Contra Celso - Livro II 3

As objeções do judeu de Celso contra Jesus

Vejamos como ele continua depois disso: Esses eventos, ele diz, ele os predisse como sendo um Deus, e a predição tinha por força que se cumprir. Deus, portanto, que acima de todos os outros deveria fazer o bem aos homens, e especialmente aos de sua própria casa, levou seus próprios discípulos e profetas, com quem costumava comer e beber, a tamanho grau de maldade, que se tornaram homens ímpios e profanos. Ora, de fato, quem partilhava a mesa de um homem não seria culpado de conspirar contra ele; mas, depois de banquetear com Deus, ele se tornou um conspirador. E, o que é ainda mais absurdo, o próprio Deus tramou contra os membros de sua própria mesa, transformando-os em traidores e vilões! Ora, que você quer que eu responda até a essas acusações de Celso que me parecem frívolas, eis a nossa resposta a tais afirmações. Celso imagina que um evento, predito por meio de presciência, acontece porque foi predito; mas nós não admitimos isso, sustentando que aquele que o predisse não foi a causa de seu acontecimento, por ter predito que aconteceria; mas o próprio evento futuro, que teria acontecido ainda que não predito, deu a ocasião, àquele que era dotado de presciência, de predizer sua ocorrência. Ora, certamente este resultado está presente à presciência daquele que prediz um evento, quando é possível que ele aconteça ou não, a saber, que uma ou outra dessas coisas acontecerá. Pois nós não afirmamos que aquele que conhece de antemão um evento, removendo secretamente a possibilidade de ele acontecer ou não, faça uma declaração como esta: Isto acontecerá infalivelmente, e é impossível que seja de outro modo. E essa observação se aplica a toda a presciência de eventos que dependem de nós mesmos, esteja ela contida nas sagradas Escrituras ou nas histórias dos gregos. Ora, o que os lógicos chamam de argumento preguiçoso, que é um sofisma, não será nenhum sofisma na medida em que depender de Celso, mas, segundo o raciocínio correto, é um sofisma. E para que isso se veja, tomarei das Escrituras as predições a respeito de Judas, ou a presciência do nosso Salvador a respeito dele como o traidor; e das histórias gregas, o oráculo que foi dado a Laio, admitindo por ora sua veracidade, que isso não afeta o argumento. Ora, no Salmo 108, fala-se de Judas pela boca do Salvador, em palavras que começam assim: Não te cales, ó Deus do meu louvor; pois a boca do ímpio e a boca do enganador se abriram contra mim. Ora, se você observar com cuidado o conteúdo do salmo, verá que, assim como se sabia de antemão que ele trairia o Salvador, também ele foi considerado a causa da traição, e merecedor, por causa de sua maldade, das imprecações contidas na profecia. Pois, que ele sofra estas coisas, diz o salmista, porque não se lembrou de mostrar misericórdia, mas perseguiu o homem pobre e necessitado. Logo, era possível a ele mostrar misericórdia, e não perseguir aquele que de fato perseguiu. Mas, embora pudesse ter feito essas coisas, não as fez, e sim levou adiante o ato de traição, de modo a merecer as maldições pronunciadas contra ele na profecia. E, em resposta aos gregos, citaremos a seguinte resposta oracular a Laio, conforme registrada pelo poeta trágico, seja nas palavras exatas do oráculo, seja em termos equivalentes. Os eventos futuros lhe são assim revelados pelo oráculo: Não tentes gerar filhos contra a vontade dos deuses. Pois, se gerares um filho, teu filho te matará; e toda a tua casa se banhará em sangue. Ora, disto fica claro que estava no poder de Laio não tentar gerar filhos, pois o oráculo não teria ordenado algo impossível; e estava também em seu poder fazer o contrário, de modo que nenhum desses caminhos era obrigatório. E a consequência de não se precaver contra a geração de filhos foi que ele sofreu, por causa disso, as calamidades descritas nas tragédias sobre Édipo, Jocasta e seus filhos. Ora, o que se chama de argumento preguiçoso, sendo um sofisma capcioso, é tal como se poderia aplicar, digamos, no caso de um doente, com o objetivo de impedi-lo, por sofisma, de recorrer a um médico para promover sua cura; e é algo assim: Se está decretado que você se recuperará de sua doença, você se recuperará, quer chame um médico ou não; mas, se está decretado que você não se recuperará, você não se recuperará, quer chame um médico ou não. Mas está certamente decretado, ou que você se recuperará, ou que você não se recuperará; e, portanto, é em vão que você chama um médico. Ora, com esse argumento o seguinte pode ser espirituosamente comparado: Se está decretado que você gerará filhos, você os gerará, quer tenha relações com uma mulher ou não. Mas, se está decretado que você não gerará filhos, você não os gerará, quer tenha relações com uma mulher ou não. Ora, está certamente decretado, ou que você gerará filhos, ou que não; portanto, é em vão que você tem relações com uma mulher. Pois, assim como no último exemplo a relação com uma mulher não é empregada em vão, que é uma impossibilidade total que aquele que não a usa gere filhos; assim, no primeiro, se a cura da doença de ser realizada por meio da arte de curar, é necessário que se chame o médico, e por isso é falso dizer que em vão se chama um médico. Apresentamos todas essas ilustrações por causa da afirmação deste erudito Celso, de que, sendo um Deus, ele predisse essas coisas, e as predições tinham por força que se cumprir. Ora, se por por força ele quer dizer necessariamente, não podemos admiti-lo. Pois era perfeitamente possível, também, que elas não acontecessem. Mas, se ele usa por força no sentido de simples futuridade, que nada impede de ser verdadeira (embora fosse possível que não acontecessem), ele não toca de modo nenhum no meu argumento; nem se seguia, do fato de Jesus ter predito os atos do traidor ou do perjuro, que isso fosse o mesmo que ele ser a causa de procedimentos tão ímpios e profanos. Pois aquele que estava entre nós, e sabia o que havia no homem, vendo sua disposição, e prevendo o que ele tentaria, por seu espírito de cobiça e por sua falta de ideias firmes de dever para com o Mestre, junto com muitas outras declarações, proferiu também esta: Aquele que mergulha a mão comigo no prato, esse me trairá.