Cartas - Livro V 6

As villas, os testamentos, a educação e a memória dos mortos

Caio Plínio a seu amigo Domício Apolinar, saudações.

Gostei do seu cuidado e da sua preocupação: ao saber que eu pretendia ir, no verão, à minha propriedade na Toscana, você me aconselhou a não fazê-lo, por considerá-la insalubre.
É de fato pesada e pestilenta a faixa da Toscana que se estende ao longo do litoral; mas as minhas terras ficam afastadas do mar e, mais ainda, situam-se ao dos Apeninos, a mais saudável das cadeias de montanhas.
E, para que você deponha todo o temor por mim, conheça o clima, a posição da região e o encanto da villa, coisas que serão agradáveis para você ouvir e para mim contar.
O clima é frio e gélido no inverno; murtas, oliveiras e tudo o mais que se compraz com um calor constante, ele rejeita e repele; o loureiro, no entanto, tolera e até produz com belíssima folhagem, embora às vezes o mate, mas não com mais frequência do que nos arredores da nossa cidade.
No verão, a amenidade é admirável: o ar está sempre movido por alguma brisa, e tem mais aragens do que ventos.
Daí o grande número de velhos: você avôs e bisavôs de jovens, ouve histórias antigas e conversas dos antepassados, e, ao chegar ali, julga ter nascido em outra época.
A configuração da região é belíssima. Imagine um imenso anfiteatro, tal como a própria natureza pode formar. Uma planície ampla e estendida é cercada de montes, e os montes, no alto, têm bosques altos e antigos.
Ali a caça é abundante e variada. Dali descem matas de corte junto com o próprio monte. Entre elas, colinas férteis e de boa terra (pois não é fácil encontrar uma pedra em parte alguma, mesmo que se procure) em nada cedem às mais planas dos campos em fertilidade, e amadurecem uma colheita rica apenas mais tarde, mas não menos farta.
Abaixo dessas, por toda a encosta, estendem-se as vinhas, que tecem ao longe e ao largo uma superfície; no fim delas, na borda mais baixa, nascem como que arbustos.
Vêm depois os prados e os campos, campos que bois enormes e arados robustíssimos conseguem revolver; o solo tenacíssimo, ao ser cortado pela primeira vez, se levanta em torrões tão grandes que ao nono sulco fica plenamente domado.
Os prados, floridos e como que enfeitados de pedras preciosas, produzem trevo e outras ervas sempre tenras, macias e como que novas. Pois tudo é alimentado por riachos perenes; mas, onde mais água, não pântano algum, porque a terra inclinada lança no Tibre todo o líquido que recebe e não absorve.
Ele corta o meio dos campos, navegável, e leva todas as colheitas para a cidade, ao menos no inverno e na primavera; no verão baixa e abandona, em seu leito ressecado, o nome de grande rio; no outono o retoma.
Você sentirá grande prazer se contemplar essa paisagem da região do alto do monte. Pois lhe parecerá não estar vendo terras, mas uma cena pintada com extraordinária beleza: tanta a variedade, tanta a disposição, que, onde quer que os olhos caiam, serão revigorados.
A villa, situada ao da colina, tem a vista como se estivesse no cume: pois a subida se eleva tão leve e gradualmente, com a ladeira enganando, que, sem você pensar que está subindo, sente que subiu. Tem atrás de si os Apeninos, mas a uma boa distância; recebe deles brisas mesmo num dia sereno e calmo, não ásperas nem excessivas, mas cansadas e quebradas pela própria distância.
Em sua maior parte volta-se para o sul e como que convida o sol do verão a partir da sexta hora, e o do inverno bem mais cedo, para um pórtico largo e proporcionalmente comprido. nele muitos cômodos e até um átrio à maneira antiga.
Diante do pórtico um terraço dividido em muitas figuras e recortado por buxos; dali desce, em declive, um canteiro elevado em que o buxo desenhou figuras de animais voltadas umas para as outras; no plano, o acanto, macio e quase, eu diria, líquido.
Cerca isto um passeio, fechado por sebes de verde aparadas em vários formatos; a partir dessas, uma alameda em forma de circo, que contorna o buxo de muitas formas e arbustos baixos retidos pela mão. Tudo é protegido por um muro, que o buxo, disposto em degraus, cobre e oculta.
Vem em seguida um prado, tão digno de ser visto por seu encanto natural quanto as coisas anteriores o são pela arte; depois, ao longe, campos e muitos outros prados e arvoredos.
Na ponta do pórtico, projeta-se uma sala de jantar; das suas portas, o fim do terraço, o prado e muito campo; das janelas, de um lado, a lateral do terraço e a parte da villa que se projeta, e, de outro, o bosque e a folhagem do hipódromo adjacente.
