Contra Celso - Livro VIII 2

Os demônios, o culto a Deus e a lealdade ao Estado

Celso prossegue: se vocês lhes dissessem que Jesus não é o Filho de Deus, mas que Deus é o Pai de todos, e que a ele se deve verdadeiramente adorar, eles não consentiriam em abandonar a adoração daquele que é seu líder na sedição. E o chamam de Filho de Deus, não por nenhuma reverência extrema a Deus, mas por um desejo extremo de exaltar Jesus Cristo. Nós, no entanto, aprendemos quem é o Filho de Deus, e sabemos que ele é o resplendor de sua glória e a expressa imagem de sua pessoa, e o sopro do poder de Deus, e uma influência pura que flui da glória do Todo-Poderoso; mais ainda, o resplendor da luz eterna, o espelho sem mácula do poder de Deus, e a imagem de sua bondade. Sabemos, portanto, que ele é o Filho de Deus, e que Deus é seu pai. E não nada de extravagante ou impróprio do caráter de Deus na doutrina de que ele tenha gerado tal Filho Unigênito; e ninguém nos persuadirá de que tal Filho não seja Filho do Deus não gerado e Pai. Se Celso ouviu algo de certas pessoas que sustentam que o Filho de Deus não é o Filho do Criador do universo, isso é assunto que fica entre ele e os defensores de tal opinião. Jesus não é, então, o líder de nenhum movimento sedicioso, mas o promotor da paz. Pois ele disse aos seus discípulos: deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; e, como sabia que seriam homens do mundo, e não homens de Deus, os que guerreariam contra nós, ele acrescentou: não vos dou a paz como o mundo a dá. E, ainda que sejamos oprimidos no mundo, temos confiança naquele que disse: no mundo tereis aflição; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo. E é a ele que chamamos Filho de Deus, Filho daquele Deus, a saber, a quem, para citar as palavras de Celso, reverenciamos mais que a tudo; e ele é o Filho que foi exaltado pelo Pai acima de tudo. Admitamos que possa haver alguns indivíduos, entre as multidões de crentes, que não estão em inteiro acordo conosco, e que afirmam incautamente que o Salvador é o Deus Altíssimo; contudo, não concordamos com eles, mas antes cremos nele quando diz: o Pai que me enviou é maior do que eu. Não faríamos, portanto, aquele a quem chamamos Pai inferior, como Celso nos acusa de fazer, ao Filho de Deus.
Celso prossegue dizendo: para que eu uma representação fiel de sua fé, usarei suas próprias palavras, tais como se encontram no que se chama um Diálogo Celestial: 'Se o Filho é mais poderoso do que Deus, e o Filho do homem é Senhor sobre ele, quem mais senão o Filho pode ser Senhor sobre aquele Deus que é o governante de todas as coisas? Como é que, enquanto tantos rodeiam o poço, ninguém desce até ele? Por que você tem medo, depois de ter avançado tanto pelo caminho? Resposta: você se engana, pois não me faltam nem coragem nem armas.' Não é evidente, então, que suas opiniões são exatamente como as descrevi? Eles supõem que outro Deus, que está acima dos céus, é o Pai daquele a quem, de comum acordo, honram, para que honrem somente esse Filho do homem, a quem exaltam sob a forma e o nome do grande Deus, e que afirmam ser mais forte do que Deus, que governa o mundo, e que ele governa sobre ele. E daí aquela máxima deles, impossível servir a dois senhores', que é mantida com o propósito de sustentar o partido que está do lado deste Senhor. Aqui, mais uma vez, Celso cita opiniões de alguma seita herética obscuríssima e as atribui a todos os cristãos. Chamo-a de seita obscuríssima; pois, embora tenhamos muitas vezes debatido com hereges, não conseguimos descobrir de que conjunto de opiniões ele tirou essa passagem, se é que de fato a citou de algum autor, e não a inventou ele mesmo, ou a acrescentou como inferência própria. Pois nós, que dizemos que o mundo visível está sob o governo daquele que criou todas as coisas, declaramos com isso que o Filho não é mais poderoso do que o Pai, mas inferior a ele. E baseamos essa crença no dito do próprio Jesus: o Pai que me enviou é maior do que eu. E nenhum de nós é tão insano a ponto de afirmar que o Filho do homem é Senhor sobre Deus. Mas, quando consideramos o Salvador como Deus o Verbo, e Sabedoria, e Justiça, e Verdade, certamente dizemos que ele tem domínio sobre todas as coisas que lhe foram sujeitadas nessa qualidade, mas não que seu domínio se estenda sobre o Deus e Pai que é Governante de tudo. Além disso, como o Verbo não governa ninguém contra a vontade, ainda seres maus, não homens, mas também anjos e todos os demônios, sobre os quais dizemos que, num certo sentido, ele não governa, que não lhe prestam obediência voluntária; mas, em outro sentido da palavra, ele governa até sobre eles, do mesmo modo que dizemos que o homem governa os animais irracionais, não por persuasão, mas como quem doma e subjuga leões e bestas de carga. Ainda assim, ele não deixa de tentar todos os meios para persuadir até os que ainda são desobedientes a submeter-se à sua autoridade. No que nos diz respeito, portanto, negamos a verdade daquilo que Celso cita como um de nossos ditos: quem mais senão ele pode ser Senhor sobre aquele que é Deus sobre tudo?
