Contra Celso - Livro II 2
As objeções do judeu de Celso contra Jesus
O judeu continua seu discurso assim: Como deveríamos considerar Deus aquele que, além de não ter cumprido nenhuma de suas promessas em outros aspectos, conforme se relatava na época, ainda foi flagrado, depois que o condenamos e o sentenciamos como merecedor de castigo, tentando se esconder, e procurando escapar do modo mais vergonhoso, e que foi traído por aqueles a quem chamava de discípulos? E mais, ele continua, aquele que era Deus não poderia nem fugir nem ser levado prisioneiro; e muito menos poderia ser abandonado e entregue por aqueles que tinham sido seus companheiros, e tinham compartilhado tudo em comum, e o tiveram por mestre, e que era tido por um Salvador, e um filho do maior Deus, e um anjo. A isso respondemos que nem mesmo nós supomos que o corpo de Jesus, que então era objeto de visão e percepção, fosse Deus. E por que digo o corpo dele? Não, nem mesmo a alma dele, da qual se relata: A minha alma está profundamente triste, até a morte. Mas, assim como, segundo o modo de falar judaico, Eu sou o Senhor, o Deus de toda carne, e Antes de mim não se formou Deus algum, nem haverá depois de mim, acredita-se que Deus é aquele que emprega a alma e o corpo do profeta como instrumento; e assim como, segundo os gregos, aquele que diz: Conheço tanto o número da areia quanto as medidas do mar, e compreendo o homem mudo, e ouço o que não fala, é considerado um deus quando fala e se faz ouvir através da sacerdotisa pítia; assim também, segundo a nossa visão, foi o Logos Deus, e Filho do Deus de todas as coisas, que falou em Jesus estas palavras: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; e estas: Eu sou a porta; e estas: Eu sou o pão vivo que desceu do céu; e outras expressões semelhantes a essas. Por isso acusamos os judeus de não reconhecerem como Deus aquele de quem os profetas deram testemunho em muitas passagens, no sentido de que ele era um poder grandioso, e um Deus logo abaixo do Deus e Pai de todas as coisas. Pois afirmamos que foi a ele que o Pai deu a ordem, quando, no relato mosaico da criação, pronunciou as palavras: Haja luz, e Haja um firmamento, e deu as instruções a respeito daqueles outros atos criativos que foram realizados; e que a ele também foram dirigidas as palavras: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança; e que o Logos, quando recebeu a ordem, obedeceu a toda a vontade do Pai. E fazemos essas afirmações não por nossas próprias conjecturas, mas porque cremos nas profecias que circulavam entre os judeus, nas quais se diz de Deus e das obras da criação, em palavras expressas, o seguinte: Ele falou, e elas foram feitas; ele ordenou, e elas foram criadas. Ora, se Deus deu a ordem e as criaturas foram formadas, quem, segundo a visão do espírito de profecia, poderia ser aquele que foi capaz de executar tais ordens do Pai, senão aquele que, por assim dizer, é o Logos vivo e a Verdade? E que os Evangelhos não consideram aquele que em Jesus disse estas palavras, Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida, como tendo uma natureza tão limitada a ponto de não existir em lugar nenhum fora da alma e do corpo de Jesus, isso fica evidente por muitas considerações, e por uns poucos exemplos do tipo seguinte, que vamos citar. João Batista, ao predizer que o Filho de Deus apareceria imediatamente, não naquele corpo e alma, mas se manifestando em toda parte, diz a respeito dele: Está no meio de vocês um que vocês não conhecem, que vem depois de mim. Pois se ele pensasse que o Filho de Deus estava só ali, onde estava o corpo visível de Jesus, como poderia ter dito: Está no meio de vocês um que vocês não conhecem? E o próprio Jesus, elevando as mentes de seus discípulos a pensamentos mais altos sobre o Filho de Deus, diz: Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles. E da mesma natureza é sua promessa aos discípulos: Eis que estou com vocês todos os dias, até o fim do mundo. E citamos essas passagens sem fazer distinção entre o Filho de Deus e Jesus. Pois a alma e o corpo de Jesus formaram, depois da οἰκονομία, um só ser com o Logos de Deus. Ora, se, segundo o ensino de Paulo, quem se une ao Senhor é um só espírito com ele, todo aquele que compreende o que é unir-se ao Senhor, e que de fato se uniu a ele, é um só espírito com o Senhor; como não seria, em grau muito maior e mais divino, um só aquele ser que foi antigamente unido ao Logos de Deus? Ele, de fato, manifestou-se entre os judeus como o poder de Deus, pelos milagres que realizou, os quais Celso suspeitava terem sido feitos por feitiçaria, mas que pelos judeus daquele tempo eram atribuídos, não sei por quê, a Belzebu, com as palavras: Ele expulsa demônios por Belzebu, o príncipe dos demônios. Mas a esses o nosso Salvador convenceu de proferir os maiores absurdos, pelo fato de que o reino do mal ainda não tinha chegado ao fim. E isso ficará evidente para todos os leitores inteligentes da narrativa do Evangelho, que não é agora o momento de explicar.
