Contra Celso - Livro II 8
As objeções do judeu de Celso contra Jesus
Mas como pode este judeu de Celso dizer que Jesus se escondeu? Pois as palavras dele a respeito dele são estas: E quem, sendo enviado como mensageiro, jamais se esconde quando deveria dar a conhecer a sua mensagem? Ora, não se escondeu aquele que disse aos que buscavam prendê-lo: Diariamente eu ensinava abertamente no templo, e não me prendestes. Mas, tendo já respondido uma vez a esta acusação de Celso, agora repetida de novo, vamos nos contentar com o que dissemos antes. Respondemos também, nas páginas anteriores, a esta objeção: que, enquanto estava no corpo, e ninguém cria nele, ele pregava a todos sem interrupção; mas, quando poderia ter produzido uma crença poderosa em si mesmo depois de ressuscitar dos mortos, mostrou-se secretamente apenas a uma mulher e aos seus próprios companheiros de farra. Ora, não é verdade que ele se mostrou só a uma mulher; pois se diz no Evangelho segundo Mateus que, ao fim do sábado, ao raiar do primeiro dia da semana, vieram Maria Madalena e a outra Maria, para ver o sepulcro. E eis que houve um grande terremoto, pois o anjo do Senhor havia descido do céu, e veio e removeu a pedra. E, logo depois, Mateus acrescenta: E eis que Jesus as encontrou (referindo-se claramente às Marias já mencionadas), dizendo: Salve. E elas se aproximaram, abraçaram-lhe os pés e o adoraram. E respondemos também à acusação de que, enquanto sofria o seu castigo, ele foi visto por todos, mas, depois da ressurreição, só por uma, quando oferecemos a nossa defesa do fato de que ele não foi visto por todos. E agora poderíamos dizer que os seus atributos meramente humanos eram visíveis a todos os homens, mas os que eram divinos por natureza (falo dos atributos não como ligados, mas como distintos) não podiam ser recebidos por todos. Mas observe aqui a contradição manifesta em que Celso cai. Pois, tendo dito, pouco antes, que Jesus aparecera secretamente a uma mulher e aos seus próprios companheiros de farra, ele logo acrescenta: Enquanto sofria o seu castigo, foi visto por todos os homens, mas, depois da ressurreição, só por uma, quando o oposto é que deveria ter acontecido. E ouçamos o que ele quer dizer com deveria ter acontecido. O ser visto por todos os homens enquanto sofria o seu castigo, mas, depois da ressurreição, só por um indivíduo, são opostos. Ora, no que a sua linguagem transmite de sentido, ele quereria que acontecesse algo ao mesmo tempo impossível e absurdo: que, enquanto sofria o seu castigo, ele fosse visto só por um indivíduo, mas, depois da ressurreição, por todos os homens! Ou de que outro modo você explicará as palavras dele: O oposto é que deveria ter acontecido?
Jesus nos ensinou quem foi que o enviou, nas palavras: Ninguém conhece o Pai senão o Filho; e nestas: Ninguém jamais viu a Deus; o Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o deu a conhecer. Ele, tratando da Divindade, expôs aos seus verdadeiros discípulos a doutrina a respeito de Deus; e nós, descobrindo vestígios de tal ensino nas narrativas da Escritura, tomamos ocasião a partir delas para auxiliar as nossas concepções teológicas, ouvindo declarar numa passagem que Deus é luz, e nele não há treva alguma; e em outra: Deus é Espírito, e os que o adoram devem adorá-lo em espírito e em verdade. Mas os propósitos para os quais o Pai o enviou são inúmeros; e qualquer um pode averiguá-los, se quiser, em parte pelos profetas que profetizaram dele, e em parte pelas narrativas dos evangelistas. E também não poucas coisas aprenderá dos apóstolos, e especialmente de Paulo. Além disso, os que são piedosos ele conduz à luz, e os que pecam ele punirá; circunstância que Celso, não observando, representou-o como alguém que conduzirá os piedosos à luz, e que terá misericórdia dos outros, quer pequem, quer se arrependam.