A parte restante do trecho apresentado por Celso parece ter sido tirada de alguma outra forma de heresia, e o todo amontoado em estranha confusão: como é que, enquanto tantos rodeiam o poço, ninguém desce até ele? Por que você recua de medo, depois de ter avançado tanto pelo caminho? Resposta: você se engana, pois não me faltam nem coragem nem armas. Nós, que pertencemos à Igreja que toma seu nome de Cristo, afirmamos que nenhuma dessas declarações é verdadeira. Pois ele parece tê-las feito simplesmente para que se harmonizassem com o que dissera antes; mas elas não têm referência a nós. Pois é um princípio entre nós não adorar nenhum deus que apenas suponhamos existir, mas somente aquele que é o Criador deste universo, e de todas as demais coisas que são invisíveis ao olho dos sentidos. Estas observações de Celso podem aplicar-se aos que seguem por outra estrada e trilham caminhos diferentes dos nossos, homens que negam o Criador e fazem para si outro deus sob uma nova forma, tendo apenas o nome de Deus, a quem estimam mais alto que o Criador; e a estes podem juntar-se quaisquer que existam que digam que o Filho é maior do que o Deus que governa todas as coisas. Quanto ao preceito de que não devemos servir a dois senhores, mostramos o que nos parece ser o princípio nele contido, quando provamos que nenhuma sedição ou deslealdade pode ser imputada aos seguidores de Jesus, seu Senhor, que confessam rejeitar todo outro senhor e servir somente a ele, que é o Filho e Verbo de Deus.
Celso então prossegue dizendo que nos recusamos a erguer altares, estátuas e templos; e isso, ele pensa, foi acordado entre nós como o emblema ou a marca distintiva de uma sociedade secreta e proibida. Ele não percebe que consideramos o espírito de todo homem bom como um altar do qual se ergue um incenso que é verdadeira e espiritualmente perfumado, a saber, as orações que sobem de uma consciência pura. Por isso João diz no Apocalipse: os perfumes são as orações dos santos; e o salmista: suba a minha oração à tua presença como incenso. E as estátuas e ofertas que são oferendas dignas de Deus não são obra de artífices comuns, mas são lavradas e moldadas em nós pelo Verbo de Deus, a saber, as virtudes em que imitamos o Primogênito de toda a criação, que nos deu o exemplo de justiça, de temperança, de coragem, de sabedoria, de piedade e das demais virtudes. Em todos, então, que plantam e cultivam dentro de suas almas, segundo o verbo divino, temperança, justiça, sabedoria, piedade e outras virtudes, são essas excelências as estátuas que erguem, nas quais estamos persuadidos de que nos convém honrar o modelo e protótipo de todas as estátuas: a imagem do Deus invisível, Deus o Unigênito. E, novamente, os que se despem do velho homem com seus feitos e se revestem do novo homem, que se renova em conhecimento segundo a imagem daquele que o criou, ao tomarem sobre si a imagem daquele que os criou, erguem dentro de si uma estátua semelhante àquilo que o próprio Deus Altíssimo deseja. E, assim como entre os escultores alguns que são admiravelmente perfeitos em sua arte, como por exemplo Fídias e Policleto, e entre os pintores Zêuxis e Apeles, enquanto outros fazem estátuas inferiores, e outros, ainda, são inferiores aos artistas de segunda ordem, de modo que, tomando todos juntos, uma grande diferença na execução de estátuas e pinturas, do mesmo modo alguns que formam imagens do Altíssimo de maneira melhor e com perícia mais perfeita; de modo que não comparação alguma sequer entre o Júpiter Olímpico de Fídias e o homem que foi moldado segundo a imagem de Deus, o Criador. Mas, de longe a mais excelente de todas essas imagens em toda a criação é aquela em nosso Salvador, que disse: meu Pai está em mim.
E todo aquele que o imita conforme sua capacidade, por esse próprio esforço ergue uma estátua segundo a imagem do Criador, pois, na contemplação de Deus com um coração puro, eles se tornam imitadores dele. E, de modo geral, vemos que todos os cristãos se esforçam por erguer altares e estátuas como as que descrevemos, e estas não de tipo sem vida e sem sentido, e não para receber espíritos ávidos, voltados para coisas sem vida, mas para serem cheios do Espírito de Deus que habita nas imagens da virtude de que falamos, e que faz sua morada na alma que está conformada à imagem do Criador. Assim, o Espírito de Cristo habita naqueles que trazem, por assim dizer, uma semelhança de forma e feição com ele mesmo. E o Verbo de Deus, querendo nos pôr isso claramente diante dos olhos, representa Deus prometendo aos justos: habitarei neles e andarei entre eles; e serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. E o Salvador diz: se alguém ouvir as minhas palavras e as praticar, eu e meu Pai viremos a ele e faremos nele a nossa morada. Que qualquer um, portanto, que assim escolher, compare os altares que descrevi com os mencionados por Celso, e as imagens nas almas dos que adoram o Deus Altíssimo com as estátuas de Fídias, Policleto e semelhantes, e perceberá claramente que, enquanto estas são coisas sem vida e sujeitas aos estragos do tempo, aquelas permanecem no espírito imortal enquanto a alma racional quiser preservá-las.