Mas que promessa Jesus fez que não tenha cumprido? Que Celso apresente algum exemplo disso, e prove sua acusação. Mas ele não será capaz de fazê-lo, especialmente porque é de erros, surgidos seja da má compreensão das narrativas do Evangelho, seja de histórias judaicas, que ele pensa tirar as acusações que faz contra Jesus ou contra nós. Além disso, mais uma vez, quando o judeu diz: Nós o consideramos culpado e o condenamos como merecedor de morte, que mostrem como aqueles que buscavam forjar falso testemunho contra ele provaram que ele era culpado. A grande acusação contra Jesus, que seus acusadores apresentaram, não foi esta, que ele disse: Sou capaz de destruir o templo de Deus, e em três dias reconstruí-lo? Mas, ao dizer isso, ele falava do templo do seu corpo; enquanto eles pensavam, não sendo capazes de entender o sentido de quem falava, que a referência era ao templo de pedra, que era tratado pelos judeus com maior respeito do que ele, que deveria ter sido honrado como o verdadeiro Templo de Deus: o Verbo, a Sabedoria e a Verdade. E quem pode dizer que Jesus tentou escapar se escondendo vergonhosamente? Que alguém aponte um ato que mereça ser chamado de vergonhoso. E quando ele acrescenta: ele foi feito prisioneiro, eu diria que, se ser feito prisioneiro implica um ato feito contra a vontade de alguém, então Jesus não foi feito prisioneiro; pois no momento certo ele não se impediu de cair nas mãos dos homens, como o Cordeiro de Deus, para tirar o pecado do mundo. Pois, conhecendo todas as coisas que viriam sobre ele, ele saiu e disse a eles: A quem buscam? e eles responderam: Jesus de Nazaré; e ele lhes disse: Sou eu. E Judas também, que o traiu, estava de pé com eles. Quando, portanto, ele lhes disse: Sou eu, eles recuaram e caíram por terra. De novo ele lhes perguntou: A quem buscam? e eles disseram outra vez: Jesus de Nazaré. Jesus disse a eles: Eu já disse que sou eu; se, então, me buscam, deixem estes irem embora. Mais ainda, até àquele que quis ajudá-lo, e que feriu o servo do sumo sacerdote, e cortou-lhe a orelha, ele disse: Embainha tua espada; pois todos os que pegam a espada pela espada perecerão. Você acha que eu não posso, mesmo agora, orar a meu Pai, e ele me dará prontamente mais de doze legiões de anjos? Mas como, então, se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim tem de ser? E se alguém imagina que essas afirmações são invenções dos que escreveram os Evangelhos, por que não se deveriam antes considerar invenções aquelas afirmações que vieram de um espírito de ódio e hostilidade contra Jesus e os cristãos? E por que estas não seriam a verdade, vindas dos que manifestam a sinceridade de seus sentimentos por Jesus, suportando tudo, seja o que for, por causa das palavras dele? Pois o fato de os discípulos receberem tamanho poder de resistência e firmeza, mantido até a morte, com uma disposição de mente que não inventaria sobre seu Mestre o que não era verdade, é prova muito evidente, para todos os juízes imparciais, de que estavam plenamente convencidos da verdade do que escreviam, já que se submeteram a provações tão numerosas e tão severas por causa daquele que criam ser o Filho de Deus.