Quase em frente ao meio do pórtico, um aposento recua um pouco e cerca um pequeno pátio sombreado por quatro plátanos. Entre eles, de uma bacia de mármore, a água transborda e refresca, com leve aspersão, os plátanos ao redor e o que fica abaixo deles.
neste aposento um quarto de dormir que exclui o dia, o clamor e o ruído, e, junto a ele, a sala de refeições do dia a dia e dos amigos: para aquele pátio, para a ala do pórtico e para tudo o que o pórtico vê.
ainda outro quarto, verde e sombreado pelo plátano mais próximo, revestido de mármore até a balaustrada; e não fica atrás da graça do mármore uma pintura que imita ramos e aves pousadas neles.
nele uma pequena fonte e, na fonte, uma taça; em volta, vários tubinhos misturam um murmúrio agradabilíssimo. No canto do pórtico, um quarto amplíssimo se abre para a sala de jantar; de umas janelas olha o terraço, de outras o prado, mas, à frente, o tanque de peixes que serve às janelas e fica abaixo delas, agradável ao ouvido e à vista;
pois a água, despencando do alto, recebida pelo mármore, fica branca. O mesmo quarto é, no inverno, quentíssimo, porque é banhado por muito sol.
Está ligado a uma câmara de aquecimento e, se o dia está nublado, suprindo as vezes do sol com o vapor lançado para dentro. Em seguida, um amplo e alegre vestiário de banho para a sala fria, na qual uma piscina larga e sombreada. Se você quiser nadar em mais espaço ou em água mais morna, no pátio um tanque e, ao lado, um poço, de onde você pode de novo refrescar-se, se o calor o desagradar.
À sala fria liga-se a média, à qual o sol assiste com a maior generosidade; mais ainda à quente, pois esta se projeta para fora. Nela três descidas, duas ao sol, a terceira mais afastada do sol, mas não da luz.
Sobre o vestiário está construída uma sala de jogo de bola, que comporta vários tipos de exercício e vários grupos. Não longe do banho, escadas que levam a uma galeria coberta, antes a três aposentos. Destes, um se debruça sobre aquele pátio em que quatro plátanos, outro sobre o prado, outro sobre as vinhas, e cada um tem, como vista, partes diferentes do céu.
No alto da galeria coberta, um quarto recortado na própria galeria, que olha o hipódromo, as vinhas e os montes. Junta-se a ele um quarto exposto ao sol, sobretudo no inverno. Daqui nasce um aposento que liga o hipódromo à villa. Esta é a aparência, este o uso da parte da frente.
Ao lado, uma galeria coberta de verão, situada no alto, que parece não olhar as vinhas, mas tocá-las. No meio, uma sala de jantar recebe o ar saudabilíssimo dos vales dos Apeninos; atrás, por janelas amplíssimas, as vinhas, e, pelas portas, também as vinhas, mas como que admitidas através da galeria coberta.
No lado da sala que não tem janelas, escadas fornecem, por um percurso mais reservado, o necessário para o banquete. No fim, um quarto, ao qual a própria galeria coberta oferece uma vista não menos agradável do que as vinhas. Por baixo corre uma galeria semelhante a subterrânea; no verão, com o frio nela encerrado, fica gelada, e, contente com o seu próprio ar, nem deseja brisas nem as admite.
Depois das duas galerias cobertas, onde a sala de jantar termina, começa um pórtico, de inverno antes do meio-dia, de verão quando o dia declina. Por ele se chega a dois aposentos, num dos quais quatro quartos, no outro três, que, conforme o sol gira, gozam do sol ou da sombra.
Mas a esta disposição e ao encanto das construções de longe se sobrepõe o hipódromo. No meio fica aberto e logo se oferece inteiro aos olhos de quem entra; é cercado de plátanos; estes se vestem de hera e, assim como as copas verdejam com a própria folhagem, as partes baixas o fazem com a folhagem alheia. A hera percorre o tronco e os ramos e liga, na sua travessia, os plátanos vizinhos. Entre eles se interpõe o buxo; aos buxos externos cerca o loureiro, que une a sua sombra à dos plátanos.
Esta linha reta do hipódromo, na extremidade, quebra-se num semicírculo e muda de aspecto: é cercada e coberta de ciprestes, mais escura e mais negra por causa da sombra densa; mas, nos círculos internos (pois vários), recebe a luz puríssima do dia.
Dali brotam até rosas, e o frescor das sombras se alterna com o sol não desagradável. Terminada aquela curva variada e múltipla, retorna-se à linha reta, mas não a uma só, pois vários caminhos se dividem com buxos entre eles.
