Contra Celso - Livro II 5
As objeções do judeu de Celso contra Jesus
E como pode a seguinte afirmação desse judeu de Celso parecer outra coisa senão uma falsidade evidente, a saber, que Jesus, não tendo conquistado ninguém durante a sua vida, nem mesmo os seus próprios discípulos, sofreu esses castigos e tormentos? Pois de que outra fonte brotou a inveja que foi despertada contra ele pelos sumos sacerdotes judeus, e pelos anciãos, e pelos escribas, senão do fato de que multidões lhe obedeciam e o seguiam, e eram levadas aos desertos não só pela linguagem persuasiva daquele cujas palavras eram sempre apropriadas aos seus ouvintes, mas que também, pelos seus milagres, causava impressão sobre os que não eram movidos à crença pelas suas palavras? E não é uma falsidade evidente dizer que ele não conquistou nem mesmo os seus próprios discípulos, que de fato exibiram, naquele momento, alguns sintomas de fraqueza humana decorrentes de um medo covarde (pois ainda não tinham sido disciplinados para a demonstração de plena coragem), mas que de modo algum abandonaram os juízos que haviam formado a respeito dele como o Cristo? Pois Pedro, depois da sua negação, percebendo a que profundidade de perversidade havia caído, saiu e chorou amargamente; enquanto os outros, embora abalados de consternação por causa do que havia acontecido a Jesus (pois ainda continuavam a admirá-lo), tiveram, pelo seu glorioso aparecimento, a sua crença mais firmemente estabelecida do que antes de que ele era o Filho de Deus.
É, além disso, em espírito muito pouco filosófico que Celso imagina que a preeminência do nosso Senhor entre os homens consistia, não na pregação da salvação e numa moralidade pura, mas em agir de modo contrário ao caráter daquela condição humana que ele havia tomado sobre si, e em não morrer, embora tivesse assumido a mortalidade; ou, se morresse, ao menos não uma morte como a que pudesse servir de modelo aos que haveriam de aprender, por esse mesmo ato, como morrer por causa da religião, e como se conduzir com ousadia, com a ajuda dela, diante daqueles que têm opiniões errôneas sobre o tema da religião e da irreligião, e que consideram os homens religiosos como totalmente irreligiosos, mas imaginam serem os mais religiosos aqueles que erram a respeito de Deus, e que aplicam a tudo, antes que a Deus, a ideia inextirpável dele (que está implantada na mente humana), e especialmente quando se lançam avidamente a destruir os que se entregaram de toda a alma (até a morte) à clara evidência de um só Deus que está acima de todas as coisas.
Na pessoa do judeu, Celso continua a censurar Jesus, alegando que ele não se mostrou puro de todo mal. Que Celso diga de que mal nosso Senhor não se mostrou puro. Se ele quer dizer que Jesus não foi puro daquilo que propriamente se chama mal, que prove com clareza a existência de alguma obra perversa nele. Mas se ele considera a pobreza e a cruz como males, e também a conspiração de homens perversos, então fica claro que ele teria de dizer que o mal também aconteceu a Sócrates, que não conseguiu mostrar-se puro de males. E quão grande foi também o outro grupo de homens pobres entre os gregos, que se dedicaram às atividades filosóficas e aceitaram voluntariamente uma vida de pobreza, isso é conhecido por muitos entre os gregos a partir do que se conta de Demócrito, que deixou suas propriedades virarem pasto para ovelhas; e de Crates, que obteve sua liberdade entregando aos tebanos o valor recebido pela venda de seus bens. Mais ainda, até o próprio Diógenes, por causa da pobreza extrema, passou a viver dentro de um barril; e, no entanto, na opinião de ninguém que tivesse entendimento razoável, Diógenes foi por isso considerado em uma condição má (pecaminosa).