Em seguida, que ele foi traído por aqueles a quem chamava de seus discípulos é uma circunstância que o judeu de Celso aprendeu dos Evangelhos; mas ele chama de muitos discípulos o que era apenas um, Judas, para parecer dar mais força à acusação. E nem se deu ao trabalho de notar tudo o que se relata sobre Judas: como este Judas, tendo chegado a abrigar opiniões opostas e conflitantes a respeito de seu Mestre, não se opôs a ele com toda a sua alma, nem tampouco preservou com toda a alma o respeito que um aluno deve ao seu mestre. Pois aquele que o traiu deu à multidão que veio prender Jesus um sinal, dizendo: Aquele que eu beijar, é ele; prendam-no; conservando ainda algum elemento de respeito por seu Mestre. Pois, se não tivesse feito isso, tê-lo-ia traído, até publicamente, sem qualquer simulacro de afeto. Esta circunstância, portanto, convencerá a todos quanto ao propósito de Judas: que, junto com sua disposição cobiçosa e seu plano perverso de trair o Mestre, ele ainda tinha em sua mente um sentimento de caráter misto, produzido nele pelas palavras de Jesus, que tinha a aparência (por assim dizer) de algum resquício de bem. Pois se relata que, quando Judas, que o traiu, soube que ele estava condenado, arrependeu-se e devolveu as trinta moedas de prata ao sumo sacerdote e aos anciãos, dizendo: Pequei, traindo sangue inocente. Mas eles disseram: Que nos importa isso? O problema é teu; e ele, tendo jogado o dinheiro no templo, retirou-se, e foi e se enforcou. Mas, se este Judas cobiçoso, que também roubava o dinheiro posto na bolsa para o auxílio dos pobres, arrependeu-se e devolveu as trinta moedas de prata aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos, fica claro que os ensinamentos de Jesus tinham sido capazes de produzir algum sentimento de arrependimento em sua mente, e não foram totalmente desprezados nem detestados por este traidor. Mais ainda, a declaração Pequei, traindo sangue inocente foi um reconhecimento público de seu crime. Observe também como foi extremamente intensa a tristeza por seus pecados que veio daquele arrependimento, e que não lhe permitiu viver mais; e como, depois de jogar o dinheiro no templo, ele se afastou, foi embora e se enforcou. Pois passou sentença sobre si mesmo, mostrando que poder o ensino de Jesus teve sobre este pecador Judas, este ladrão e traidor, que não conseguia sempre tratar com desprezo o que tinha aprendido com Jesus. Celso e seus amigos dirão agora que aquelas provas que mostram que a apostasia de Judas não foi uma apostasia completa, mesmo depois de suas tentativas contra o Mestre, são invenções, e que só isto é verdade, a saber, que um de seus discípulos o traiu? E acrescentarão ao relato das Escrituras que ele o traiu também de todo o coração? Agir nesse espírito de hostilidade com os mesmos escritos, tanto quanto ao que devemos crer como quanto ao que não devemos crer, é absurdo. E se devemos fazer uma afirmação sobre Judas que cubra de vergonha nossos adversários, diríamos que, no livro dos Salmos, o salmo 108 inteiro contém uma profecia sobre Judas, cujo início é este: Ó Deus, não te cales diante do meu louvor; pois a boca do pecador e a boca do homem astuto se abriram contra mim. E é predito neste salmo, tanto que Judas se separou do número dos apóstolos por causa de seus pecados, quanto que outro foi escolhido em seu lugar; e isso se mostra pelas palavras: E que outro tome o seu encargo. Mas suponha agora que ele tivesse sido traído por algum de seus discípulos possuído por um espírito pior que o de Judas, e que tivesse derramado, por assim dizer, todas as palavras que ouvira de Jesus, o que isso contribuiria para uma acusação contra Jesus ou contra a religião cristã? E como isso demonstraria que sua doutrina é falsa? Já respondemos, no capítulo anterior, às afirmações que vêm a seguir, mostrando que Jesus não foi feito prisioneiro ao tentar fugir, mas que se entregou voluntariamente por amor a todos nós. Daí se segue que, mesmo que tenha sido amarrado, foi amarrado de acordo com sua própria vontade; ensinando-nos assim a lição de que devemos empreender coisas semelhantes por amor à religião sem nenhum espírito de relutância.