Depois das afirmações acima, ele continua: Se ele queria permanecer oculto, por que se ouviu uma voz do céu proclamando-o Filho de Deus? E, se não buscava permanecer escondido, por que foi punido? Ou por que morreu? Ora, com tais perguntas ele pensa convencer as histórias de discrepância, sem observar que Jesus nem desejava que todas as coisas a respeito de si fossem conhecidas por todos com quem porventura se encontrasse, nem tampouco que todas fossem desconhecidas. Assim, não se diz que a voz do céu, que o proclamou Filho de Deus nas palavras Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo, tenha sido audível às multidões, como supôs este judeu de Celso. A voz vinda da nuvem no alto monte, além disso, foi ouvida só pelos que tinham subido com ele. Pois a voz divina é de tal natureza que só é ouvida por aqueles a quem quem fala deseja que a ouçam. E sustento que a voz de Deus a que se faz referência não é nem o ar que foi golpeado, nem qualquer abalo do ar, nem qualquer outra coisa mencionada nos tratados sobre a voz; e, portanto, é ouvida por um órgão de audição melhor e mais divino que o dos sentidos. E, quando quem fala não quer que a sua voz seja ouvida por todos, aquele que tem o ouvido mais fino ouve a voz de Deus, enquanto aquele que tem os ouvidos da alma embotados não percebe que é Deus quem fala. Mencionei estas coisas por causa da pergunta dele: Por que se ouviu uma voz do céu proclamando-o Filho de Deus? Já quanto à indagação Por que foi punido, se queria permanecer oculto?, o que se afirmou mais detalhadamente nas páginas anteriores sobre o tema do seu sofrimento pode bastar.
O judeu prossegue, depois disto, afirmando como consequência algo que não decorre das premissas; pois não se segue, do fato de ele ter querido, pelos castigos que sofreu, ensinar-nos também a desprezar a morte, que, depois da ressurreição, ele devesse convocar abertamente todos os homens à luz, e instruí-los no objetivo da sua vinda. Pois ele já havia convocado todos os homens à luz nas palavras: Vinde a mim, todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos darei descanso. E o objetivo da sua vinda fora explicado longamente nos seus discursos sobre as bem-aventuranças, e nos anúncios que se seguiram a elas, e nas parábolas, e nas suas conversas com os escribas e fariseus. E o ensino que o Evangelho de João nos oferece mostra que a eloquência de Jesus consistia não em palavras, mas em obras; ao mesmo tempo que é evidente, pelas narrativas dos Evangelhos, que a sua fala era com poder, razão pela qual também se admiravam dele.
Além de tudo isto, o judeu diz ainda: Todas estas afirmações são tiradas dos vossos próprios livros, além dos quais não precisamos de outra testemunha; pois vós vos atirais sobre as vossas próprias espadas. Ora, provamos que muitas afirmações tolas, contrárias às narrativas dos nossos Evangelhos, ocorrem nas declarações do judeu, seja a respeito de Jesus, seja a nosso respeito. E não penso que ele tenha mostrado que nos atiramos sobre as nossas próprias espadas; ele apenas o imagina. E quando o judeu acrescenta, de modo geral, isto às suas observações anteriores: Ó altíssimo e celeste! Que Deus, ao aparecer aos homens, é recebido com incredulidade?, devemos dizer-lhe que, segundo os relatos da lei de Moisés, conta-se que Deus visitou os hebreus do modo mais público, não só nos sinais e maravilhas realizados no Egito, e também na passagem do mar Vermelho, e na coluna de fogo e na nuvem de luz, mas também quando o Decálogo foi anunciado a todo o povo, e ainda assim foi recebido com incredulidade pelos que viram essas coisas. Pois, se tivessem crido no que viram e ouviram, não teriam fabricado o bezerro, nem trocado a sua própria glória pela semelhança de um bezerro que come capim; nem teriam dito uns aos outros a respeito do bezerro: Estes são os teus deuses, ó Israel, que te tiraram da terra do Egito. E observe se não está inteiramente de acordo com o caráter do mesmo povo, que antes se recusou a crer em tais maravilhas e em tais aparições da divindade, durante todo o período de peregrinação no deserto, conforme se registra na lei dos judeus que fizeram, recusar-se também a se convencer, por ocasião da gloriosa vinda de Jesus, pelas poderosas palavras que ele falou com autoridade, e pelos prodígios que realizou na presença de todo o povo.
