Contra Celso - Livro II 3
As objeções do judeu de Celso contra Jesus
Celso continua: Os discípulos de Jesus, não tendo nenhum fato indubitável em que se apoiar, inventaram a ficção de que ele sabia de tudo de antemão, antes que acontecesse; sem observar, ou sem querer observar, o amor à verdade que movia os escritores, que reconheceram que Jesus tinha dito a seus discípulos de antemão: Todos vocês se escandalizarão por minha causa esta noite, afirmação que se cumpriu com o escândalo de todos eles; e que ele predisse a Pedro: Antes que o galo cante, você me negará três vezes, o que foi seguido pela tríplice negação de Pedro. Ora, se eles não fossem amantes da verdade, mas, como Celso supõe, inventores de ficções, não teriam apresentado Pedro negando, nem seus discípulos se escandalizando. Pois, embora esses fatos tenham realmente acontecido, quem poderia ter provado que se deram daquela maneira? E, no entanto, segundo toda probabilidade, esses eram fatos que deveriam ter sido silenciados por homens que queriam ensinar os leitores dos Evangelhos a desprezar a morte por causa da confissão do cristianismo. Mas agora, vendo que a palavra, por seu poder, conquistaria o domínio sobre os homens, eles relataram aqueles fatos que de fato relataram, e que, não sei como, não fariam nenhum mal a seus leitores, nem dariam pretexto algum para a negação.
Extremamente fraca é sua afirmação de que os discípulos de Jesus escreveram tais relatos sobre ele para atenuar as acusações que pesavam contra ele. É como se, ele diz, alguém dissesse que certa pessoa era um homem justo, e ainda assim mostrasse que ela era culpada de injustiça; ou que era piedosa, e ainda assim cometera um assassinato; ou que era imortal, e ainda assim estava morta; acrescentando a todas essas afirmações a observação de que ele predissera todas essas coisas. Ora, suas ilustrações logo se veem inadequadas. Pois não há absurdo nenhum em que aquele que decidira tornar-se um modelo vivo para os homens, quanto ao modo de regular suas vidas, mostrasse também como eles deveriam morrer por causa de sua religião, sem falar do fato de que sua morte em favor dos homens foi um benefício para o mundo inteiro, como provamos no livro anterior. Ele imagina, além disso, que toda a confissão dos sofrimentos do Salvador confirma sua objeção, em vez de enfraquecê-la. Pois ele não está familiarizado nem com as observações filosóficas de Paulo, nem com as afirmações dos profetas sobre o assunto. E lhe escapou que certos hereges declararam que Jesus sofreu seus sofrimentos em aparência, não na realidade. Pois, se soubesse disso, não teria dito: Pois vocês nem alegam isto, que ele pareceu sofrer esse castigo aos homens maus, sem de fato passar por ele; mas, ao contrário, vocês reconhecem que ele sofreu abertamente. Mas nós não vemos seus sofrimentos como tendo sido meramente em aparência, para que sua ressurreição também não seja um evento falso, mas real. Pois aquele que realmente morreu, de fato ressuscitou, se é que ressuscitou; ao passo que aquele que apenas pareceu morrer, na realidade não ressuscitou. Mas, já que a ressurreição de Jesus Cristo é motivo de zombaria para os incrédulos, citaremos as palavras de Platão, de que Er, filho de Armênio, levantou-se da pira funerária doze dias depois de ter sido colocado nela, e deu um relato do que tinha visto no Hades; e, já que estamos respondendo a incrédulos, não será de todo inútil referir aqui o que Heráclides relata sobre a mulher que foi privada da vida. E muitas pessoas são registradas como tendo ressuscitado de seus túmulos, não só no dia de seu sepultamento, mas também no dia seguinte. Que admiração há, então, se, no caso de Alguém que realizou muitas coisas maravilhosas, tanto além do poder humano quanto com tamanha abundância de evidências, aquele que não podia negar sua realização tentou caluniá-las comparando-as a atos de feitiçaria, esse Alguém manifestou também em sua morte uma demonstração maior de poder divino, de modo que sua alma, se quisesse, pudesse deixar seu corpo, e, depois de realizar certas tarefas fora dele, pudesse voltar de novo quando lhe aprouvesse? E uma declaração assim, diz-se, Jesus fez no Evangelho de João, quando disse: Ninguém tira a minha vida de mim, mas eu a dou de mim mesmo. Tenho poder para dá-la, e tenho poder para retomá-la. E talvez tenha sido por isso que ele apressou sua partida do corpo, para preservá-lo, e para que suas pernas não fossem quebradas, como foram as dos salteadores que foram crucificados com ele. Pois os soldados quebraram as pernas do primeiro, e do outro que foi crucificado com ele; mas, quando chegaram a Jesus e viram que ele estava morto, não lhe quebraram as pernas. Respondemos, assim, à pergunta: Como é crível que Jesus pudesse ter predito essas coisas? E quanto a esta: Como poderia o homem morto ser imortal? que saiba aquele que quiser entender que não é o homem morto que é imortal, mas aquele que ressuscitou dos mortos. Tão longe estava, de fato, o homem morto de ser imortal, que nem mesmo o Jesus anterior à sua morte, o ser composto que devia sofrer a morte, era imortal. Pois ninguém é imortal se está destinado a morrer; mas alguém é imortal quando já não estiver mais sujeito à morte. Mas Cristo, tendo ressuscitado dos mortos, não morre mais: a morte já não tem domínio sobre ele; embora não queiram admitir isso aqueles que não conseguem entender como tais coisas podem ser ditas.
