Contra Celso - Livro II 6

As objeções do judeu de Celso contra Jesus

Mas, que o judeu diz que estas histórias da alegada descida de heróis ao Hades, e do seu retorno de lá, são impostturas de ilusionismo, sustentando que esses heróis desapareceram por certo tempo, e se retiraram secretamente da vista de todos os homens, e depois se apresentaram como tendo retornado do Hades (pois é este o sentido que suas palavras parecem transmitir a respeito do ódrisa Orfeu, e do tessálio Protesilau, e do tenário Hércules, e também de Teseu), procuremos mostrar que o relato de Jesus ter sido ressuscitado dentre os mortos não pode de modo algum ser comparado a estes. Pois cada um dos heróis respectivamente mencionados poderia, se quisesse, ter-se retirado secretamente da vista dos homens, e voltado de novo, caso assim decidisse, para aqueles que deixara; mas, visto que Jesus foi crucificado diante de todos os judeus, e seu corpo morto na presença de sua nação, como conseguem eles dizer que ele praticou um engano semelhante ao daqueles heróis que se relata terem descido ao Hades, e de retornado? Mas dizemos que a seguinte consideração poderia ser apresentada, talvez, como defesa da crucificação pública de Jesus, especialmente em conexão com a existência daquelas histórias de heróis que se supõe terem sido compelidos a descer ao Hades: que, se supuséssemos que Jesus tivesse morrido uma morte obscura, de modo que o fato de seu falecimento não fosse evidente a toda a nação dos judeus, e que depois tivesse de fato ressuscitado dentre os mortos, haveria, nesse caso, fundamento para que a mesma suspeita levantada a respeito dos heróis fosse também levantada a respeito dele. Provavelmente, então, além de outras causas para a crucificação de Jesus, esta também pode ter contribuído para que ele morresse uma morte visível na cruz: que ninguém tivesse o poder de dizer que ele se retirou voluntariamente da vista dos homens, e apenas pareceu morrer, sem realmente morrer; mas, aparecendo de novo, fez da ressurreição dentre os mortos um truque de ilusionista. Mas uma prova clara e inconfundível do fato, eu a tenho como sendo o empreendimento de seus discípulos, que se dedicaram ao ensino de uma doutrina que estava acompanhada de perigo para a vida humana, uma doutrina que eles não teriam ensinado com tamanha coragem se tivessem inventado a ressurreição de Jesus dentre os mortos; e que também, ao mesmo tempo, não prepararam outros para desprezar a morte, mas foram eles próprios os primeiros a manifestar seu desprezo pelos terrores dela.