Contra Celso - Livro II 2

As objeções do judeu de Celso contra Jesus

Em seguida, que ele foi traído por aqueles a quem chamava de seus discípulos é uma circunstância que o judeu de Celso aprendeu dos Evangelhos; mas ele chama de muitos discípulos o que era apenas um, Judas, para parecer dar mais força à acusação. E nem se deu ao trabalho de notar tudo o que se relata sobre Judas: como este Judas, tendo chegado a abrigar opiniões opostas e conflitantes a respeito de seu Mestre, não se opôs a ele com toda a sua alma, nem tampouco preservou com toda a alma o respeito que um aluno deve ao seu mestre. Pois aquele que o traiu deu à multidão que veio prender Jesus um sinal, dizendo: Aquele que eu beijar, é ele; prendam-no; conservando ainda algum elemento de respeito por seu Mestre. Pois, se não tivesse feito isso, tê-lo-ia traído, até publicamente, sem qualquer simulacro de afeto. Esta circunstância, portanto, convencerá a todos quanto ao propósito de Judas: que, junto com sua disposição cobiçosa e seu plano perverso de trair o Mestre, ele ainda tinha em sua mente um sentimento de caráter misto, produzido nele pelas palavras de Jesus, que tinha a aparência (por assim dizer) de algum resquício de bem. Pois se relata que, quando Judas, que o traiu, soube que ele estava condenado, arrependeu-se e devolveu as trinta moedas de prata ao sumo sacerdote e aos anciãos, dizendo: Pequei, traindo sangue inocente. Mas eles disseram: Que nos importa isso? O problema é teu; e ele, tendo jogado o dinheiro no templo, retirou-se, e foi e se enforcou. Mas, se este Judas cobiçoso, que também roubava o dinheiro posto na bolsa para o auxílio dos pobres, arrependeu-se e devolveu as trinta moedas de prata aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos, fica claro que os ensinamentos de Jesus tinham sido capazes de produzir algum sentimento de arrependimento em sua mente, e não foram totalmente desprezados nem detestados por este traidor. Mais ainda, a declaração Pequei, traindo sangue inocente foi um reconhecimento público de seu crime. Observe também como foi extremamente intensa a tristeza por seus pecados que veio daquele arrependimento, e que não lhe permitiu viver mais; e como, depois de jogar o dinheiro no templo, ele se afastou, foi embora e se enforcou. Pois passou sentença sobre si mesmo, mostrando que poder o ensino de Jesus teve sobre este pecador Judas, este ladrão e traidor, que não conseguia sempre tratar com desprezo o que tinha aprendido com Jesus. Celso e seus amigos dirão agora que aquelas provas que mostram que a apostasia de Judas não foi uma apostasia completa, mesmo depois de suas tentativas contra o Mestre, são invenções, e que isto é verdade, a saber, que um de seus discípulos o traiu? E acrescentarão ao relato das Escrituras que ele o traiu também de todo o coração? Agir nesse espírito de hostilidade com os mesmos escritos, tanto quanto ao que devemos crer como quanto ao que não devemos crer, é absurdo. E se devemos fazer uma afirmação sobre Judas que cubra de vergonha nossos adversários, diríamos que, no livro dos Salmos, o salmo 108 inteiro contém uma profecia sobre Judas, cujo início é este: Ó Deus, não te cales diante do meu louvor; pois a boca do pecador e a boca do homem astuto se abriram contra mim. E é predito neste salmo, tanto que Judas se separou do número dos apóstolos por causa de seus pecados, quanto que outro foi escolhido em seu lugar; e isso se mostra pelas palavras: E que outro tome o seu encargo. Mas suponha agora que ele tivesse sido traído por algum de seus discípulos possuído por um espírito pior que o de Judas, e que tivesse derramado, por assim dizer, todas as palavras que ouvira de Jesus, o que isso contribuiria para uma acusação contra Jesus ou contra a religião cristã? E como isso demonstraria que sua doutrina é falsa? respondemos, no capítulo anterior, às afirmações que vêm a seguir, mostrando que Jesus não foi feito prisioneiro ao tentar fugir, mas que se entregou voluntariamente por amor a todos nós. Daí se segue que, mesmo que tenha sido amarrado, foi amarrado de acordo com sua própria vontade; ensinando-nos assim a lição de que devemos empreender coisas semelhantes por amor à religião sem nenhum espírito de relutância.