenção e despertar admiração. Estes costumam dizer, cada um por si: Eu sou Deus; eu sou o Filho de Deus; ou: Eu sou o Espírito Divino; vim porque o mundo está perecendo, e vós, ó homens, estais perecendo por causa de vossas iniquidades. Mas eu desejo salvar-vos, e me vereis voltando novamente com poder celestial. Bem-aventurado quem agora me presta homenagem. Sobre todos os demais farei descer fogo eterno, tanto sobre cidades quanto sobre nações. E aqueles que não conhecem os castigos que os aguardam se arrependerão e lamentarão em vão; enquanto aos que me são fiéis eu os preservarei eternamente. Em seguida, ele prossegue, dizendo: A essas promessas acrescentam-se palavras estranhas, fanáticas e completamente ininteligíveis, cujo sentido nenhuma pessoa racional consegue encontrar; pois são tão obscuras que não têm sentido algum, mas dão ensejo a todo tolo ou impostor de aplicá-las para servir aos seus próprios propósitos.