Penso que o que foi dito basta para convencer qualquer um de que a incredulidade dos judeus a respeito de Jesus estava de acordo com o que se relata desse povo desde o princípio. Pois eu diria, em resposta a este judeu de Celso, quando ele pergunta: Que Deus que apareceu entre os homens é recebido com incredulidade, e isso, ainda, aparecendo aos que o aguardam? Ou por que, então, não é reconhecido pelos que há muito o esperam?, que resposta, amigos, quereríeis que déssemos às vossas perguntas? Qual classe de milagres, no vosso juízo, considerais a maior? Os que foram realizados no Egito e no deserto, ou os que declaramos que Jesus realizou entre vós? Pois, se os primeiros, na vossa opinião, são maiores que os segundos, não parece, por este próprio fato, estar em conformidade com o caráter dos que descreram nos maiores desprezar os menores? E é esta a opinião que se tem a respeito dos nossos relatos dos milagres de Jesus. Mas, se os relatados de Jesus são considerados tão grandes quanto os registrados de Moisés, que coisa estranha aconteceu numa nação que manifestou incredulidade quanto ao início de ambas as dispensações? Pois o começo da legislação foi no tempo de Moisés, em cuja obra se registram os pecados dos incrédulos e ímpios dentre vós, enquanto o começo da nossa legislação e segunda aliança é reconhecido como tendo sido no tempo de Jesus. E, pela vossa incredulidade quanto a Jesus, mostrais que sois os filhos daqueles que, no deserto, descreram das aparições divinas; e assim o que foi dito pelo nosso Salvador será aplicável também a vós, que não crestes nele: Portanto, dais testemunho de que aprovais as obras dos vossos pais. E se cumpre entre vós também a profecia que disse: A vossa vida estará suspensa em dúvida diante dos vossos olhos, e não tereis segurança da vossa vida. Pois não crestes na vida que veio visitar a raça humana.
Celso, adotando o personagem de um judeu, não conseguiu descobrir nenhuma objeção a ser levantada contra o Evangelho que não pudesse voltar-se contra ele, por ser passível de ser levantada também contra a lei e os profetas. Pois ele censura Jesus com palavras como estas: Ele faz uso de ameaças e injuria homens por motivos fúteis, quando diz Ai de vós e Eu vos digo de antemão. Pois, com tais expressões, ele manifestamente reconhece a sua incapacidade de persuadir; e este não seria o caso de um Deus, nem mesmo de um homem prudente. Observe, agora, se estas acusações não recaem manifestamente sobre o judeu. Pois, nos escritos da lei e dos profetas, Deus faz uso de ameaças e injúrias, quando emprega linguagem de severidade não menor que a encontrada no Evangelho, como as seguintes expressões de Isaías: Ai dos que ajuntam casa a casa, e acrescentam campo a campo; e: Ai dos que se levantam cedo de manhã para correr atrás da bebida forte; e: Ai dos que arrastam os seus pecados como com uma longa corda; e: Ai dos que chamam ao mal bem, e ao bem mal; e: Ai daqueles dentre vós que são valentes para beber vinho; e inúmeras outras passagens do mesmo tipo. E o que se segue não se assemelha às ameaças de que ele fala: Ah, nação pecadora, povo carregado de iniquidade, descendência de malfeitores, filhos corruptores? E assim por diante, ao que ele acrescenta ameaças tão severas quanto as que, segundo diz, Jesus usou. Pois não é uma ameaça, e grande, a que declara: A vossa terra está desolada, as vossas cidades estão queimadas a fogo; a vossa terra, estranhos a devoram na vossa presença, e ela está desolada, como destruída por estranhos? E não há injúrias em Ezequiel dirigidas ao povo, quando o Senhor diz ao profeta: Habitas no meio de escorpiões? Falavas a sério, então, Celso, ao representar o judeu dizendo de Jesus que ele faz uso de ameaças e injúrias por motivos fúteis, quando emprega as expressões Ai de vós e Eu vos digo de antemão? Você não vê que as acusações que este vosso judeu levanta contra Jesus poderiam ser levantadas por ele contra Deus? Pois o Deus que fala nos escritos proféticos é manifestamente passível das mesmas acusações, segundo Celso as considera, de incapacidade de persuadir. Eu poderia, além disso, dizer a este judeu, que pensa fazer uma boa acusação contra Jesus com tais afirmações, que, se ele se propuser, em apoio ao relato das Escrituras, a defender as numerosas maldições registradas nos livros de Levítico e Deuteronômio, faríamos uma defesa tão boa, ou melhor, das injúrias e ameaças que se consideram terem sido ditas por Jesus. E, quanto à própria lei de