Capítulos

Cartas - Livro V
As villas, os testamentos, a educação e a memória dos mortos
Sobre a obra
As Cartas de Plínio, o Jovem (c. 61 a c. 113 d.C.), advogado, senador e governador, são uma das fontes mais vivas sobre o cotidiano da elite romana. Os nove primeiros livros reúnem cartas literárias que o próprio autor selecionou, poliu e publicou, cada uma sobre um assunto só. O Livro X, de natureza diferente, reúne a correspondência oficial com o imperador Trajano; a maioria dos estudiosos considera que ele veio a público depois da morte de Plínio, sem a sua revisão.
Este é o Livro V, com 21 cartas, o mais curto da coleção. O material aponta para os anos de 105 e 106 d.C., sob Trajano; a datação vem dos eventos citados, não de uma data no texto. Sherwin-White propõe que os livros IV a VI foram publicados em bloco ou em sequência próxima.
A villa da Toscana
A peça mais longa do livro, com 46 parágrafos, é a descrição da propriedade de Plínio na Toscana, escrita a Domício Apolinar para provar que o lugar não era insalubre. Ele percorre o clima, o relevo, a vista dos Apeninos, os pórticos, o hipódromo ajardinado, os quartos de inverno e de verão. É a descrição mais detalhada de uma villa romana que sobreviveu na literatura antiga, e por isso serve de base para arqueólogos e historiadores da arquitetura, ainda que reconstruções do traçado a partir dela divirjam entre si.
Testamentos e herança
Vários casos do livro giram em torno de heranças, o mecanismo pelo qual a riqueza e o prestígio circulavam em Roma. Plínio conta que foi instituído herdeiro por Pompônia Gala, que havia deserdado o filho, e que se recusou a um acordo secreto proposto pelo deserdado: ele aceitou examinar o mérito da deserdação com dois assessores, e só depois decidiu o que fazer com a própria parte.
Em outro caso, um testador deixou dinheiro ao município de Como, o que o direito então não permitia. Plínio escreve que a vontade do falecido lhe importa mais do que a regra e propõe pagar a quantia do próprio bolso, atribuindo publicamente o crédito ao morto. A carta mostra o direito sucessório sendo contornado por acordo entre herdeiros, sem nenhum constrangimento em admiti-lo por escrito.
Educação, recitação e a tentação da história
Titínio Capitão aconselha Plínio a escrever história. A resposta é uma das cartas mais reveladoras sobre o motivo de tudo isso: ele quer durar no tempo, diz que a história agrada mesmo mal escrita, e lembra que o tio, que o adotou, escreveu obras históricas. Plínio hesita, levanta objeções de método e não decide. Nenhuma história dele sobreviveu, e não há indício seguro de que a tenha escrito.
Ao lado disso ficam as cenas de recitação: a cobrança amigável a Suetônio Tranquilo para que publique enfim os próprios escritos, o poema sobre as constelações recitado pelo jovem Calpúrnio Pisão, o convite a poucos ouvintes escolhidos para dizer a verdade sobre um discurso. A carta a Suetônio interessa porque documenta a relação entre os dois antes da obra que tornaria Suetônio conhecido.
A memória dos mortos
O livro tem uma das cartas de luto mais conhecidas da literatura latina: a morte da filha mais nova de Minício Fundano. Plínio diz que ela ainda não completara catorze anos e descreve a doença longa suportada com firmeza. Há um detalhe que a arqueologia acrescentou: uma inscrição funerária romana identificada como a de Minícia Marcela, filha de Fundano, registra doze anos, onze meses e sete dias. A discrepância é debatida; a leitura mais aceita hoje, defendida por John Bodel, é que Plínio arredondou para a idade que os leitores associavam ao limiar do casamento, não que uma das fontes esteja errada.
Outra carta trata do liberto Zósimo, ator e leitor, adoecido dos pulmões, para quem Plínio pede hospedagem no litoral em casa de um amigo. Ele justifica o cuidado com um verso de Homero e com a ideia de pai de família. O texto é um dos poucos em que um senador explica por escrito por que trata bem um dependente, e vale como evidência do que a elite considerava humanidade dentro de um sistema escravista que não questionava.
Relevância para a fé cristã
Nada aqui trata de cristãos. O interesse é de contexto: este é o mundo doméstico e jurídico do Império no início do século II, quando as comunidades cristãs já existiam na Ásia Menor e na Itália. A carta sobre Zósimo e a carta sobre a morte de uma menina de treze anos mostram como a elite romana falava de dependentes e de luto no mesmo período em que textos cristãos tratavam desses temas por outro caminho.
O ponto de contato explícito com o cristianismo está no Livro X, escrito alguns anos depois, quando Plínio governava a Bitínia e perguntou ao imperador como proceder contra quem se declarava cristão.