Contra Celso - Livro II 4
As objeções do judeu de Celso contra Jesus
Mencionamos nas páginas anteriores que há algumas das declarações de Jesus que se referem àquele Ser nele que era o primogênito de toda a criação, como Eu sou o caminho, a verdade e a vida, e outras semelhantes; e há ainda outras que pertencem àquilo nele que se entende ser homem, como Mas agora vocês procuram me matar, um homem que lhes disse a verdade que ouvi do Pai. E aqui, portanto, ele descreve o elemento de fraqueza próprio da carne humana e o elemento de prontidão do espírito que existia na sua humanidade: o elemento de fraqueza na expressão Pai, se for possível, passe de mim este cálice; a prontidão do espírito nesta, Contudo, não como eu quero, mas como tu queres. E, já que é apropriado observar a ordem das nossas citações, observe que, em primeiro lugar, é mencionado apenas um único caso, por assim dizer, indicando a fraqueza da carne; e depois aqueles outros casos, em maior número, manifestando a disposição do espírito. Pois a expressão Pai, se for possível, passe de mim este cálice é apenas uma; ao passo que mais numerosas são aquelas outras, a saber, Não como eu quero, mas como tu queres; e, Ó meu Pai, se este cálice não pode passar de mim sem que eu o beba, faça-se a tua vontade. Note-se também que as palavras não são afaste de mim este cálice; mas que toda a expressão é marcada por um tom de piedade e reverência, Pai, se for possível, passe de mim este cálice. Eu sei, de fato, que há outra explicação dessa passagem, no seguinte sentido: O Salvador, prevendo os sofrimentos que o povo judeu e a cidade de Jerusalém haveriam de passar em retribuição pelos atos perversos que os judeus haviam ousado cometer contra ele, por nenhum outro motivo senão o da mais pura filantropia para com eles, e por um desejo de que escapassem das calamidades iminentes, proferiu a oração Pai, se for possível, passe de mim este cálice. É como se ele tivesse dito: Por causa de eu beber este cálice de punição, a nação inteira será abandonada por ti; eu peço, se for possível, que este cálice passe de mim, para que a tua porção, que foi culpada de tais crimes contra mim, não seja totalmente abandonada por ti. Mas se, como Celso alegaria, nada de doloroso ou aflitivo aconteceu a Jesus naquele momento, como os homens poderiam mais tarde citar o exemplo de Jesus como alguém que suportou sofrimentos por causa da religião, se ele não sofreu o que são sofrimentos humanos, mas apenas teve a aparência de fazê-lo?
Esse judeu de Celso ainda acusa os discípulos de Jesus de terem inventado essas declarações, dizendo a eles: Mesmo que culpados de falsidade, vocês não foram capazes de dar uma aparência de credibilidade às suas invenções. Em resposta a isso, temos a dizer que havia um método fácil de ocultar esses acontecimentos: o de simplesmente não os registrar. Pois, se os Evangelhos não contivessem os relatos dessas coisas, quem poderia nos censurar dizendo que Jesus pronunciou tais palavras durante a sua permanência na terra? Celso, de fato, não percebeu que era uma incoerência que as mesmas pessoas estivessem ao mesmo tempo enganadas a respeito de Jesus, acreditando que ele fosse Deus e o objeto da profecia, e inventassem ficções sobre ele, sabendo claramente que essas declarações eram falsas. Em verdade, portanto, ou eles não foram culpados de inventar inverdades, mas essas eram as suas reais impressões e as registraram com veracidade; ou então foram culpados de falsificar as histórias, e não tinham essas convicções, e não estavam enganados quando reconheceram que ele era Deus.
Depois disso, ele diz que certos crentes cristãos, como pessoas que num acesso de embriaguez levantam as mãos com violência contra si mesmas, corromperam o Evangelho de sua integridade original, em grau triplo, quádruplo e múltiplo, e o remodelaram, para que pudessem responder às objeções. Ora, não conheço outros que tenham alterado o Evangelho, a não ser os seguidores de Márcion, os de Valentim e, penso, também os de Luciano. Mas tal alegação não é uma acusação contra o sistema cristão, e sim contra os que ousaram brincar assim com os Evangelhos. E, assim como não é fundamento de acusação contra a filosofia o fato de existirem sofistas, ou epicureus, ou peripatéticos, ou quaisquer outros que sejam, que sustentam opiniões falsas, do mesmo modo não é contra o cristianismo genuíno que existam alguns que corrompem as histórias do Evangelho e que introduzem heresias contrárias ao sentido da doutrina de Jesus.