Moisés, estamos em posição de fazer uma defesa dela melhor que o judeu, porque fomos ensinados por Jesus a ter uma apreensão mais inteligente dos escritos da lei. Mais ainda: se o judeu perceber o sentido das Escrituras proféticas, poderá mostrar que não é por motivo fútil que Deus emprega ameaças e injúrias quando diz Ai de vós e Eu vos digo de antemão. E como poderia Deus empregar tais expressões para a conversão dos homens, às quais Celso pensa que nem mesmo um homem prudente recorreria? Mas os cristãos, que conhecem um só Deus (o mesmo que falou nos profetas e no Senhor Jesus), podem provar a razoabilidade dessas ameaças e injúrias, como Celso as considera e intitula. E aqui dirigiremos algumas observações a este Celso, que se declara filósofo e conhecedor de todo o nosso sistema. Como é, amigo, que, quando Hermes, em Homero, diz a Odisseu Por que, agora, ó infeliz, vens vagando sozinho pelos cumes dos montes?, você se satisfaz com a explicação de que o Hermes homérico dirige tal linguagem a Odisseu para lembrá-lo do seu dever, porque é próprio das Sereias lisonjear e dizer coisas agradáveis, em torno das quais há um enorme monte de ossos, e que dizem Vem para cá, ó muito louvado Odisseu, grande glória dos gregos; ao passo que, se os nossos profetas e o próprio Jesus, a fim de afastar os seus ouvintes do mal, usam expressões como Ai de vós e o que considerais injúrias, não há nessa linguagem condescendência alguma com as circunstâncias dos ouvintes, nem qualquer aplicação de tais palavras a eles como remédio curador? A não ser, é claro, que você queira que Deus, ou alguém que participa da natureza divina, ao conversar com os homens, atente só para a sua própria natureza, e para o que é digno de si mesmo, mas não atente para o que convém apresentar a homens que estão sob a dispensação e a condução da sua palavra, e com cada um dos quais ele há de conversar de acordo com o seu caráter individual. E não é uma afirmação ridícula, a respeito de Jesus, dizer que ele foi incapaz de persuadir os homens, quando você compara o estado das coisas não só entre os judeus, que têm muitos casos desses registrados nas profecias, mas também entre os gregos, entre os quais todos os que alcançaram grande reputação pela sua sabedoria foram incapazes de persuadir os que conspiraram contra eles, ou de induzir os seus juízes ou acusadores a cessar do mal, e a se esforçar por alcançar a virtude pelo caminho da filosofia?
Depois disto, o judeu observa, manifestamente de acordo com a crença judaica: Nós certamente esperamos que haverá uma ressurreição corporal, e que desfrutaremos de uma vida eterna; e o exemplo e arquétipo disso será aquele que nos é enviado, e que mostrará que nada é impossível para Deus. Não sabemos, de fato, se o judeu diria do Cristo esperado que ele exibe em si mesmo um exemplo da ressurreição; mas suponhamos que ele assim pense e diga. Daremos, então, esta resposta àquele que nos disse que tirou as suas informações dos nossos próprios escritos: Leste aqueles escritos, amigo, nos quais pensas descobrir matéria de acusação contra nós, e não encontraste ali a ressurreição de Jesus, e a declaração de que ele foi o primogênito dentre os mortos? Ou, porque não admites que tais coisas tenham sido registradas, elas não foram de fato registradas? Mas, como o judeu ainda admite a ressurreição do corpo, não considero o momento presente adequado para discutir o assunto com alguém que crê e diz que há uma ressurreição corporal, quer ele tenha uma compreensão articulada de tal tema, e seja capaz de defendê-la bem, quer não, mas apenas tenha dado o seu assentimento a ela como sendo de caráter lendário. Fique, então, o acima como nossa resposta a este judeu de Celso. E, quando ele acrescenta Onde está ele, então, para que o vejamos e creiamos nele?, respondemos: Onde está agora aquele que falou nas profecias, e que realizou milagres, para que o vejamos e creiamos que ele é parte de Deus? Há de se vos permitir enfrentar a objeção de que Deus não se mostra perpetuamente à nação hebraica, enquanto a nós não se há de permitir a mesma defesa a respeito de Jesus, que tanto ressuscitou ele mesmo uma vez, quanto levou os seus discípulos a crer na sua ressurreição, e tão completamente os persuadiu da sua verdade, que eles mostram a todos os homens, pelos seus sofrimentos, como são capazes de rir de todas as aflições da vida, contemplando a vida eterna e a ressurreição claramente demonstradas a eles tanto em palavra quanto em obra?