Mas, além disso, já que Celso insiste em afirmar que Jesus não era irrepreensível, que aponte qualquer um dos que seguem sua doutrina e que tenha registrado algo capaz de fornecer de verdade motivo de censura contra Jesus; ou, se não é dessas pessoas que ele tira sua acusação contra ele, que diga de onde aprendeu aquilo que o levou a afirmar que ele não está livre de censura. Jesus, no entanto, cumpriu tudo o que prometeu fazer, e pelo qual concedeu benefícios aos seus seguidores. E nós, vendo continuamente cumprir-se tudo o que ele predisse antes de acontecer, ou seja, que este seu Evangelho seria pregado pelo mundo inteiro, e que seus discípulos iriam a todas as nações anunciar a sua doutrina; e, ainda, que seriam levados diante de governadores e reis por nenhum outro motivo senão por causa do seu ensino; nós nos enchemos de admiração por ele, e temos nossa fé nele confirmada a cada dia. E não sei por meio de quais provas maiores ou mais convincentes Celso quereria que ele confirmasse suas predições; a menos que, como parece ser o caso, ele, por não compreender que o Logos se tornara o homem Jesus, quisesse que ele não estivesse sujeito a nenhuma fraqueza humana, nem se tornasse um exemplo ilustre para os homens sobre como devem suportar as calamidades da vida, embora estas pareçam a Celso ocorrências lamentabilíssimas e vergonhosas, visto que ele considera o sofrimento o maior dos males, e o prazer o bem perfeito, uma visão aceita por nenhum dos filósofos que admitem a doutrina da providência, e que reconhecem que a coragem, a fortaleza e a magnanimidade são virtudes. Jesus, portanto, com seus sofrimentos, em nada desacreditou a fé de que era objeto; mas antes a confirmou entre os que aprovam a coragem viril, e entre aqueles a quem ele ensinou que a vida verdadeira e propriamente feliz não está aqui embaixo, mas se encontra naquilo que, segundo suas próprias palavras, se chamava o mundo vindouro; ao passo que, no que se chama o mundo presente, a vida é uma calamidade, ou ao menos a primeira e maior luta da alma.
Celso em seguida nos dirige a seguinte observação: Suponho que você não dirá dele que, depois de não ter conseguido conquistar os que estavam neste mundo, foi ao Hades conquistar os que lá estavam. Mas, queira ele ou não, nós afirmamos que não só enquanto Jesus esteve no corpo ele conquistou não apenas algumas poucas pessoas, mas um número tão grande que se formou uma conspiração contra ele por causa da multidão dos seus seguidores; mas também que, quando ele se tornou uma alma, sem o revestimento do corpo, habitou entre aquelas almas que estavam sem revestimento corpóreo, convertendo a si mesmo as que estavam dispostas, ou aquelas que, por razões conhecidas só por ele, ele via serem mais aptas a tal caminho.
Celso, em seguida, diz, com indescritível tolice: Se, depois de inventar defesas que são absurdas, e pelas quais você se iludiu ridiculamente, você imagina que faz de fato uma boa defesa, o que o impede de considerar aqueles outros indivíduos que foram condenados e morreram de morte miserável como mensageiros do céu maiores e mais divinos (do que Jesus)? Ora, que de modo manifesto e claro não há semelhança alguma entre Jesus, que sofreu o que foi descrito, e aqueles que morreram de morte miserável por causa de sua feitiçaria, ou de qualquer outra acusação que pese contra eles, isso é evidente a todos. Pois ninguém pode apontar quaisquer atos de um feiticeiro que tenham afastado as almas da prática dos muitos pecados que prevalecem entre os homens, e da enxurrada de perversidade (no mundo). Mas, como este judeu de Celso o compara a salteadores, e diz que qualquer sujeito igualmente desavergonhado seria capaz de afirmar, a respeito até de um salteador e assassino a quem o castigo tivesse alcançado, que tal homem não era um salteador, mas um deus, porque predisse a seus companheiros de bando que sofreria o mesmo castigo que de fato sofreu, poder-se-ia, em primeiro lugar, responder que não é por ele ter predito que sofreria tais coisas que mantemos a respeito de Jesus as opiniões que nos levam a confiar nele, como aquele que desceu até nós da parte de Deus. E, em segundo lugar, afirmamos que essa mesma comparação foi de certo modo predita nos Evangelhos; pois Deus foi contado com os transgressores por homens perversos, que preferiram que um assassino (alguém que por sedição e homicídio fora lançado na prisão) lhes fosse solto, e que Jesus fosse crucificado, e que o crucificaram entre dois salteadores. Jesus, de fato, é sempre crucificado com salteadores entre seus verdadeiros discípulos e testemunhas da verdade, e sofre a mesma condenação que eles entre os homens. E dizemos que, se essas pessoas têm alguma semelhança com salteadores, elas que por causa de sua piedade para com Deus sofrem todo tipo de injúria e morte, para mantê-la pura e sem mancha, segundo o ensino de Jesus, então fica claro também que Jesus, o autor de tal ensino, é com boa razão comparado por Celso ao chefe de um bando de salteadores. Mas nem aquele que morreu pelo bem comum da humanidade, nem aqueles que sofreram por causa de sua religião, e que, sozinhos entre todos os homens, foram perseguidos por causa do que lhes parecia o modo certo de honrar a Deus, foram mortos de acordo com a justiça, nem foi Jesus perseguido sem que a acusação de impiedade recaísse sobre os seus perseguidores.
