Cartas - Livro V 1

As villas, os testamentos, a educação e a memória dos mortos

Caio Plínio a seu amigo Ânio Severo, saudações.

Veio a mim um legado modesto, mas mais gratificante do que o mais vultoso. Por que mais gratificante do que o mais vultoso? Pompônia Gala, tendo deserdado o filho Asúdio Curiano, havia me deixado como herdeiro e me dera como co-herdeiros Sertório Severo, homem de posto pretoriano, e outros ilustres cavaleiros romanos.
Curiano me pedia que lhe cedesse minha parte e o ajudasse com um julgamento prévio em seu favor; em troca, prometia, por acordo secreto, devolver a mesma quantia a mim, intacta.
Eu respondia que não condizia com meu caráter agir de um modo em público e de outro em segredo; além disso, que não era bastante honroso fazer doação a um homem rico e sem filhos; em suma, que não o beneficiaria se lhe doasse, mas o beneficiaria se renunciasse, e que eu estava disposto a renunciar se ficasse claro para mim que ele fora deserdado injustamente.
Diante disso, ele disse: 'Peço que examines o caso.' Hesitei um pouco e respondi: 'Farei; pois não vejo por que eu deva me julgar inferior ao que pareço a você. Mas lembre-se desde de que não me faltará firmeza, se a honra assim o exigir, para decidir em favor da sua mãe.'
'Como quiseres', disse ele; 'pois você quererá o que for mais justo.' Chamei para me assessorar dois homens que então nossa cidade tinha como os mais respeitados, Corélio e Frontino.
Cercado por eles, sentei-me em meu gabinete. Curiano disse o que julgava favorável a si. Respondi em poucas palavras, pois não havia mais ninguém presente que defendesse a honra da falecida; depois me retirei e, conforme o parecer do conselho, declarei: 'Parece-nos, Curiano, que sua mãe tinha justas razões para se irritar com você.' Depois disso, ele moveu ação perante o tribunal dos cêntumviros contra os outros herdeiros, mas não contra mim.
Aproximava-se o dia do julgamento; meus co-herdeiros queriam compor e fazer acordo, não por desconfiarem da causa, mas por medo dos tempos. Temiam o que viam ter acontecido a muitos: que saíssem do tribunal dos cêntumviros como réus de um crime capital.
E havia entre eles alguns a quem se podia objetar a amizade com Gratila e com Rústico.
Pedem-me que eu fale com Curiano. Encontramo-nos no templo da Concórdia. Ali eu disse: 'Se sua mãe o tivesse escrito como herdeiro de um quarto, você poderia se queixar? E se ela o tivesse instituído herdeiro de tudo, mas tivesse esgotado a herança com legados, de modo que não restasse para você mais do que um quarto? Portanto deve bastar a você, ainda que deserdado por sua mãe, receber um quarto dos herdeiros dela, parte que mesmo assim eu vou aumentar.
Você sabe que não moveu ação contra mim, que se passou um biênio e que adquiri tudo por usucapião. Mas, para que meus co-herdeiros o encontrem mais tratável, e para que o respeito que você me demonstrou nada lhe tire, ofereço a você, da minha parte, outro tanto.' Colhi o fruto não da consciência tranquila, mas também da reputação.
Pois bem, aquele Curiano me deixou um legado e marcou meu ato, a menos que eu me lisonjeie em demasia por essa atitude antiga, com uma honra notável.
Escrevi isto a você porque, de tudo o que me alegra ou me aflige, costumo falar com você do mesmo modo que comigo mesmo; e, além disso, porque achava cruel privar você, que tanto me ama, do prazer que eu próprio sentia.
Pois não sou tão sábio a ponto de me ser indiferente que àquilo que creio ter feito de modo honroso se some algum testemunho e, por assim dizer, alguma recompensa. Adeus.