Extremamente tola também é sua observação: Que deus, ou espírito, ou homem prudente não evitaria, ao prever que tais eventos lhe sobreviriam, se pudesse evitá-los; ao passo que ele se lançou de cabeça naquilo que sabia de antemão que iria acontecer? E, no entanto, Sócrates sabia que morreria depois de beber a cicuta, e estava em seu poder, se tivesse se deixado persuadir por Críton, escapar da prisão e evitar essas calamidades; mas mesmo assim decidiu, como lhe pareceu coerente com a reta razão, que era melhor para ele morrer como convinha a um filósofo, do que conservar a vida de um modo que não convinha a um. Leônidas também, o general lacedemônio, sabendo que estava prestes a morrer com seus seguidores nas Termópilas, não fez nenhum esforço para preservar a vida por meios vergonhosos, mas disse a seus companheiros: Vamos tomar o desjejum, pois jantaremos no Hades. E os que se interessam em coletar histórias desse tipo encontrarão grande número delas. Ora, onde está a admiração se Jesus, conhecendo todas as coisas que iriam acontecer, não as evitou, mas enfrentou o que sabia de antemão; quando Paulo, seu próprio discípulo, tendo ouvido o que lhe sucederia ao subir a Jerusalém, foi enfrentar o perigo, repreendendo os que choravam ao seu redor e tentavam impedi-lo de subir a Jerusalém? Muitos também de nossos contemporâneos, sabendo bem que, se fizessem a confissão do cristianismo, seriam condenados à morte, mas que, se o negassem, seriam libertados e teriam seus bens restituídos, desprezaram a vida e escolheram voluntariamente a morte por causa de sua religião.
Depois disso, o judeu faz outra observação tola, dizendo: Como é que, se Jesus apontou de antemão tanto o traidor quanto o perjuro, eles não o temeram como a um Deus, e não desistiram, um de sua traição pretendida, e o outro de seu perjúrio? Aqui o erudito Celso não viu a contradição em sua afirmação. Pois, se Jesus previa os eventos como um Deus, então era impossível que sua presciência se mostrasse falsa; e, portanto, era impossível que aquele que era por ele conhecido como o futuro traidor não executasse seu propósito, nem que aquele que foi repreendido como o futuro negador não fosse culpado daquele crime. Pois, se tivesse sido possível a um abster-se do ato de traição, e ao outro do ato de negação, por terem sido advertidos de antemão das consequências dessas ações, então as palavras dele já não seriam verdadeiras, pois ele predisse que um o trairia e o outro o negaria. Pois, se ele tinha presciência do traidor, conhecia a maldade da qual nascia a traição, e essa maldade de modo nenhum era removida pela presciência. E, novamente, se tinha verificado que um o negaria, fez aquela predição por ver a fraqueza da qual surgiria aquele ato de negação, e, no entanto, essa fraqueza não era removida assim, de imediato, pela presciência. Mas de onde ele tirou a afirmação de que essas pessoas o traíram e o negaram sem manifestar nenhuma preocupação com ele, eu não sei. Pois ficou provado, a respeito do traidor, que é falso dizer que ele traiu seu Mestre sem nenhuma demonstração de angústia por ele. E isso ficou igualmente provado a respeito daquele que o negou; pois ele saiu, depois da negação, e chorou amargamente.