Mas observe a natureza superficial do argumento dele a respeito dos antigos discípulos de Jesus, em que ele diz: Em seguida, aqueles que foram seus companheiros enquanto vivo, e que ouviram a sua voz, e desfrutaram dos seus ensinamentos como discípulos do seu mestre, ao vê-lo submetido ao castigo e à morte, nem morreram com ele, nem por ele, nem foram sequer levados a olhar o castigo com desprezo, mas negaram até que eram seus discípulos, ao passo que agora vocês morrem junto com ele. E aqui ele admite que o pecado que foi cometido pelos discípulos enquanto ainda eram iniciantes e imperfeitos, e que está registrado nos Evangelhos, de fato ocorreu, para ter material de acusação contra o Evangelho; mas a conduta reta deles após sua transgressão, quando agiram com coragem diante dos judeus, e sofreram incontáveis crueldades às mãos deles, e por fim sofreram a morte pela doutrina de Jesus, isso ele passa em silêncio. Pois ele não quereria ouvir as palavras de Jesus, quando este predisse a Pedro: Quando fores velho, estenderás as tuas mãos, etc., ao que a Escritura acrescenta: Isto ele disse, indicando com que morte ele glorificaria a Deus; nem como Tiago, o irmão de João (um apóstolo, irmão de um apóstolo) foi morto à espada por Herodes pela doutrina de Cristo; nem mesmo os muitos casos de ousadia mostrados por Pedro e os demais apóstolos por causa do Evangelho, e como eles saíram da presença do Sinédrio depois de açoitados, alegrando-se por terem sido considerados dignos de sofrer afronta pelo nome dele, e assim superando muitos dos casos relatados pelos gregos sobre a fortaleza e a coragem de seus filósofos. Desde o começo, então, isto foi inculcado como um preceito de Jesus entre os seus ouvintes, e ensinava os homens a desprezar a vida que é ansiosamente buscada pela multidão, mas a empenhar-se em viver a vida que se assemelha à de Deus.
Mas como pode este judeu de Celso escapar da acusação de falsidade, quando diz que Jesus, quando esteve na terra, conquistou para si apenas dez marinheiros e cobradores de impostos do caráter mais desprezível, e nem mesmo todos esses? Ora, é certo que os próprios judeus admitiriam que ele atraiu não meramente dez pessoas, nem cem, nem mil, mas em uma ocasião cinco mil de uma vez, e em outra quatro mil; e que os atraiu a tal ponto que o seguiram até mesmo aos desertos, que eram o único lugar capaz de conter a multidão reunida dos que criam em Deus por meio de Jesus, e onde ele não só lhes dirigiu discursos, mas também lhes manifestou as suas obras. E agora, com sua repetição, ele nos obriga também a ser repetitivos, já que tomamos cuidado para que não se suponha que deixamos passar qualquer das acusações por ele apresentadas; e por isso, a respeito do assunto diante de nós, seguindo a ordem do tratado dele tal como o temos, ele diz: Não é o cúmulo do absurdo sustentar que, se enquanto ele mesmo estava vivo não conquistou uma única pessoa para suas ideias, depois de sua morte quaisquer que o desejem são capazes de conquistar uma multidão tão grande de indivíduos? Ao passo que ele deveria ter dito, em coerência com a verdade, que se, depois da morte dele, não simplesmente os que quiserem, mas os que têm a vontade e o poder, podem conquistar tantos prosélitos, quão mais conforme à razão é que, enquanto ele estava vivo, devesse, pelo maior poder de suas palavras e de seus feitos, ter conquistado para si um número muitas vezes maior de seguidores?
Além disso, ele apresenta uma afirmação sua como se fosse uma resposta a uma de suas próprias perguntas, na qual indaga: Por que cadeia de raciocínio você foi levado a considerá-lo o Filho de Deus? Pois ele nos faz responder que fomos conquistados por ele porque sabemos que seu castigo foi sofrido para realizar a destruição do pai do mal. Ora, fomos conquistados para a sua doutrina por inumeráveis outras considerações, das quais expusemos apenas a menor parte nas páginas anteriores; mas, se Deus permitir, continuaremos a enumerá-las, não só ao tratar do chamado Discurso Verdadeiro de Celso, mas também em muitas outras ocasiões. E, como se nós disséssemos que o consideramos o Filho de Deus por ele ter sofrido o castigo, ele pergunta: E daí? Não foram muitos outros também castigados, e isso de modo não menos vergonhoso? E aqui Celso age como os mais desprezíveis inimigos do Evangelho, e como aqueles que imaginam que se segue como consequência da nossa narrativa do Jesus crucificado que devêssemos adorar os que sofreram crucificação!