E as seguintes me parecem afirmações infantis, a saber: que nenhum bom general e líder de grandes multidões jamais foi traído; nem mesmo um perverso capitão de salteadores e comandante de homens malvados, que parecesse ser de alguma utilidade para seus associados; mas Jesus, tendo sido traído por seus subordinados, nem governou como um bom general, nem, depois de enganar seus discípulos, produziu na mente das vítimas de seu engano aquele sentimento de boa vontade que, por assim dizer, se manifestaria em relação a um chefe de bandidos. Ora, poder-se-ia encontrar muitos relatos de generais que foram traídos por seus próprios soldados, e de chefes de salteadores que foram capturados por meio dos que não cumpriram seus acordos com eles. Mas admita que nenhum general ou chefe de salteadores jamais tenha sido traído. O que isso contribui para estabelecer como acusação contra Jesus o fato de que um de seus discípulos se tornou seu traidor? E já que Celso faz uma exibição ostentosa de filosofia, eu lhe perguntaria: Seria, então, uma acusação contra Platão que Aristóteles, depois de ser seu aluno por vinte anos, tenha ido embora e atacado sua doutrina da imortalidade da alma, e tenha chamado as ideias de Platão de pura tolice? E se eu ainda estivesse em dúvida, continuaria assim: Platão deixou de ser poderoso na dialética, ou incapaz de defender suas opiniões, depois que Aristóteles partiu? E, por causa disso, as opiniões de Platão são falsas? Ou não será antes que, enquanto Platão é verdadeiro, como sustentariam os seguidores de sua filosofia, Aristóteles foi culpado de maldade e ingratidão para com seu mestre? Mais ainda, Crisipo também, em muitas passagens de seus escritos, parece atacar Cleanto, introduzindo opiniões novas opostas às dele, embora este tivesse sido seu mestre quando ele era jovem e começava o estudo da filosofia. Diz-se, de fato, que Aristóteles foi aluno de Platão por vinte anos, e não foi pouco o tempo passado por Crisipo na escola de Cleanto; enquanto Judas não permaneceu nem mesmo três anos com Jesus. Mas, das narrativas das vidas dos filósofos, poderíamos tirar muitos exemplos semelhantes àqueles sobre os quais Celso baseia uma acusação contra Jesus por causa de Judas. Até os pitagóricos erguiam cenotáfios aos que, depois de se dedicarem à filosofia, recaíam em seu modo de vida ignorante; e, no entanto, nem Pitágoras nem seus seguidores, por causa disso, eram fracos em argumento e demonstração.
Este judeu de Celso continua, depois do acima, da seguinte maneira: Embora pudesse afirmar muitas coisas sobre os acontecimentos da vida de Jesus que são verdadeiras, e diferentes das que são registradas pelos discípulos, ele de boa vontade as omite. Quais são, então, essas afirmações verdadeiras, diferentes dos relatos dos Evangelhos, que o judeu de Celso passa por alto sem mencionar? Ou ele está apenas empregando o que parece ser uma figura de linguagem, fingindo ter algo a dizer, quando na realidade não tinha nada a apresentar além da narrativa do Evangelho que pudesse causar no ouvinte um sentimento de sua verdade, e fornecer um motivo claro de acusação contra Jesus e sua doutrina? E ele acusa os discípulos de terem inventado a afirmação de que Jesus previu e predisse tudo o que lhe aconteceu; mas a verdade dessa afirmação nós a estabeleceremos, ainda que Celso não goste, por meio de muitas outras predições proferidas pelo Salvador, nas quais ele predisse o que aconteceria aos cristãos nas gerações seguintes. E quem não ficaria espantado com esta predição: Vocês serão levados diante de governadores e reis por minha causa, para testemunho contra eles e contra os gentios; e com quaisquer outras que ele tenha proferido sobre a futura perseguição de seus discípulos? Pois que sistema de opiniões já existiu entre os homens por causa do qual outros são punidos, de modo que algum dos acusadores de Jesus pudesse dizer que, prevendo que a impiedade ou a falsidade de suas opiniões seria motivo de acusação contra elas, ele pensou que isso lhe traria crédito, por ter feito tal predição muito antes? Ora, se alguns merecem ser levados, por causa de suas opiniões, diante de governadores e reis, quem são eles, senão os epicuristas, que negam por completo a existência da providência? E também os peripatéticos, que dizem que as orações de nada valem, e que os sacrifícios são oferecidos como se à Divindade? Mas alguém dirá que os samaritanos