Superficial também é sua objeção de que é sempre o caso, quando um homem contra quem se trama uma conspiração, e que toma conhecimento dela, faz saber aos conspiradores que está a par de seu plano, que estes se desviam de seu propósito e ficam de sobreaviso. Pois muitos continuaram a tramar até mesmo contra os que estavam a par de seus planos. E então, como que levando seu argumento a uma conclusão, ele diz: Não foi porque essas coisas foram preditas que elas aconteceram, pois isso é impossível; mas, já que elas aconteceram, mostra-se que sua predição é uma falsidade: pois é totalmente impossível que aqueles que ouviram de antemão a descoberta de seus planos levassem adiante seus projetos de traição e negação! Mas, se suas premissas são derrubadas, então sua conclusão também cai por terra, a saber, que não devemos crer, por essas coisas terem sido preditas, que elas aconteceram. Ora, nós sustentamos que elas não só aconteceram por serem possíveis, mas também que, justamente por terem acontecido, mostra-se que o fato de terem sido preditas é verdadeiro; pois a verdade sobre eventos futuros se julga pelos resultados. É falso, portanto, como ele afirma, que a predição desses eventos se prove falsa; e é inútil que ele diga: É totalmente impossível que aqueles que ouviram de antemão que seus planos foram descobertos levassem adiante seus projetos de traição e negação.
Vejamos como ele continua depois disso: Esses eventos, ele diz, ele os predisse como sendo um Deus, e a predição tinha por força que se cumprir. Deus, portanto, que acima de todos os outros deveria fazer o bem aos homens, e especialmente aos de sua própria casa, levou seus próprios discípulos e profetas, com quem costumava comer e beber, a tamanho grau de maldade, que se tornaram homens ímpios e profanos. Ora, de fato, quem partilhava a mesa de um homem não seria culpado de conspirar contra ele; mas, depois de banquetear com Deus, ele se tornou um conspirador. E, o que é ainda mais absurdo, o próprio Deus tramou contra os membros de sua própria mesa, transformando-os em traidores e vilões! Ora, já que você quer que eu responda até a essas acusações de Celso que me parecem frívolas, eis a nossa resposta a tais afirmações. Celso imagina que um evento, predito por meio de presciência, acontece porque foi predito; mas nós não admitimos isso, sustentando que aquele que o predisse não foi a causa de seu acontecimento, por ter predito que aconteceria; mas o próprio evento futuro, que teria acontecido ainda que não predito, deu a ocasião, àquele que era dotado de presciência, de predizer sua ocorrência. Ora, certamente este resultado está presente à presciência daquele que prediz um evento, quando é possível que ele aconteça ou não, a saber, que uma ou outra dessas coisas acontecerá. Pois nós não afirmamos que aquele que conhece de antemão um evento, removendo secretamente a possibilidade de ele acontecer ou não, faça uma declaração como esta: Isto acontecerá infalivelmente, e é impossível que seja de outro modo. E essa observação se aplica a toda a presciência de eventos que dependem de nós mesmos, esteja ela contida nas sagradas Escrituras ou nas histórias dos gregos. Ora, o que os lógicos chamam de argumento preguiçoso, que é um sofisma, não será nenhum sofisma na medida em que depender de Celso, mas, segundo o raciocínio correto, é um sofisma. E para que isso se veja, tomarei das Escrituras as predições a respeito de Judas, ou a presciência do nosso Salvador a respeito dele como o traidor; e das histórias gregas, o oráculo que foi dado a Laio, admitindo por ora sua veracidade, já que isso não afeta o argumento. Ora, no Salmo 108, fala-se de Judas pela boca do Salvador, em palavras que começam assim: Não te cales, ó Deus do meu louvor; pois a boca do ímpio e a boca do enganador se abriram contra mim. Ora, se você observar com cuidado o conteúdo do salmo, verá que, assim como se sabia de antemão que ele trairia o Salvador, também ele foi considerado a causa da traição, e merecedor, por causa de sua maldade, das imprecações contidas na profecia. Pois, que ele sofra estas coisas, diz o salmista, porque não se lembrou de mostrar misericórdia, mas perseguiu o homem pobre e necessitado. Logo, era possível a ele mostrar misericórdia, e não perseguir aquele que de fato perseguiu. Mas, embora pudesse ter feito essas coisas, não as fez, e sim levou adiante o ato de traição, de modo a merecer as maldições pronunciadas contra ele na profecia. E, em resposta aos gregos, citaremos