Celso, além disso, incapaz de resistir aos milagres que se registra que Jesus realizou, já em várias ocasiões falou deles caluniosamente como obras de feitiçaria; e nós também, em várias ocasiões, respondemos, na medida do possível, às suas afirmações. E agora ele nos representa dizendo que considerávamos Jesus o Filho de Deus porque ele curou os coxos e os cegos. E acrescenta: Mais ainda, como vocês afirmam, ele ressuscitou os mortos. Que ele curou os coxos e os cegos, e que por isso o temos por Cristo e Filho de Deus, isso nos é manifesto pelo que está contido nas profecias: Então os olhos dos cegos se abrirão, e os ouvidos dos surdos ouvirão; então o coxo saltará como o cervo. E que ele também ressuscitou os mortos, e que não é invenção dos que compuseram os Evangelhos, mostra-se por isto: se tivesse sido uma invenção, muitos indivíduos teriam sido apresentados como tendo ressuscitado dentre os mortos, e estes, ainda por cima, sendo gente que já estivera muitos anos no túmulo. Mas, como não é invenção, contam-se com muita facilidade aqueles a respeito de quem isto é relatado ter acontecido; a saber: a filha do chefe da sinagoga (de quem não sei por que ele disse: Ela não está morta, mas dorme, afirmando a respeito dela algo que não se aplica a todos os que morrem); e o filho único da viúva, de quem ele teve compaixão e a quem ressuscitou, fazendo parar os que carregavam o cadáver; e o terceiro caso, o de Lázaro, que estivera quatro dias no túmulo. Ora, a respeito desses casos, diríamos a todas as pessoas de mente honesta, e especialmente ao judeu, que assim como havia muitos leprosos nos dias do profeta Eliseu, e nenhum deles foi curado a não ser Naamã, o sírio, e muitas viúvas nos dias do profeta Elias, a nenhuma das quais Elias foi enviado a não ser à de Sarepta de Sidônia (pois a viúva de lá fora considerada digna, por um decreto divino, do milagre que o profeta realizou no caso do pão); assim também havia muitos mortos nos dias de Jesus, mas só ressuscitaram do túmulo aqueles que o Logos sabia estarem aptos para uma ressurreição, a fim de que as obras feitas pelo Senhor não fossem meros símbolos de certas coisas, mas para que, pelos próprios atos, ele conquistasse muitos para a admirável doutrina do Evangelho. Eu diria, além disso, que, conforme a promessa de Jesus, seus discípulos realizaram obras ainda maiores do que esses milagres de Jesus, que eram perceptíveis apenas aos sentidos. Pois os olhos dos que são cegos de alma estão sempre sendo abertos; e os ouvidos dos que eram surdos às palavras virtuosas escutam de bom grado a doutrina de Deus, e da vida bem-aventurada com ele; e muitos também, que eram coxos nos pés do homem interior, como a Escritura o chama, tendo sido agora curados pela palavra, não simplesmente saltam, mas saltam como o cervo, que é um animal hostil às serpentes, e mais forte do que todo o veneno das víboras. E esses coxos que foram curados recebem de Jesus poder para pisar, com aqueles mesmos pés em que antes eram coxos, sobre as serpentes e os escorpiões da perversidade, e de modo geral sobre todo o poder do inimigo; e, embora pisem sobre ele, não sofrem dano algum, pois também se tornaram mais fortes do que o veneno de todo mal e dos demônios.
