Capítulos

Cartas - Livro VIII
Viagens, propriedades rurais, escravos e o exercício da virtude
Sobre a obra
As Cartas de Plínio, o Jovem (c. 61 a c. 113 d.C.), advogado, senador e governador, são uma das fontes mais vivas sobre o cotidiano da elite romana. Os nove primeiros livros reúnem cartas literárias que o próprio autor selecionou, revisou e publicou, provavelmente em levas sucessivas ao longo da primeira década do século II. O Livro X, de natureza diferente, reúne a correspondência oficial com o imperador Trajano; a maioria dos estudiosos considera que ele veio a público depois da morte de Plínio, sem a sua revisão.
Este é o Livro VIII, com 24 cartas. Predominam assuntos domésticos e de administração de bens: viagens, colheitas, propriedades rurais, curiosidades naturais, e um conjunto de cartas sobre escravos e libertos que está entre o material mais citado da coleção.
Escravos e libertos
A carta 16, a Paterno, é escrita depois de uma sequência de doenças e mortes na casa de Plínio. Ele nomeia dois consolos: a facilidade em conceder alforria, porque quem morre já liberto não parece perdido por completo, e o costume de permitir que os escravos façam uma espécie de testamento, que ele respeita como se fosse legítimo. Dividem, doam e deixam, contanto que dentro de casa, e o comentário que se segue é a frase mais citada do livro: para os escravos, a casa é uma espécie de república e de cidade.
Nada disso é abolicionismo, e o próprio livro deixa isso claro. A carta 14, endereçada ao jurista Aristão, relata um debate no senado sobre os libertos do cônsul Afrânio Dextro, morto por mão própria ou de seus servos, sem que se soubesse ao certo. Havia três propostas: absolvê-los após o interrogatório, relegá-los a uma ilha, ou executá-los. Plínio defendeu a primeira, mas a carta inteira gira em torno de um problema de procedimento, se as opiniões deviam ser divididas ou tomadas uma a uma, e não do destino dos acusados.
A carta 6 vai na direção oposta e mostra até onde um liberto podia chegar. Plínio copia a inscrição do monumento de Palas, liberto imperial: o senado lhe decretou as insígnias pretorianas e quinze milhões de sestércios, dos quais ele se contentou com a honra. Depois Plínio procura o texto do próprio decreto e o acha tão bajulador que a inscrição parece modesta ao lado dele. A crítica é ao servilismo do senado, não à instituição da escravidão.
Viagens, terras e curiosidades
O livro abre com uma carta de viagem e segue com a carta a Calvísio, em que Plínio conta que devolveu parte do preço aos negociantes que haviam comprado sua vindima antecipadamente e saíram no prejuízo. Há a descrição da fonte do Clituno, com o bosque, o templo e as inscrições dos visitantes, e a do lago Vadímon, redondo como uma roda deitada, cheiro de enxofre, e com ilhas de vegetação que flutuam e se chocam contra a margem.
A carta 17 descreve uma enchente do Tibre que cobre as margens baixas e inunda os campos, mesmo com o canal construído pelo imperador. São páginas que valem como documentação de paisagem, agricultura e clima na Itália do início do século II.
O exercício da virtude
Vários textos discutem conduta. Plínio observa a Gêmino que os mais severos com os vícios alheios costumam ser escravos dos próprios apetites. Comenta a Rufino que o testamento de Domício Tulo desmentiu a expectativa de todos, e conclui que o ditado sobre testamentos serem o espelho do caráter é falso. E, na carta que fecha o livro, aconselha Máximo, enviado à Acaia, a respeitar a antiguidade e a liberdade formal das cidades gregas e a lembrar que se trata de homens, e de homens livres.
Relevância
O livro não menciona cristãos, e seu interesse é indireto. Ele documenta o vocabulário moral da elite romana no período em que os últimos escritos do Novo Testamento circulavam: clemência, humanidade, contenção no trato com escravos, desconforto com a crueldade. Esse vocabulário coexiste, sem contradição percebida, com a tortura judicial e com a execução de escravos por suspeita, como no caso de Afrânio Dextro. É o pano de fundo social das instruções domésticas das cartas do Novo Testamento.
Poucos anos depois, já governador da Bitínia, o mesmo Plínio interrogaria sob tortura duas escravas cristãs chamadas ministras. Esse relato está no Livro X.