a seguinte resposta oracular a Laio, conforme registrada pelo poeta trágico, seja nas palavras exatas do oráculo, seja em termos equivalentes. Os eventos futuros lhe são assim revelados pelo oráculo: Não tentes gerar filhos contra a vontade dos deuses. Pois, se gerares um filho, teu filho te matará; e toda a tua casa se banhará em sangue. Ora, disto fica claro que estava no poder de Laio não tentar gerar filhos, pois o oráculo não teria ordenado algo impossível; e estava também em seu poder fazer o contrário, de modo que nenhum desses caminhos era obrigatório. E a consequência de não se precaver contra a geração de filhos foi que ele sofreu, por causa disso, as calamidades descritas nas tragédias sobre Édipo, Jocasta e seus filhos. Ora, o que se chama de argumento preguiçoso, sendo um sofisma capcioso, é tal como se poderia aplicar, digamos, no caso de um doente, com o objetivo de impedi-lo, por sofisma, de recorrer a um médico para promover sua cura; e é algo assim: Se está decretado que você se recuperará de sua doença, você se recuperará, quer chame um médico ou não; mas, se está decretado que você não se recuperará, você não se recuperará, quer chame um médico ou não. Mas está certamente decretado, ou que você se recuperará, ou que você não se recuperará; e, portanto, é em vão que você chama um médico. Ora, com esse argumento o seguinte pode ser espirituosamente comparado: Se está decretado que você gerará filhos, você os gerará, quer tenha relações com uma mulher ou não. Mas, se está decretado que você não gerará filhos, você não os gerará, quer tenha relações com uma mulher ou não. Ora, está certamente decretado, ou que você gerará filhos, ou que não; portanto, é em vão que você tem relações com uma mulher. Pois, assim como no último exemplo a relação com uma mulher não é empregada em vão, já que é uma impossibilidade total que aquele que não a usa gere filhos; assim, no primeiro, se a cura da doença há de ser realizada por meio da arte de curar, é necessário que se chame o médico, e por isso é falso dizer que em vão se chama um médico. Apresentamos todas essas ilustrações por causa da afirmação deste erudito Celso, de que, sendo um Deus, ele predisse essas coisas, e as predições tinham por força que se cumprir. Ora, se por por força ele quer dizer necessariamente, não podemos admiti-lo. Pois era perfeitamente possível, também, que elas não acontecessem. Mas, se ele usa por força no sentido de simples futuridade, que nada impede de ser verdadeira (embora fosse possível que não acontecessem), ele não toca de modo nenhum no meu argumento; nem se seguia, do fato de Jesus ter predito os atos do traidor ou do perjuro, que isso fosse o mesmo que ele ser a causa de procedimentos tão ímpios e profanos. Pois aquele que estava entre nós, e sabia o que havia no homem, vendo sua má disposição, e prevendo o que ele tentaria, por seu espírito de cobiça e por sua falta de ideias firmes de dever para com o Mestre, junto com muitas outras declarações, proferiu também esta: Aquele que mergulha a mão comigo no prato, esse me trairá.
Observe também a superficialidade e a falsidade evidente da afirmação de Celso, quando ele diz que quem participou da mesa de alguém não conspiraria contra esse homem; e que, se não conspiraria contra um homem, muito menos tramaria contra um Deus depois de banquetear com ele. Pois quem não sabe que muitas pessoas, depois de partilhar do sal à mesa, entraram em conspiração contra os próprios anfitriões? Toda a história grega e bárbara está cheia de exemplos assim. E o poeta jâmbico de Paros, ao censurar Licambes por ter violado acordos confirmados pelo sal da mesa, diz a ele: Mas você quebrou um poderoso juramento, isto é, aquele feito pelo sal da mesa. E os que se interessam pelo estudo da história, e que se dedicam inteiramente a isso, descuidando de outros ramos do conhecimento mais necessários à condução da vida, podem citar inúmeros exemplos que mostram pessoas que, tendo partilhado da hospitalidade de outros, conspiraram contra eles.
A isso ele acrescenta, como se tivesse reunido um argumento com demonstrações e consequências conclusivas, o seguinte: E, o que é ainda mais absurdo, o próprio Deus conspirou contra os que se sentaram à sua mesa, transformando-os em traidores e homens ímpios. Mas como Jesus poderia conspirar ou transformar os seus discípulos em traidores ou homens ímpios, ele seria incapaz de provar, a não ser por meio de uma dedução que qualquer um poderia refutar com a maior facilidade.