Jesus, por conseguinte, ao desviar a mente de seus discípulos, não apenas de dar atenção aos feiticeiros em geral, e aos que se dizem capazes de realizar milagres de qualquer outro modo (pois seus discípulos não precisavam ser advertidos quanto a isso), mas daqueles que se faziam passar pelo Cristo de Deus, e que tentavam, por certos milagres aparentes, conquistar para si os discípulos de Jesus, disse em certa passagem: Então, se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo, ou ali; não acrediteis. Pois surgirão falsos cristos e falsos profetas, e farão grandes sinais e prodígios, de modo que, se possível fosse, enganariam até os escolhidos. Eis que vo-lo predisse. Portanto, se vos disserem: Eis que ele está no deserto, não saiais; eis que está nos aposentos secretos, não acrediteis. Pois assim como o relâmpago sai do oriente e brilha até o ocidente, assim também será a vinda do Filho do homem. E em outra passagem: Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não comemos e bebemos em teu nome, e em teu nome não expulsamos demônios, e não fizemos muitas obras maravilhosas? E então lhes direi: Apartai-vos de mim, porque sois praticantes da iniquidade. Mas Celso, querendo igualar os milagres de Jesus às obras da feitiçaria humana, diz nos seguintes termos expressos: Ó luz e verdade! Ele declara distintamente, com sua própria voz, como vocês mesmos registraram, que virão a vocês também outros, empregando milagres de espécie semelhante, que são homens perversos e feiticeiros; e ele chama aquele que se vale de tais artifícios de Satanás. De modo que o próprio Jesus não nega que ao menos estas obras não sejam em nada divinas, mas sejam atos de homens perversos; e, compelido pela força da verdade, ele ao mesmo tempo não só expôs os feitos de outros, mas convenceu a si mesmo dos mesmos atos. Não é, então, uma inferência miserável concluir, a partir das mesmas obras, que um é Deus e os outros são feiticeiros? Por que os outros, por causa desses atos, deveriam ser tidos por perversos em vez deste homem, visto que eles o têm como testemunha contra si mesmo? Pois ele mesmo reconheceu que estas não são obras de uma natureza divina, mas as invenções de certos enganadores, e de homens completamente perversos. Observe, agora, se Celso não está claramente convicto de caluniar o Evangelho com tais afirmações, já que o que Jesus diz a respeito dos que hão de realizar sinais e prodígios é diferente do que este judeu de Celso alega que seja. Pois se Jesus tivesse simplesmente dito a seus discípulos para se acautelarem dos que se diziam capazes de realizar milagres, sem declarar o que eles afirmariam ser, então talvez houvesse algum fundamento para a suspeita dele. Mas, já que aqueles dos quais Jesus quer que nos acautelemos se fazem passar pelo Cristo (o que não é uma pretensão apresentada por feiticeiros), e já que ele diz que até alguns que levam vidas perversas realizarão milagres em nome de Jesus, e expulsarão demônios dos homens, a feitiçaria no caso desses indivíduos, ou qualquer suspeita dela, fica antes, se assim podemos dizer, totalmente afastada, e estabelecida a divindade de Cristo, bem como a missão divina de seus discípulos; visto que é possível que alguém que se vale do nome dele, e que é movido por algum poder, de algum modo desconhecido, a fingir ser o Cristo, pareça realizar milagres como os de Jesus, enquanto outros, por meio do nome dele, façam obras semelhantes às de seus verdadeiros discípulos. Paulo, além disso, na segunda Epístola aos Tessalonicenses, mostra de que maneira será um dia revelado o homem do pecado, o filho da perdição, que se opõe e se exalta acima de tudo o que se chama Deus, ou que é adorado; de modo que se assenta no templo de Deus, mostrando a si mesmo que é Deus. E novamente ele diz aos tessalonicenses: E agora sabeis o que o detém, para que ele seja revelado a seu tempo. Pois o mistério da iniquidade já opera; só que aquele que agora o detém o deterá, até que seja afastado do caminho; e então será revelado aquele Iníquo, a quem o Senhor consumirá com o espírito da sua boca, e destruirá com o resplendor da sua vinda: aquele mesmo cuja astúcia é segundo a operação de Satanás, com todo poder, e sinais, e prodígios de mentira, e com todo engano da injustiça nos que perecem. E, ao apresentar a razão por que se permite ao homem do pecado continuar existindo, ele diz: Porque não receberam o amor da verdade, para que pudessem ser salvos. E por essa causa Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam na mentira; para que sejam condenados todos os que não creram na verdade, mas tiveram prazer na injustiça. Que qualquer um diga agora se alguma das afirmações do Evangelho, ou dos escritos do apóstolo, poderia dar ocasião à suspeita de que ali se contenha qualquer predição de feitiçaria. Qualquer um, ainda, que queira, pode encontrar a profecia em Daniel a respeito do anticristo. Mas Celso falsifica as palavras de Jesus, já que ele não disse que outros viriam realizando milagres semelhantes aos seus, mas que são homens perversos e feiticeiros, embora Celso afirme que ele proferiu tais palavras. Pois assim como o poder dos magos egípcios não era semelhante à graça divinamente concedida a Moisés, mas o desfecho provou claramente que os atos dos primeiros eram efeito de magia, ao passo que os de Moisés foram operados por poder divino; assim também os procedimentos dos anticristos, e dos que fingem poder realizar milagres como discípulos de Cristo, são chamados de sinais e prodígios mentirosos, prevalecendo com todo engano da injustiça entre os que perecem; ao passo que as obras de Cristo e de seus discípulos tiveram por fruto, não o engano, mas a salvação das almas humanas. E quem sustentaria racionalmente que uma vida moral aprimorada, que diariamente diminuía o número das faltas de um homem, pudesse proceder de um sistema de engano?