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Contra Celso - Livro VIII
O Livro VIII na Obra
O Livro VIII é o oitavo e último da refutação que Orígenes escreveu, por volta de 248 d.C., contra o Discurso Verdadeiro de Celso, um tratado pagão composto cerca de 70 anos antes. É o clímax do confronto entre Igreja e Estado. Tudo gira em torno de uma frase do Sermão da Montanha que Celso citara para atacar os cristãos: ninguém pode servir a dois senhores. Para Celso, honrar os deuses subordinados e o imperador não ofenderia o Deus supremo, assim como honrar os funcionários de um rei não ofende o rei. A recusa cristã soava, portanto, como deslealdade e sedição contra a ordem pública.
Orígenes responde percorrendo os pontos mais sensíveis da convivência entre cristãos e o Império: a recusa de sacrifícios e do culto às estátuas, a abstenção das festas públicas e da carne sacrificada aos ídolos, a posição diante do serviço militar e dos cargos públicos, e o juramento pela fortuna do imperador. Ele sustenta que os cristãos oram pelo imperador, mas não o adoram, e que prestam ao Estado uma ajuda espiritual, não militar. O livro fecha com um epílogo dirigido a Ambrósio, o patrono que encomendou a obra. Convém lembrar a data: Orígenes escreveu pouco antes da perseguição de Décio, cujo edito de sacrifícios geral saiu por volta de 250 d.C., na qual ele próprio foi preso e torturado, morrendo alguns anos depois em consequência.
Conteúdo do Livro
- Ninguém pode servir a dois senhores: a recusa de adorar outros deuses — (Contra Celso - Livro VIII 1:3)
- Os cristãos como embaixadores de Cristo, que não se prostram diante de nenhum governante — (Contra Celso - Livro VIII 1:6)
- Antínoo, favorito de Adriano, divinizado por ordem imperial, não por Deus — (Contra Celso - Livro VIII 1:9)
- Por que os cristãos não erguem altares, estátuas nem templos — (Contra Celso - Livro VIII 2:17)
- Obedecer a Deus antes que aos demônios, ainda que custe a vida — (Contra Celso - Livro VIII 3:26)
- O dilema de Celso: ou abandonar a vida social, ou cultuar os deuses do Estado — (Contra Celso - Livro VIII 5:55)
- Lealdade ao Império, mas recusa de jurar pela fortuna do imperador — (Contra Celso - Livro VIII 6:65)
- Não pegar em armas pelo rei, mas ajudá-lo com a oração: um exército de piedade — (Contra Celso - Livro VIII 7:73)
- A Igreja como outra organização nacional dentro do Estado — (Contra Celso - Livro VIII 7:75)
- Epílogo a Ambrósio: a conclusão dos oito livros — (Contra Celso - Livro VIII 7:76)
O Culto Imperial e a Acusação de Deslealdade
No século III, o culto público romano não era opcional. Sacrificar aos deuses e ao genius (espírito divino) do imperador era um gesto de lealdade cívica, e a recusa equivalia a romper o pacto social. Celso pressiona exatamente nesse ponto: pede que os cristãos honrem os deuses subordinados e apoiem o imperador. O caso de Antínoo, favorito de Adriano divinizado por decreto após morrer afogado no Nilo por volta de 130 d.C., é usado por Orígenes como prova de que a divinização nascia da vontade de um imperador, não de Deus. A recusa de erguer altares e templos, e de participar de associações de culto, também expunha os cristãos à acusação de formarem uma sociedade secreta e proibida, o que no direito romano (collegium illicitum) era crime.
Demonologia e a Recusa dos Sacrifícios
A justificativa de Orígenes para não sacrificar é demonológica. Lendo o Salmo, ele afirma que todos os deuses dos pagãos são demônios, entidades reais e malignas, e não meras invenções. Sacrificar aos ídolos seria, então, sentar-se à mesa dos demônios, como Paulo advertira aos coríntios. Ao mesmo tempo, Orígenes constrói uma hierarquia de seres celestes intermediários, todos subordinados ao único Deus, num esforço de manter o monoteísmo. Sua cristologia, ao dizer que o Pai e o Filho são um na harmonia da vontade e que o Pai é maior do que o Filho, reflete a teologia anterior ao Concílio de Niceia (325); leitores posteriores debateram se isso tendia ao subordinacionismo. A própria doutrina origeniana da restauração final de todas as coisas, esboçada neste livro, foi mais tarde condenada como heresia no século VI.
“Nós, quando a ocasião requer, damos ajuda aos reis, e, por assim dizer, uma ajuda divina, vestindo toda a armadura de Deus.”Orígenes, Contra Celso - Livro VIII 7:73
Igreja e Estado nas Vésperas da Perseguição
O fim do livro é a passagem mais citada sobre a posição de Orígenes diante do poder. Ele aceita a lealdade civil, citando Paulo (toda alma esteja sujeita às autoridades superiores), mas recusa terminantemente jurar pela fortuna do imperador, porque isso equivalia a jurar por seu genius, e era justamente esse juramento que levava cristãos ao tribunal. Quanto ao serviço militar, recusa o combate físico e propõe a oração como contribuição: os cristãos seriam um exército de piedade. Historiadores debatem se isso reflete um pacifismo cristão generalizado no século III ou uma posição mais específica, já que há evidência de cristãos servindo no exército romano da época. Por fim, Orígenes apresenta a Igreja como outra organização nacional dentro do Estado, uma sociedade paralela com seus próprios governantes, décadas antes de Constantino.
Relevância
O Livro VIII formula, em termos antigos, a tensão duradoura entre obediência a Deus e obediência ao Estado. A recusa de adorar o que o poder manda adorar, mantendo a lealdade civil em tudo o mais, é o núcleo do problema da liberdade de consciência, e por isso o texto é lido ainda hoje em discussões sobre objeção de consciência, serviço militar e religião civil. Convém manter a distância crítica: Orígenes responsabiliza coletivamente o povo judeu pela morte de Jesus e lê a destruição de Jerusalém em 70 d.C. como castigo divino, leituras que a crítica histórica explica pelo contexto da guerra judaico-romana e que a teologia contemporânea em boa parte rejeita por seu peso na história do antissemitismo. Ainda assim, o livro preserva, citado pelo próprio adversário, o melhor retrato que temos do que um pagão culto do século II tinha a objetar ao cristianismo.