Cartas - Livro V 20
As villas, os testamentos, a educação e a memória dos mortos
Caio Plínio ao seu amigo Cornélio Urso, saudações.
De novo os bitínios: pouco tempo depois de Júlio Basso, denunciaram também o procônsul Rufo Vareno, o mesmo Vareno que pouco antes, contra Basso, tinham pedido e obtido como advogado. Conduzidos ao senado, pediram que se abrisse uma investigação.
Vareno pediu que também a ele, para a defesa, se permitisse convocar testemunhas; como os bitínios se recusaram, abriu-se o julgamento. Advoguei por Vareno, não sem resultado; pois se foi bem ou mal, o discurso escrito mostrará.
Pois nas atuações a sorte domina para um lado e para o outro: a memória, a voz, o gesto e o próprio momento tiram e acrescentam muito ao crédito, e, por fim, também o amor ou o ódio ao réu; o discurso escrito não tem ofensas, não tem favor, e não está sujeito nem a acasos favoráveis nem adversos.
Respondeu-me Fonteio Magno, um dos bitínios, com muitíssimas palavras e pouquíssimas coisas. A maioria dos gregos, como ele, tem volubilidade em vez de riqueza: lançam num só fôlego, como uma torrente, períodos tão longos e tão frios.
Por isso Júlio Cândido costuma dizer, não sem graça, que uma coisa é eloquência, outra é loquacidade. Pois a eloquência mal coube a um ou outro, ou melhor, se acreditarmos em Marco Antônio, a ninguém; já esta que Cândido chama de loquacidade coube a muitos, e sobretudo a cada um dos mais despudorados.
No dia seguinte, falou por Vareno o Homulo, com astúcia, energia e refinamento; em contrário, Nigrino, com concisão, gravidade e elegância. Acílio Rufo, cônsul designado, propôs que se concedesse aos bitínios a investigação, e passou em silêncio sobre o pedido de Vareno.
Esta foi uma forma de negar. Cornélio Prisco, ex-cônsul, concedeu tanto aos acusadores o que pediam quanto ao réu, e venceu pelo número. Conseguimos algo não previsto em lei nem muito usual, mas, ainda assim, justo.
Por que é justo, não vou explicar na carta, para que você sinta falta da atuação. Pois, se é verdade aquele verso de Homero: 'os homens elogiam mais o canto que soa mais novo aos ouvintes', tenho de cuidar para não colher antecipadamente, com a loquacidade da carta, o encanto da novidade e o frescor que mais recomendam aquele pequeno discurso. Até logo.