sofrem perseguição por causa de sua religião. A esse responderemos que os sicários, por causa da prática da circuncisão, por se mutilarem contra as leis estabelecidas e os costumes permitidos apenas aos judeus, são condenados à morte. E você nunca ouve um juiz perguntar se um sicário que se esforça por viver segundo essa religião sua será libertado do castigo caso apostate, mas levado à morte caso permaneça firme; pois a evidência da circuncisão basta para garantir a morte de quem se submeteu a ela. Mas só os cristãos, segundo a predição de seu Salvador, Vocês serão levados diante de governadores e reis por minha causa, são pressionados até o último suspiro por seus juízes a negar o cristianismo e a sacrificar segundo os costumes públicos; e, depois do juramento de abjuração, a voltar para suas casas e viver em segurança. E observe se não é com grande autoridade que se profere esta declaração: Todo aquele, portanto, que me confessar diante dos homens, eu também o confessarei diante de meu Pai que está no céu. E todo aquele que me negar diante dos homens, e assim por diante. E volte comigo, em pensamento, a Jesus quando ele proferiu essas palavras, e veja suas predições ainda não cumpridas. Talvez você diga, num espírito de incredulidade, que ele está falando tolice e dizendo coisas sem propósito, pois suas palavras não terão cumprimento; ou, estando em dúvida sobre se concorda com suas palavras, você dirá que, se essas predições se cumprirem, e a doutrina de Jesus se estabelecer, de modo que governadores e reis pensem em destruir os que reconhecem Jesus, então creremos que ele profere essas profecias como alguém que recebeu grande poder de Deus para implantar essa doutrina entre o gênero humano, e como alguém que crê que ela prevalecerá. E quem não se encherá de admiração, ao voltar em pensamento àquele que então ensinava e dizia: Este Evangelho será pregado pelo mundo inteiro, para testemunho contra eles e contra os gentios, e vê, de acordo com suas palavras, o Evangelho de Jesus Cristo pregado em todo o mundo debaixo do céu, a gregos e bárbaros, sábios e tolos por igual? Pois a palavra, proferida com poder, conquistou o domínio sobre homens de toda natureza, e é impossível ver alguma raça de homens que tenha escapado de aceitar o ensino de Jesus. Mas que este judeu de Celso, que não crê que ele soubesse de antemão tudo o que lhe aconteceu, considere como, enquanto Jerusalém ainda estava de pé, e todo o culto judaico era celebrado nela, Jesus predisse o que lhe sucederia pela mão dos romanos. Pois eles não sustentarão que os conhecidos e discípulos do próprio Jesus transmitiram seu ensino contido nos Evangelhos sem o pôr por escrito, e deixaram seus discípulos sem os registros de Jesus contidos em suas obras. Ora, nessas obras está registrado que: Quando virem Jerusalém cercada de exércitos, então saberão que está próxima a sua desolação. Mas naquele tempo não havia exércitos ao redor de Jerusalém, cercando, encerrando e sitiando-a; pois o cerco começou no reinado de Nero, e durou até o governo de Vespasiano, cujo filho Tito destruiu Jerusalém, por causa, como diz Josefo, de Tiago, o Justo, irmão de Jesus, que era chamado Cristo, mas, na realidade, como a verdade deixa claro, por causa de Jesus Cristo, o Filho de Deus.
Celso, no entanto, aceitando ou admitindo que Jesus soubesse de antemão o que lhe sucederia, poderia querer fazer pouco dessa concessão, como fez no caso dos milagres, quando alegou que foram realizados por meio de feitiçaria. Pois ele poderia dizer que muitas pessoas, por meio da adivinhação, seja por auspícios, augúrios, sacrifícios ou horóscopos, chegaram ao conhecimento do que estava por acontecer. Mas essa concessão ele não faria, por ser grande demais; e embora de algum modo admitisse que Jesus realizava milagres, pensou em enfraquecer a força disso com a acusação de feitiçaria. Ora, Flégon, no décimo terceiro ou décimo quarto livro, acho eu, de suas Crônicas, não só atribuiu a Jesus um conhecimento de eventos futuros (embora se confundindo sobre algumas coisas que se referem a Pedro, como se se referissem a Jesus), mas também testemunhou que o resultado correspondeu às suas predições. De modo que ele também, por essas próprias admissões a respeito da presciência, como que contra a sua vontade, expressou a opinião de que as doutrinas ensinadas pelos fundadores do nosso sistema não eram desprovidas de poder divino.