Cartas - Livro VIII 6
Viagens, propriedades rurais, escravos e o exercício da virtude
Caio Plínio ao seu Montano, saudações.
Você já deve saber, pela minha carta, que há pouco notei o monumento de Palas com esta inscrição: 'A este o senado, por sua lealdade e dedicação para com os patronos, decretou as insígnias pretorianas e quinze milhões de sestércios, e ele se contentou apenas com a honra.'
Depois me pareceu que valia a pena procurar o próprio decreto do senado. Encontrei-o tão abundante e exagerado que aquela inscrição soberbíssima parecia modesta e até comedida. Que se juntem e se misturem, não digo os antigos, os Africanos, Acaicos e Numantinos, mas estes mais próximos, os Mários, Silas e Pompeus, e não quero ir mais longe: ficarão abaixo dos elogios a Palas.
Devo considerar refinados os que votaram aquilo, ou miseráveis? Diria refinados, se o refinamento conviesse ao senado; miseráveis, mas ninguém é tão miserável a ponto de ser forçado àquilo. Seria então ambição e desejo de progredir? Mas quem é tão insano que queira progredir, à custa da própria desonra e da desonra pública, numa cidade em que a única vantagem da mais alta dignidade fosse poder ser o primeiro no senado a elogiar Palas?
Deixo de lado que se oferecem a Palas, um escravo, as insígnias pretorianas, pois quem as oferece são escravos; deixo de lado que decretam que ele deve não só ser exortado, mas até obrigado a usar os anéis de ouro; pois seria contra a majestade do senado que um homem de posição pretoriana usasse anéis de ferro.
Coisas leves, que se podem passar por alto. O que merece registro é que, em nome de Palas, o senado, e a cúria nunca depois se purificou disso, em nome de Palas o senado agradeceu a César por ele próprio ter feito menção dele com a maior honra e por ter dado ao senado a oportunidade de testemunhar a sua boa vontade para com ele.
Pois que coisa mais bela para o senado do que parecer bastante grato a Palas? Acrescenta-se: 'Para que Palas, a quem todos reconhecem estar obrigados na medida das suas forças, receba com pleno mérito o fruto da sua lealdade singular e da sua singular diligência'. Você pensaria que as fronteiras do império foram alargadas, que os exércitos foram devolvidos à república.
A isso se acrescenta: 'Visto que nenhuma ocasião mais agradável de generosidade poderia apresentar-se ao senado e ao povo romano do que poder ajudar os recursos do mais íntegro e fiel guardião das riquezas do príncipe'. Este era então o voto do senado, esta a alegria principal do povo, esta a mais agradável ocasião de generosidade: poder ajudar os bens de Palas esvaziando os fundos públicos.
E o que vem em seguida? Que o senado quis decretar que se desse do erário quinze milhões de sestércios, e quanto mais o espírito de Palas estava distante de desejos desse tipo, tanto mais insistentemente pedia ao pai público que o obrigasse a ceder ao senado.
Só faltava isso: que se tratasse com Palas por autoridade pública, que se rogasse a Palas que cedesse ao senado, que o próprio César fosse chamado como patrono e advogado daquela soberbíssima abstinência, para que ele não desprezasse os quinze milhões de sestércios. Ele desprezou, única coisa que podia fazer, diante de tantas riquezas oferecidas publicamente, com mais arrogância do que se as tivesse aceitado.
Mesmo assim o senado, como quem reclama, louvou também isso com elogios, com estas palavras: 'Mas, visto que o príncipe ótimo e pai público, a pedido de Palas, quis que se suprimisse a parte da deliberação que dizia respeito a dar-lhe do erário quinze milhões de sestércios, o senado testemunha que tinha começado a decretar esta soma a Palas com gosto e merecidamente, entre as demais honras, por sua lealdade e diligência, mas que, ainda assim, também nisto cede à vontade do seu príncipe, a quem em nada julga lícito contrariar.'
Imagine Palas como que interpondo veto ao decreto do senado e moderando as próprias honras, recusando os quinze milhões de sestércios como demais, ao passo que aceitara as insígnias pretorianas como algo menor;
imagine César obedecendo às súplicas, ou melhor, à ordem do liberto, diante do senado, pois o liberto manda no patrono quando lhe roga no senado; imagine o senado testemunhando por toda parte que tinha começado, merecidamente e com gosto, a decretar esta soma a Palas entre as demais honras, e que teria persistido se não cedesse à vontade do príncipe, a quem em nada era lícito contrariar. Assim, para que Palas não recebesse do erário os quinze milhões de sestércios, foi preciso a modéstia dele e a submissão do senado, que justo nisso não obedeceria se julgasse que em algo era lícito não obedecer.
Você acha que é o fim? Espere e ouça coisas ainda maiores: 'E que, sendo útil que a generosidade do príncipe, sempre prontíssima ao louvor e ao prêmio dos que o merecem, seja exibida em toda parte, sobretudo nos lugares em que os encarregados dos negócios públicos possam ser incitados a imitar tal exemplo, e que a fidelidade e a integridade comprovadíssimas de Palas possam provocar pelo exemplo o zelo de tão honesta emulação, o discurso que o ótimo príncipe pronunciou no dia 23 de janeiro último, na mais alta assembleia, e os decretos do senado feitos sobre esses assuntos, sejam gravados em bronze, e que esse bronze seja fixado junto à estátua couraçada do divino Júlio.'
Pareceu pouco que a cúria fosse testemunha de tantas desonras: escolheu-se o lugar mais frequentado, em que pudessem ser lidas pelos presentes e expostas aos vindouros. Decidiu-se marcar em bronze todas as honras do mais enfadonho dos serviçais, tanto as que ele recusara quanto as que, no que toca aos que as decretavam, ele recebeu. Foram gravadas e esculpidas em monumentos públicos e eternos as insígnias pretorianas de Palas, como se fossem tratados antigos, como se fossem leis sagradas.
Tão grande foi do príncipe, tão grande do senado, tão grande do próprio Palas, nem sei como dizer, como se quisessem fixar diante dos olhos de todos Palas a sua insolência, César a sua complacência, o senado a sua baixeza. E não tiveram vergonha de cobrir a torpeza com uma justificativa, justificativa por sinal nobre e bela: que, pelo exemplo dos prêmios de Palas, os demais fossem estimulados ao zelo da emulação.
Tal era a vileza das honras, mesmo daquelas que Palas não desdenhava. E ainda assim se encontravam homens de boa origem que pediam e desejavam aquilo que viam ser dado a um liberto e prometido a escravos.
Como me alegra não ter caído naqueles tempos, dos quais me envergonho como se tivesse vivido neles! Não duvido de que você se sinta do mesmo modo. Sei como o seu espírito é vivo e nobre: por isso é mais fácil que você creia que eu, embora em certas passagens talvez tenha extravasado a indignação além da medida de uma carta, me doí de menos, e não em excesso. Adeus.