Cartas - Livro V 14
As villas, os testamentos, a educação e a memória dos mortos
Caio Plínio ao seu amigo Pôncio Alifano, saudações.
Eu tinha me retirado para o meu município quando me anunciaram que Cornuto Tertulo recebera a supervisão da via Emília.
Não consigo exprimir a alegria que senti, em nome dele e em meu nome: dele, porque, ainda que esteja, como de fato está, bem distante de toda ambição, deve ser-lhe agradável uma honra dada espontaneamente; meu, porque o encargo que me confiaram me agrada bem mais depois que vejo dado a Cornuto algo equivalente.
Pois nada é mais grato do que ser igualado aos bons, mais ainda do que ser elevado em dignidade. E o que há de melhor que Cornuto, o que há de mais íntegro, o que há de mais fiel ao modelo da antiguidade em todo gênero de mérito? Isso eu conheci não pela fama, da qual aliás ele goza ótima e merecidíssima, mas por longas e grandes experiências.
Juntos estimamos, e juntos estimamos quase todos os que a nossa época produziu como dignos de imitação, em ambos os sexos; essa comunidade de amizades nos uniu numa intimidade estreitíssima.
Somou-se o vínculo da relação pública; pois ele foi, como você sabe, meu colega, como que pedido num voto, na prefeitura do erário, e também no consulado. Foi então que examinei muito de perto que homem e quão grande ele era, quando o seguia como a um mestre e o respeitava como a um pai, o que ele merecia não tanto pela maturidade da idade quanto pela da vida.
Por essas razões, dou os parabéns tanto a ele quanto a mim, não mais no plano privado do que no público, porque enfim os homens chegam, pela virtude, não aos perigos, como antes, mas às honras.
Vou estender a carta ao infinito se me deixar levar pela minha alegria. Volto-me para aquilo em que este anúncio me surpreendeu.
Eu estava com o avô da minha esposa, estava com a tia dela, estava com amigos há muito desejados, percorria os pequenos campos, ouvia muitas queixas dos camponeses, lia as contas contra a vontade e às pressas (pois fui iniciado em outros papéis, em outras letras), e tinha até começado a me preparar para a viagem.
Pois estou apertado pela brevidade da licença, e justamente por ouvir que se confiou a Cornuto um encargo, lembro-me dos meus. Desejo que a sua Campânia também o liberte mais ou menos no mesmo período, para que, quando eu voltar à cidade, nenhum dia se perca para a nossa convivência. Até logo.