E já que esse judeu de Celso faz da utilização dos profetas, que predisseram os eventos da vida de Cristo, um motivo de reprovação contra os cristãos, temos a dizer, além do que já apresentamos sobre este ponto, que cabia a ele poupar os indivíduos, como diz, e expor as próprias profecias, e, depois de admitir a probabilidade da interpretação cristã delas, mostrar como o uso que os cristãos fazem delas pode ser derrubado. Pois, desse modo, ele não pareceria assumir apressadamente uma posição tão importante sobre bases frágeis, especialmente quando afirma que as profecias se ajustam a dez mil outras coisas com mais credibilidade do que a Jesus. E ele deveria ter enfrentado cuidadosamente esse poderoso argumento dos cristãos, sendo o mais forte que eles apresentam, e ter demonstrado, com relação a cada profecia em particular, que ela pode aplicar-se a outros eventos com maior probabilidade do que a Jesus. Ele não percebeu, contudo, que esse era um argumento plausível para ser apresentado contra os cristãos apenas por alguém que fosse opositor dos escritos proféticos; mas Celso pôs aqui na boca de um judeu uma objeção que um judeu não faria. Pois um judeu não admitirá que as profecias possam ser aplicadas a incontáveis outras coisas com maior probabilidade do que a Jesus; mas ele se esforçará, depois de dar o que lhe parece ser o significado de cada uma, por se opor à interpretação cristã, não, de fato, apresentando razões convincentes, mas apenas tentando fazê-lo.
Nas páginas anteriores já falamos sobre este ponto, a saber, a predição de que haveria duas vindas de Cristo à raça humana, de modo que não é necessário responder à objeção, supostamente levantada por um judeu, de que os profetas declaram que aquele que viria seria um poderoso soberano, Senhor de todas as nações e exércitos. Mas é no espírito de um judeu, penso, e em consonância com a sua amarga animosidade, e com calúnias infundadas e até improváveis contra Jesus, que ele acrescenta: Tampouco os profetas predisseram uma peste como essa. Pois nem os judeus, nem Celso, nem qualquer outro, podem apresentar argumento algum que prove que uma peste converte os homens da prática do mal para uma vida que está de acordo com a natureza, e marcada pela temperança e por outras virtudes.
Esta objeção também nos é lançada ao rosto por Celso: A partir de tais sinais e interpretações equivocadas, e de provas tão mesquinhas, ninguém poderia comprovar que ele fosse Deus e o Filho de Deus. Ora, era seu dever enumerar as supostas interpretações equivocadas e provar que eram tais, e mostrar pelo raciocínio a mesquinhez da evidência, a fim de que o cristão, caso alguma de suas objeções parecesse plausível, pudesse responder e refutar os seus argumentos. O que ele disse, no entanto, a respeito de Jesus, de fato se cumpriu, porque ele era um poderoso soberano, embora Celso se recuse a ver que assim aconteceu, apesar de a mais clara evidência provar que isso é verdadeiro a respeito de Jesus. Pois, assim como o sol, diz ele, que ilumina todos os demais objetos, primeiro torna-se visível a si mesmo, assim deveria ter feito o Filho de Deus. Responderíamos que foi exatamente o que ele fez; pois a justiça surgiu nos seus dias, e há abundância de paz, que teve início no seu nascimento, preparando Deus as nações para o seu ensino, de modo que estivessem sob um único príncipe, o rei dos romanos, e para que não fosse, por causa da falta de união entre as nações, causada pela existência de muitos reinos, mais difícil para os apóstolos de Jesus cumprir a tarefa que lhes fora ordenada pelo seu Mestre, quando ele disse: Ide e ensinai todas as nações. Além disso, é certo que Jesus nasceu no reinado de Augusto, que, por assim dizer, fundiu numa só monarquia as muitas populações da terra. Ora, a existência de muitos reinos teria sido um obstáculo à difusão da doutrina de Jesus por todo o mundo; não só pelas razões mencionadas, mas também por causa da necessidade de os homens, por toda parte, se engajarem em guerra e lutarem em favor da sua pátria, o que acontecia antes dos tempos de Augusto, e em épocas ainda mais remotas, quando surgia a necessidade, como quando os peloponésios e os atenienses guerrearam entre si, e outras nações de modo semelhante. Como, então, seria possível à doutrina evangélica da paz, que não permite aos homens vingar-se nem mesmo dos inimigos, prevalecer por todo o mundo, a não ser que, na vinda de Jesus, um espírito mais brando tivesse sido por toda parte introduzido na conduta das coisas?