Ele continua nesse tom: Se ele havia decidido por essas coisas, e sofreu o castigo em obediência ao seu Pai, é evidente que, sendo um Deus e submetendo-se voluntariamente, aquilo que foi feito de acordo com a sua própria decisão não foi nem doloroso nem aflitivo. Mas ele não percebeu que aqui se contradizia de imediato. Pois, se ele admitiu que Jesus foi castigado porque havia decidido por essas coisas e se submetido ao seu Pai, fica claro que ele de fato sofreu punição, e era impossível que aquilo que lhe foi infligido pelos que o castigavam não fosse doloroso, já que a dor é algo involuntário. Mas, se por ele estar disposto a sofrer os seus tormentos não fossem nem dolorosos nem aflitivos, como ele admitiu que Jesus foi castigado? Ele não percebeu que, uma vez que Jesus, pelo seu nascimento, assumiu um corpo, assumiu um corpo capaz tanto de sofrer dores quanto as aflições próprias da humanidade, se entendermos por aflições aquilo que ninguém escolhe voluntariamente. Portanto, já que ele assumiu voluntariamente um corpo, de natureza não inteiramente diferente da carne humana, junto com o corpo assumiu também os seus sofrimentos e aflições, que não estava em seu poder evitar suportar, estando no poder dos que os infligiam enviar sobre ele coisas aflitivas e dolorosas. E nas páginas anteriores já mostramos que ele não teria caído nas mãos dos homens se assim não tivesse querido. Mas ele de fato veio, porque estava disposto a vir, e porque ficou evidente de antemão que a sua morte em favor dos homens seria de proveito para toda a raça humana.
Depois disso, querendo provar que os acontecimentos que se abateram sobre ele foram dolorosos e aflitivos, e que era impossível para ele, se quisesse, torná-los de outro modo, ele prossegue: Por que ele lamenta, e chora, e ora para escapar do medo da morte, expressando-se em termos como estes: 'Ó Pai, se for possível, passe de mim este cálice'? Ora, nessas palavras observe a malícia de Celso, como, não aceitando o amor à verdade que move os escritores dos Evangelhos (que poderiam ter silenciado sobre os pontos que, como Celso pensa, são censuráveis, mas que não os omitiram por muitas razões, que qualquer um, ao expor o Evangelho, pode apresentar no lugar próprio), ele lança uma acusação contra a narrativa do Evangelho, exagerando grosseiramente os fatos e citando o que não está escrito nos Evangelhos, visto que em parte alguma se encontra que Jesus tenha lamentado. E ele altera as palavras da expressão Pai, se for possível, passe de mim este cálice, e não cita o que vem logo a seguir, que manifesta ao mesmo tempo a pronta obediência de Jesus ao seu Pai e a sua grandeza de espírito, e que diz assim: Contudo, não como eu quero, mas como tu queres. Mais ainda, a alegre obediência de Jesus à vontade do seu Pai naquilo que ele foi condenado a sofrer, expressa na declaração Se este cálice não pode passar de mim sem que eu o beba, faça-se a tua vontade, ele finge não ter notado, agindo aqui como aqueles indivíduos perversos que ouvem as Sagradas Escrituras com espírito maligno e que, de cabeça erguida, proferem maldades. Pois eles parecem ter ouvido a declaração Eu mato, e muitas vezes a usam contra nós como reprovação; mas as palavras Eu farei viver eles não recordam, sendo que a frase inteira mostra que os que vivem em meio à perversidade pública e que agem perversamente são mortos por Deus, e que uma vida melhor lhes é infundida em troca, uma vida que Deus dará aos que morreram para o pecado. E assim também esses homens ouviram as palavras Eu ferirei; mas não veem estas, e eu curarei, que são como as palavras de um médico, que corta os corpos e inflige feridas severas a fim de extrair deles substâncias nocivas e prejudiciais à saúde, e que não termina o seu trabalho com dores e lacerações, mas, por meio do seu tratamento, restaura o corpo àquele estado de saúde que tem em vista. Além disso, eles não ouviram o anúncio inteiro, Pois ele fere e de novo ata a ferida; mas apenas esta parte, Ele fere. Assim, do mesmo modo, age esse judeu de Celso, que cita as palavras Ó Pai, oxalá passe de mim este cálice, mas que não acrescenta o que vem a seguir, e que mostra a firmeza de Jesus e a sua disposição para sofrer. Mas esses assuntos, que dão amplo espaço para explicação a partir da sabedoria de Deus, e que podem ser razoavelmente ponderados por aqueles a quem Paulo chama de perfeitos quando disse Falamos sabedoria entre os que são perfeitos, deixamos de lado por ora, e falaremos um pouco daquilo que é útil para o nosso propósito atual.