O judeu continua: Jesus veio ao mundo com este propósito, que não crêssemos nele? Ao que respondemos de imediato que ele não veio com o objetivo de produzir incredulidade entre os judeus; mas, sabendo de antemão que esse seria o resultado, ele o predisse, e fez uso da incredulidade deles para o chamado dos gentios. Pois, pelo pecado deles, a salvação veio aos gentios, a respeito dos quais o Cristo que fala nas profecias diz: Um povo que eu não conhecia ficou sujeito a mim; foram obedientes ao ouvir do meu ouvido; e: Fui achado pelos que não me buscavam; tornei-me manifesto aos que não indagavam de mim. É certo, além disso, que os judeus foram punidos até nesta vida presente, depois de tratarem Jesus do modo como o fizeram. E que os judeus afirmem o que quiserem quando os acusamos de culpa, e digamos: Não se manifestam de modo maravilhosíssimo a providência e a bondade de Deus na vossa punição, e em serdes privados de Jerusalém, e do santuário, e do vosso esplêndido culto? Pois, seja o que for que respondam a respeito da providência de Deus, poderemos responder de modo mais eficaz observando que a providência de Deus se manifestou de modo maravilhoso ao usar a transgressão daquele povo com o propósito de chamar ao reino de Deus, por meio de Jesus Cristo, aqueles dentre os gentios que eram estranhos à aliança e alheios às promessas. E essas coisas foram preditas pelos profetas, que disseram que, por causa das transgressões da nação hebraica, Deus escolheria, não uma nação, mas indivíduos escolhidos de todas as terras; e, tendo selecionado as coisas tolas do mundo, faria com que uma nação ignorante se familiarizasse com o ensino divino, sendo o reino de Deus tirado de uns e dado a outros. E, de um número maior, basta na presente ocasião apresentar a predição do cântico em Deuteronômio a respeito do chamado dos gentios, que é a seguinte, dita na pessoa do Senhor: Eles me provocaram a ciúmes com aqueles que não são deuses; provocaram-me à ira com os seus ídolos: e eu os provocarei a ciúmes com os que não são um povo; provocá-los-ei à ira com uma nação tola.
A conclusão de todos estes argumentos a respeito de Jesus é assim formulada pelo judeu: Ele era, portanto, um homem, e de tal natureza, como a própria verdade prova e a razão demonstra que ele era. Não sei, no entanto, se um homem que teve a coragem de espalhar pelo mundo inteiro a sua doutrina de culto e ensino religioso poderia realizar o que desejava sem o auxílio divino, e poderia erguer-se acima de todos os que resistiram ao progresso da sua doutrina: reis e governantes, e o senado romano, e governadores em todos os lugares, e o povo comum. E como poderia a natureza de um homem sem nenhuma excelência inerente converter multidão tão vasta? Pois não seria admirável se fossem só os sábios os assim reunidos; mas são os mais irracionais dos homens, e os entregues às suas paixões, e que, por causa da sua irracionalidade, mudam com maior dificuldade para adotar um curso de vida mais moderado. E, no entanto, é porque Cristo era o poder de Deus e a sabedoria do Pai que ele realizou, e ainda realiza, tais resultados, embora nem os judeus nem os gregos que descreem da sua palavra o admitam. E, portanto, não deixaremos de crer em Deus, segundo os preceitos de Jesus Cristo, e de procurar converter os que são cegos no tema da religião, embora sejam eles próprios, que são verdadeiramente cegos, que nos acusam de cegueira; e eles, sejam judeus ou gregos, que desviam os que os seguem, acusam-nos de seduzir homens, uma boa sedução, na verdade!, para que se tornem moderados em vez de dissolutos, ou ao menos avancem rumo à moderação; para que se tornem justos em vez de injustos, ou ao menos tendam a sê-lo; prudentes em vez de tolos, ou estejam a caminho de tornar-se tais; e, em lugar da covardia, da mesquinhez e da timidez, exibam as virtudes da fortaleza e da coragem, especialmente demonstradas nas lutas suportadas por causa da sua religião para com Deus, o Criador de todas as coisas. Jesus Cristo, portanto, veio anunciado de antemão, não por um profeta, mas por todos; e foi prova da ignorância de Celso representar um judeu dizendo que só um profeta predisse a vinda de Cristo. Mas, como este judeu de Celso, depois de assim introduzido, afirmando que essas coisas estavam de fato em conformidade com a sua própria lei, encerrou em algum ponto aqui o seu discurso, com a menção de outros assuntos não dignos de lembrança, eu também encerrarei aqui este segundo livro da minha resposta ao seu tratado. Mas, se Deus permitir, e o poder de Cristo permanecer na minha alma, procurarei, no terceiro livro, tratar das afirmações seguintes de Celso.