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Contra Celso - Livro II
O Livro II na Obra
O Livro II do Contra Celso retoma o personagem que abriu a obra: um judeu fictício que Celso, filósofo pagão do século II, põe em cena para interpelar Jesus e os que se converteram do judaísmo. Enquanto o Livro I respondia ao ataque ao nascimento e às origens de Jesus, este livro concentra-se na paixão: a traição por um discípulo, a prisão, o julgamento, a morte e a ressurreição. É a parte da obra em que mais se discute história, porque Celso aposta que o desfecho da vida de Jesus, um homem preso e executado, é o que mais facilmente o desmente como Filho de Deus.
Orígenes responde trecho a trecho, por volta de 248 d.C., a um texto que se perdeu e que só sobrevive porque ele o cita para refutar. O método é dialético: ele concede o que pode conceder, distingue o que o adversário confunde, e devolve a acusação quando ela também atingiria Moisés ou a própria Lei judaica. Três fios organizam a resposta: presciência contra livre-arbítrio (Jesus podia prever a traição sem a causar), a leitura do Servo Sofredor de Isaías 53 aplicada à cruz, e os problemas histórico-textuais que Celso levanta sobre as testemunhas e os prodígios.
Conteúdo do Livro
- Por que o judeu de Celso fala aos convertidos do judaísmo, e os ebionitas que guardaram a Lei — (Contra Celso - Livro II 1:1)
- A acusação de fundo: o cristianismo toma sua autoridade da Lei judaica e depois a despreza — (Contra Celso - Livro II 1:4)
- Em que sentido Jesus é Deus: o Logos que falava nele, distinto e abaixo do Pai — (Contra Celso - Livro II 2:9)
- A traição de Judas, seu arrependimento, e o Salmo lido como profecia — (Contra Celso - Livro II 2:11)
- As profecias de Jesus sobre a perseguição e a queda de Jerusalém, e a citação de Josefo — (Contra Celso - Livro II 2:13)
- Contra o docetismo: Jesus morreu de fato, por isso a ressurreição é real — (Contra Celso - Livro II 3:16)
- Presciência e livre-arbítrio: prever não é causar — (Contra Celso - Livro II 3:20)
- A crucificação entre dois ladrões e o Servo Sofredor de Isaías 53 — (Contra Celso - Livro II 5:44)
- Por que a ressurreição de Jesus não é como os mitos pagãos: uma morte pública — (Contra Celso - Livro II 6:56)
- Maria Madalena como testemunha, e a objeção da "mulher meio louca" — (Contra Celso - Livro II 6:59)
O Judeu de Celso e as Profecias Messiânicas
A escolha de pôr as objeções na boca de um judeu não é neutra. Permite a Celso atacar o cristianismo a partir de dentro da tradição que ele herdou: se a própria Escritura judaica é a base, por que os cristãos a interpretam de modo que os judeus rejeitam? Orígenes, por sua vez, repara que esse judeu fala como um grego culto (chega a citar as Bacantesde Eurípides), o que para ele trai o autor real, o pagão Celso, não um judeu verdadeiro. O atrito decisivo está nas profecias. A leitura cristã identifica o "Servo Sofredor" de Isaías 53 e o "contado com os transgressores" (Is 53:12) com Jesus crucificado entre dois ladrões; a leitura judaica tradicional entende o Servo como o próprio povo de Israel, e situa textos como Isaías 7:14 no horizonte histórico do profeta, não numa previsão do nascimento de Jesus. As duas leituras são antigas e seguem em aberto: este livro é um dos registros mais primitivos do debate.
Problemas Histórico-Textuais
Celso obriga Orígenes a tocar em pontos que a crítica moderna ainda discute. Ao defender a queda de Jerusalém, Orígenes atribui a Flávio Josefo a ideia de que a cidade caiu por causa da morte de Tiago, irmão de Jesus; mas os textos de Josefo que chegaram até nós não dizem isso, e a explicação mais aceita é que Orígenes citou de memória, de modo impreciso. Ao defender os prodígios da morte de Jesus, ele apela ao historiador Flégon de Trales para sustentar as trevas em pleno dia, embora um eclipse solar seja fisicamente impossível na Páscoa, de lua cheia, e a correspondência seja contestada. E ao defender a ressurreição, enfrenta a desqualificação de Maria Madalena como "mulher meio louca": a baixa credibilidade do testemunho feminino num tribunal antigo é, para parte dos estudiosos, justamente um indício de autenticidade, pois não seria a testemunha que alguém inventaria. Orígenes não esconde a dificuldade; tenta explicá-la.
“Visto que Jesus foi crucificado diante de todos os judeus, e seu corpo morto na presença de sua nação, como conseguem eles dizer que ele praticou um engano semelhante ao daqueles heróis que se relata terem descido ao Hades?”Orígenes, Contra Celso - Livro II 6:56
Relevância
O Livro II reúne, num único texto do século III, quase todo o repertório que ainda se usa para discutir a morte e a ressurreição de Jesus: a profecia de Isaías 53, o argumento das testemunhas dispostas a morrer, a comparação com mitos pagãos de retorno do Hades, a tensão entre presciência divina e liberdade humana. Para o leitor cristão, é um exemplo antigo de fé que argumenta em vez de apenas afirmar, e que conhece bem as objeções. Convém, porém, manter a distância crítica: Orígenes escreve de um lado da disputa, com retórica dura contra os judeus que reflete sua época e que muitas tradições cristãs depois revisaram. Ler o Livro II é ouvir as duas leituras das profecias e perceber que o debate sobre as testemunhas e os prodígios já estava posto, com os mesmos argumentos, há quase dois mil anos.