Contra Celso - Livro II 3
As objeções do judeu de Celso contra Jesus
Extremamente fraca é sua afirmação de que os discípulos de Jesus escreveram tais relatos sobre ele para atenuar as acusações que pesavam contra ele. É como se, ele diz, alguém dissesse que certa pessoa era um homem justo, e ainda assim mostrasse que ela era culpada de injustiça; ou que era piedosa, e ainda assim cometera um assassinato; ou que era imortal, e ainda assim estava morta; acrescentando a todas essas afirmações a observação de que ele predissera todas essas coisas. Ora, suas ilustrações logo se veem inadequadas. Pois não há absurdo nenhum em que aquele que decidira tornar-se um modelo vivo para os homens, quanto ao modo de regular suas vidas, mostrasse também como eles deveriam morrer por causa de sua religião, sem falar do fato de que sua morte em favor dos homens foi um benefício para o mundo inteiro, como provamos no livro anterior. Ele imagina, além disso, que toda a confissão dos sofrimentos do Salvador confirma sua objeção, em vez de enfraquecê-la. Pois ele não está familiarizado nem com as observações filosóficas de Paulo, nem com as afirmações dos profetas sobre o assunto. E lhe escapou que certos hereges declararam que Jesus sofreu seus sofrimentos em aparência, não na realidade. Pois, se soubesse disso, não teria dito: Pois vocês nem alegam isto, que ele pareceu sofrer esse castigo aos homens maus, sem de fato passar por ele; mas, ao contrário, vocês reconhecem que ele sofreu abertamente. Mas nós não vemos seus sofrimentos como tendo sido meramente em aparência, para que sua ressurreição também não seja um evento falso, mas real. Pois aquele que realmente morreu, de fato ressuscitou, se é que ressuscitou; ao passo que aquele que apenas pareceu morrer, na realidade não ressuscitou. Mas, já que a ressurreição de Jesus Cristo é motivo de zombaria para os incrédulos, citaremos as palavras de Platão, de que Er, filho de Armênio, levantou-se da pira funerária doze dias depois de ter sido colocado nela, e deu um relato do que tinha visto no Hades; e, já que estamos respondendo a incrédulos, não será de todo inútil referir aqui o que Heráclides relata sobre a mulher que foi privada da vida. E muitas pessoas são registradas como tendo ressuscitado de seus túmulos, não só no dia de seu sepultamento, mas também no dia seguinte. Que admiração há, então, se, no caso de Alguém que realizou muitas coisas maravilhosas, tanto além do poder humano quanto com tamanha abundância de evidências, aquele que não podia negar sua realização tentou caluniá-las comparando-as a atos de feitiçaria, esse Alguém manifestou também em sua morte uma demonstração maior de poder divino, de modo que sua alma, se quisesse, pudesse deixar seu corpo, e, depois de realizar certas tarefas fora dele, pudesse voltar de novo quando lhe aprouvesse? E uma declaração assim, diz-se, Jesus fez no Evangelho de João, quando disse: Ninguém tira a minha vida de mim, mas eu a dou de mim mesmo. Tenho poder para dá-la, e tenho poder para retomá-la. E talvez tenha sido por isso que ele apressou sua partida do corpo, para preservá-lo, e para que suas pernas não fossem quebradas, como foram as dos salteadores que foram crucificados com ele. Pois os soldados quebraram as pernas do primeiro, e do outro que foi crucificado com ele; mas, quando chegaram a Jesus e viram que ele estava morto, não lhe quebraram as pernas. Respondemos, assim, à pergunta: Como é crível que Jesus pudesse ter predito essas coisas? E quanto a esta: Como poderia o homem morto ser imortal? que saiba aquele que quiser entender que não é o homem morto que é imortal, mas aquele que ressuscitou dos mortos. Tão longe estava, de fato, o homem morto de ser imortal, que nem mesmo o Jesus anterior à sua morte, o ser composto que devia sofrer a morte, era imortal. Pois ninguém é imortal se está destinado a morrer; mas alguém é imortal quando já não estiver mais sujeito à morte. Mas Cristo, tendo ressuscitado dos mortos, não morre mais: a morte já não tem domínio sobre ele; embora não queiram admitir isso aqueles que não conseguem entender como tais coisas podem ser ditas.