Em seguida, ele acusa os cristãos de serem culpados de raciocínio sofístico ao dizerem que o Filho de Deus é o próprio Logos. E ele pensa fortalecer a acusação, porque, quando declaramos que o Logos é o Filho de Deus, não apresentamos à vista um Logos puro e santo, mas um homem dos mais degradados, que foi punido com açoites e crucificação. Ora, sobre este ponto já respondemos brevemente às acusações de Celso nas páginas anteriores, onde se mostrou que Cristo é o primogênito de toda a criação, que assumiu um corpo e uma alma humana; e que Deus deu o mandamento a respeito da criação de coisas tão poderosas no mundo, e elas foram criadas; e que aquele que recebeu o mandamento foi Deus, o Logos. E, visto que é um judeu quem faz essas afirmações na obra de Celso, não será fora de propósito citar a declaração Ele enviou a sua palavra e os curou, e os livrou da sua destruição, passagem da qual falamos há pouco. Ora, embora eu tenha conversado com muitos judeus que se diziam homens eruditos, nunca ouvi nenhum deles expressar aprovação à afirmação de que o Logos é o Filho de Deus, como Celso declara que eles fazem, ao pôr na boca do judeu uma declaração como esta: Se o seu Logos é o Filho de Deus, nós também damos o nosso assentimento ao mesmo.
Já mostramos que Jesus não pode ser considerado nem um homem arrogante nem um feiticeiro; e por isso é desnecessário repetir os nossos argumentos anteriores, para que, ao responder às repetições de Celso, nós mesmos não sejamos culpados de repetição desnecessária. E agora, ao criticar a genealogia do nosso Senhor, há certos pontos que ocasionam alguma dificuldade até mesmo para os cristãos, e que, por causa da discrepância entre as genealogias, são apresentados por alguns como argumentos contra a sua exatidão, mas que Celso nem sequer mencionou. Pois Celso, que é verdadeiramente um fanfarrão, e que se diz conhecedor de todos os assuntos relativos ao cristianismo, não sabe levantar dúvidas de maneira hábil contra a credibilidade da Escritura. Mas ele afirma que os autores das genealogias, por um sentimento de orgulho, fizeram Jesus descender do primeiro homem e dos reis dos judeus. E ele pensa fazer uma acusação notável quando acrescenta que a mulher do carpinteiro não poderia ter ignorado esse fato, se fosse de linhagem tão ilustre. Mas o que isso tem a ver com a questão? Concedido que ela não ignorasse a sua descendência, como isso afeta o resultado? Suponha que ela a ignorasse: como a sua ignorância provaria que ela não descendia do primeiro homem, ou não poderia derivar a sua origem dos reis judeus? Imagina Celso que os pobres devam sempre descender de antepassados pobres, ou que reis sempre nascem de reis? Mas parece tolice gastar tempo com um argumento como este, sendo bem sabido que, mesmo em nossos dias, alguns que são mais pobres do que Maria descendem de antepassados de riqueza e distinção, e que governantes de nações e reis surgiram de pessoas sem reputação alguma.
Mas, continua Celso, que grandes feitos Jesus realizou, sendo ele um Deus? Acaso ele envergonhou os seus inimigos, ou levou a um desfecho ridículo o que se tramava contra ele? Ora, a essa pergunta, embora sejamos capazes de mostrar o caráter notável e miraculoso dos eventos que se abateram sobre ele, de que outra fonte poderíamos fornecer uma resposta senão das narrativas do Evangelho, que afirmam que houve um terremoto, e que as rochas se fenderam, e os túmulos se abriram, e o véu do templo se rasgou em dois de alto a baixo, e que as trevas prevaleceram em pleno dia, deixando o sol de dar luz? Mas, se Celso acredita nos relatos do Evangelho quando pensa poder encontrar neles matéria de acusação contra os cristãos, e se recusa a acreditar neles quando estabelecem a divindade de Jesus, a nossa resposta a ele é: Senhor, ou descreia de todas as narrativas do Evangelho, e então não imagine mais que pode fundamentar acusações sobre elas; ou, ao conceder a sua crença às afirmações delas, olhe com admiração para o Logos de Deus, que se fez carne e que desejou conferir benefícios a toda a raça humana. E este aspecto evidencia a nobreza da obra de Jesus: que, até o tempo presente, aqueles a quem Deus quer são curados pelo seu nome. E, quanto ao eclipse no tempo de Tibério César, em cujo reinado parece que Jesus foi crucificado, e aos grandes terremotos que então ocorreram, também Flegonte, penso, escreveu no décimo terceiro ou décimo quarto livro das suas Crônicas.