Aqui um pequeno prado, ali o próprio buxo se interpõe, recortado em mil formas, às vezes em letras que ora dizem o nome do dono, ora o do jardineiro: em alternância erguem-se pequenas pirâmides, em alternância estão inseridas macieiras, e, numa obra refinadíssima, surge de repente como que a imitação do campo trazido para dentro. O espaço central é adornado dos dois lados por plátanos mais baixos.
Atrás deles, de um lado e de outro, o acanto liso e sinuoso; depois, mais figuras e mais nomes. Na cabeceira, um leito de banquete de mármore branco, protegido por uma videira; quatro pequenas colunas de mármore de Caristo sustentam a videira. Do leito, a água, como que expremida pelo peso dos que se recostam, escorre por tubinhos, é recolhida numa pedra escavada, contida por um delgado mármore e regulada de modo tão oculto que o enche sem transbordar.
O serviço de entrada e os pratos mais pesados são postos na borda; os mais leves, em forma de pequenos barcos e de aves, circulam boiando. Em frente, uma fonte expele a água e a recebe; pois, lançada para o alto, cai sobre si mesma e, por aberturas ligadas, é ao mesmo tempo absorvida e elevada. Diante do leito, o quarto que lhe fica em frente devolve ao leito tanto adorno quanto dele recebe.
Reluz de mármore, projeta-se pelas portas para o verde e nele se abre; outras verduras, pelas janelas de cima e de baixo, contempla acima e abaixo. Em seguida, um pequeno recanto recua como que para o mesmo quarto e, ao mesmo tempo, para outro. aqui um leito e janelas por todos os lados, e, mesmo assim, a luz é escassa, com a sombra a oprimi-la.
Pois uma videira viçosíssima sobe e se ergue por todo o teto até a cumeeira. Você fica ali deitado como num bosque, que não sente a chuva como num bosque.
Também aqui nasce uma fonte e logo desaparece. Há, em vários lugares, assentos de mármore dispostos, que aliviam quem está cansado do passeio, como o próprio quarto. Ao lado dos assentos, pequenas fontes; por todo o hipódromo, riachos canalizados sussurram, e seguem por onde a mão os conduziu: com eles ora se regam aquelas verduras, ora estas, às vezes todas de uma vez.
Eu teria evitado parecer prolixo demais, se não tivesse me proposto percorrer com você, nesta carta, todos os cantos. Pois não temia que fosse cansativo, para você que lê, o que não foi para quem viu, sobretudo porque você pode, se quiser, fazer uma pausa e, depondo a carta, como que sentar-se a descansar quantas vezes quiser. Além disso, dei vazão ao meu afeto; pois amo o que, em grande parte, eu mesmo iniciei ou aperfeiçoei iniciado.
Em suma (por que não revelar a você o meu juízo, ou o meu erro?): considero o primeiro dever do escritor ler o próprio título e perguntar a si mesmo, repetidamente, sobre o que começou a escrever, e saber que, se permanece no assunto, não é longo, e que é longuíssimo se busca e arrasta algo de fora.
Você em quantos versos Homero descreve as armas de Aquiles, e em quantos Virgílio as de Eneias; ambos, no entanto, são breves, porque fazem o que se propuseram. Você como Arato persegue e reúne até as estrelas mais minúsculas; mantém, ainda assim, a medida. Pois isto não é nele um desvio, mas a própria obra.
De modo semelhante, nós, para comparar o pequeno com o grande, ao tentarmos pôr toda a villa diante dos seus olhos: se nada falamos de trazido de fora e como que desviado, não é a carta que descreve, mas a villa que é descrita, que é grande. Mas voltemos ao ponto de onde comecei, para que eu não seja, segundo a minha própria lei, com razão censurado, se for longo demais nisto em que me desviei.
Você tem as razões pelas quais prefiro a minha propriedade toscana às de Túsculo, de Tíbur e de Preneste. Pois, além daquilo que relatei, o ócio ali é mais profundo e mais farto e, por isso, mais tranquilo: nenhuma necessidade da toga, ninguém chamando da vizinhança, tudo plácido e em repouso, o que mesmo se soma à salubridade da região, como um céu mais puro, como um ar mais límpido.
Ali gozo da máxima saúde, de espírito e de corpo. Pois exercito o espírito com os estudos, o corpo com a caça. Os meus também em parte alguma vivem com mais saúde; até agora, pelo menos, nenhum daqueles que comigo levei (com licença da expressão) perdi ali. Que os deuses, no futuro, conservem para mim esta alegria, esta glória deste lugar! Adeus.