Cartas - Livro VIII 8
Viagens, propriedades rurais, escravos e o exercício da virtude
Caio Plínio ao seu Romano, saudações.
Você já viu alguma vez a fonte do Clituno? Se ainda não, e penso que ainda não, pois do contrário teria me contado, vá vê-la; eu mesmo, e lamento a demora, vi-a há pouco tempo.
Uma colina de altura moderada se levanta, coberta de antigos ciprestes que a tornam sombria e densa. Por baixo dela brota a fonte, que surge de várias veias, mas desiguais, e, depois de vencer o remoinho que forma, se abre num largo regaço, pura e cristalina, a ponto de você poder contar as moedas atiradas e os seixos reluzentes no fundo.
Dali é impelida adiante, não pela inclinação do terreno, mas pela própria abundância e como que pelo seu peso. Ainda fonte e já amplíssimo rio, navegável até para barcos, que ela faz passar e leva mesmo quando vêm em sentido contrário, empenhados em ir para direções opostas. A corrente é tão forte que, no rumo em que ela própria corre, embora por terreno plano, os remos não a ajudam, e no sentido contrário a custo se vence com remos e varas.
Uma e outra coisa é agradável para os que navegam por gracejo e diversão, alternando, conforme mudam de curso, o esforço pelo descanso e o descanso pelo esforço. As margens se cobrem de muitos freixos e muitos choupos, que o rio transparente conta como que mergulhados na sua imagem verde. A frieza da água rivaliza com a neve, e a cor não fica atrás.
Junto fica um templo antigo e venerado. De pé está o próprio Clituno, vestido e ornado com a toga pretexta; os oráculos mostram que a divindade está presente e até prediz o futuro. Em volta há espalhadas várias capelas, e outros tantos deuses. Cada um tem o seu culto, o seu nome, e alguns têm até as suas próprias fontes. Pois, além daquela que é como mãe das demais, há fontes menores, separadas por sua nascente; mas se misturam ao rio, que se atravessa por uma ponte.
Essa é a fronteira entre o sagrado e o profano: na parte de cima só se permite navegar, abaixo permite-se também nadar. Os habitantes de Hispelo, a quem o divino Augusto deu aquele lugar de presente, oferecem um banho público e oferecem também hospedagem. Não faltam vilas que, atraídas pela beleza do rio, se erguem em sua margem.
Em suma, não haverá nada de que você não tire prazer. Pois você vai estudar também: vai ler muitas inscrições de muitas pessoas, gravadas em todas as colunas e todas as paredes, em que se celebram aquela fonte e o deus. Muitas você vai elogiar, algumas vão fazê-lo rir; embora você, com a sua bondade, não ria de nenhuma. Adeus.