Esse judeu de Celso, ridicularizando Jesus, como ele imagina, é descrito como conhecedor das Bacantes de Eurípides, peça em que Dioniso diz: A própria divindade me libertará sempre que eu quiser. Ora, os judeus não conhecem muito a literatura grega; mas suponha que houvesse um judeu tão versado nela a ponto de tornar tal citação apropriada de sua parte: como se segue daí que Jesus não pudesse libertar-se a si mesmo, só porque não o fez? Pois deixe que ele creia, a partir das nossas próprias Escrituras, que Pedro obteve a sua liberdade depois de ter sido aprisionado, soltando-lhe um anjo as cadeias; e que Paulo, tendo sido preso no tronco junto com Silas em Filipos da Macedônia, foi libertado por poder divino quando as portas da prisão se abriram. Mas é provável que Celso trate esses relatos com escárnio, ou que nunca os tenha lido; pois ele provavelmente responderia que há certos feiticeiros capazes, por encantamentos, de desatar cadeias e abrir portas, de modo que compararia os eventos relatados em nossas histórias aos feitos de feiticeiros. Mas, continua ele, nenhuma calamidade aconteceu nem mesmo àquele que o condenou, como aconteceu a Penteu, a saber, loucura ou despedaçamento. E, no entanto, ele não sabe que não foi tanto Pilatos quem o condenou (Pilatos, que sabia que por inveja os judeus o haviam entregado), e sim a nação judaica, que foi condenada por Deus, e despedaçada, e dispersa por toda a terra, em grau muito além do que aconteceu a Penteu. Além disso, por que ele omitiu de propósito o que se relata sobre a mulher de Pilatos, que teve uma visão e que foi tão comovida por ela que mandou uma mensagem ao marido, dizendo: Não te envolvas com aquele justo, pois muito sofri hoje em sonho por causa dele? E, de novo, passando em silêncio pelas provas da divindade de Jesus, Celso procura lançar reprovação sobre ele a partir das narrativas do Evangelho, referindo-se aos que zombaram de Jesus, e puseram nele o manto de púrpura, e a coroa de espinhos, e colocaram a cana na sua mão. De que fonte, agora, ó Celso, você tirou essas afirmações, senão das narrativas do Evangelho? E você, por conseguinte, viu que eram matérias próprias para reprovação, ao passo que os que as registraram não pensaram que você, e os de sua espécie, as transformariam em escárnio, mas sim que outros receberiam delas um exemplo de como desprezar os que o ridicularizavam e zombavam dele por causa da sua religião, ele que apropriadamente deu a sua vida por causa dela? Admire antes o amor deles à verdade, e o daquele Ser que suportou essas coisas voluntariamente em favor dos homens, e que as suportou com toda constância e longanimidade. Pois não se registra que ele tenha proferido qualquer lamento, ou que, depois da sua condenação, tenha feito ou dito algo inconveniente.
Mas, em resposta a esta objeção, Se não antes, ao menos agora, por que ele não dá alguma manifestação de sua divindade, e não se livra desta reprovação, e não se vinga dos que insultam tanto a ele quanto ao seu Pai?, temos a responder que seria a mesma coisa que se disséssemos àqueles, entre os gregos, que aceitam a doutrina da providência e que creem em presságios: Por que Deus não pune os que insultam a Divindade e subvertem a doutrina da providência? Pois, do mesmo modo que os gregos responderiam a tais objeções, também nós responderíamos, da mesma maneira ou de modo mais eficaz. Não houve apenas um presságio do céu, o eclipse do sol, mas também os outros milagres, que mostram que o Crucificado possuía algo de divino e maior do que possuía a maioria dos homens.
Celso diz em seguida: Qual é a natureza do icor no corpo do Jesus crucificado? Será 'tal como o que corre nos corpos dos deuses imortais'? Ele faz essa pergunta em espírito de zombaria; mas mostraremos, a partir das sérias narrativas dos Evangelhos, ainda que Celso não goste, que não foi nenhum icor mítico e homérico que correu do corpo de Jesus, e sim que, depois da sua morte, um dos soldados com uma lança lhe traspassou o lado, e dali saíram sangue e água. E aquele que o viu deu testemunho, e o seu testemunho é verdadeiro, e ele sabe que diz a verdade. Ora, nos demais corpos mortos o sangue coagula, e água pura não brota; mas o aspecto miraculoso no caso do corpo morto de Jesus foi que, em torno do corpo morto, sangue e água brotaram do lado. Mas se este Celso, que, a fim de achar matéria de acusação contra Jesus e os cristãos, extrai do Evangelho até passagens que são interpretadas de modo incorreto, mas passa em silêncio pelas evidências da divindade de Jesus, quisesse dar ouvidos aos presságios divinos, que leia o Evangelho e veja que até o centurião, e os que com ele faziam a guarda de Jesus, ao verem o terremoto e os acontecimentos que ocorreram, ficaram muito atemorizados, dizendo: Este homem era o Filho de Deus.
Depois disso, aquele que extrai da narrativa do Evangelho as afirmações sobre as quais pensa poder fundamentar uma acusação faz do vinagre e do fel um motivo de reprovação contra Jesus, dizendo que ele se lançou de boca aberta para bebê-los, e não pôde suportar a sua sede como qualquer homem comum frequentemente a suporta. Ora, este assunto admite uma explicação de tipo peculiar e figurativo; mas, na presente ocasião, a afirmação de que os profetas predisseram esse mesmo incidente pode ser aceita como a resposta mais comum à objeção. Pois no Salmo sessenta e nove está escrito, com referência a Cristo: E deram-me fel por comida, e na minha sede deram-me vinagre para beber. Ora, que os judeus digam quem é aquele que o escrito profético representa proferindo essas palavras; e que apresentem, a partir da história, alguém que recebeu fel por alimento, e a quem foi dado vinagre como bebida. Ousariam eles afirmar que o Cristo que ainda esperam que venha poderia ser posto em tais circunstâncias? Então diríamos: O que impede que a predição já tenha sido cumprida? Pois essa mesma predição foi proferida muitas eras antes, e é suficiente, junto com as outras declarações proféticas, para levar quem examina o assunto inteiro com imparcialidade à conclusão de que Jesus é aquele que foi profetizado como Cristo e como o Filho de Deus.
O judeu observa em seguida: Vocês, ó crentes sinceros, nos censuram por não reconhecermos este indivíduo como Deus, nem concordarmos com vocês que ele suportou esses sofrimentos para o benefício da humanidade, a fim de que nós também desprezássemos o castigo. Ora, em resposta a isso, dizemos que nós culpamos os judeus, que foram criados sob a formação da lei e dos profetas (que predizem a vinda de Cristo), porque eles nem refutam os argumentos que lhes apresentamos para provar que ele é o Messias, aduzindo tal refutação como defesa da sua incredulidade; nem tampouco, sem oferecer qualquer refutação, creem naquele que foi objeto da profecia, e que manifestou claramente, por meio dos seus discípulos, mesmo depois do período do seu aparecimento na carne, que ele passou por essas coisas para o benefício da humanidade; tendo, como objeto da sua primeira vinda, não condenar os homens e os seus atos antes de tê-los instruído e apontado o seu dever, nem castigar os perversos e salvar os bons, mas disseminar a sua doutrina de maneira extraordinária, e com a evidência do poder divino, entre toda a raça humana, como também os profetas representaram essas coisas. E nós os culpamos, além disso, porque não creram naquele que deu prova do poder que havia nele, mas afirmaram que ele expulsava os demônios das almas dos homens por meio de Belzebu, o príncipe dos demônios; e nós os culpamos porque caluniam o caráter filantrópico daquele que não passou por cima de nenhuma cidade, nem mesmo de uma única aldeia da Judeia, para que pudesse anunciar por toda parte o reino de Deus, acusando-o de levar a vida errante de um vagabundo e de passar uma existência angustiada num corpo desprezível. Mas não há desonra em suportar tais labores para o benefício de todos os que sejam capazes de entendê-lo.