E se, além disso, templos houverem de ser comparados com templos, para que provemos aos que aceitam as opiniões de Celso que não nos opomos à construção de templos adequados às imagens e altares de que falamos, mas que de fato recusamos construir templos sem vida ao Doador de toda a vida, que qualquer um que assim escolher aprenda como somos ensinados que nossos corpos são o templo de Deus, e que, se alguém, por luxúria ou pecado, profanar o templo de Deus, ele mesmo será destruído, por agir de modo ímpio para com o verdadeiro templo. De todos os templos mencionados nesse sentido, o melhor e mais excelente foi o corpo puro e santo de nosso Salvador Jesus Cristo. Quando ele soube que homens ímpios poderiam intentar a destruição do templo de Deus nele, mas que seus propósitos de destruição não prevaleceriam contra o poder divino que havia edificado aquele templo, ele lhes diz: destruí este templo, e em três dias eu o levantarei de novo... Isso ele disse a respeito do templo do seu corpo. E em outras partes da sagrada Escritura, onde se fala do mistério da ressurreição aos que têm os ouvidos divinamente abertos, diz-se que o templo que foi destruído será reedificado com pedras vivas e preciosíssimas, dando-nos a entender com isso que cada um dos que são conduzidos pelo verbo de Deus a se esforçarem juntos nos deveres da piedade será uma pedra preciosa no único grande templo de Deus. Por isso Pedro diz: vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual, sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por Jesus Cristo; e Paulo também diz: edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo Jesus Cristo nosso Senhor a principal pedra angular. E uma alusão oculta semelhante nesta passagem de Isaías, que é dirigida a Jerusalém: eis que assentarei as tuas pedras com carbúnculos e lançarei os teus fundamentos com safiras. E farei as tuas ameias de jaspe, e as tuas portas de cristal, e todos os teus limites de pedras agradáveis. E todos os teus filhos serão ensinados pelo Senhor; e grande será a paz de teus filhos. Em justiça serás estabelecida.
Há, então, entre os justos alguns que são carbúnculos, outros safiras, outros jaspes e outros cristais, e assim entre os justos toda espécie de pedra escolhida e preciosa. Quanto ao sentido espiritual das diferentes pedras, qual é a sua natureza e a que tipo de alma se aplica especialmente o nome de cada pedra preciosa, não podemos no momento deter-nos a examinar. Sentimos apenas ser necessário mostrar assim brevemente o que entendemos por templos, e o que verdadeiramente significa o único Templo de Deus edificado com pedras preciosas. Pois, como se em algumas cidades surgisse uma disputa sobre qual tinha os mais belos templos, aqueles que julgassem os seus os melhores fariam o máximo para mostrar a excelência de seus próprios templos e a inferioridade dos outros, do mesmo modo, quando nos censuram por não acharmos necessário adorar o Ser Divino erguendo templos sem vida, expomos a eles os nossos templos, e mostramos, ao menos àqueles que não são cegos e insensíveis como seus insensíveis deuses, que não comparação entre nossas estátuas e as estátuas dos pagãos, nem entre nossos altares, com o que podemos chamar de incenso que deles sobe, e os altares pagãos, com a gordura e o sangue das vítimas; nem, por fim, entre os templos de deuses insensíveis, admirados por homens insensíveis, que não têm faculdade divina para perceber a Deus, e os templos, estátuas e altares que são dignos de Deus. Não é, portanto, verdade que nos opomos a construir altares, estátuas e templos porque concordamos em fazer disso o emblema de uma sociedade secreta e proibida; mas o fazemos porque aprendemos de Jesus Cristo o verdadeiro modo de servir a Deus, e nos esquivamos de tudo o que, sob um pretexto de piedade, conduz à total impiedade aqueles que abandonam o caminho que nos foi traçado por Jesus Cristo. Pois é ele quem, sozinho, é o caminho da piedade, como ele verdadeiramente disse: eu sou o caminho, a verdade, a vida.
Vejamos o que Celso ainda diz sobre Deus e como nos exorta a usar aquelas coisas que se chamam propriamente oferendas de ídolos, ou, melhor ainda, oferendas a demônios, embora ele, por ignorar o que é a verdadeira santidade e quais sacrifícios agradam a Deus, os chame de sacrifícios sagrados. Suas palavras são: Deus é o Deus de todos por igual; ele é bom, não precisa de nada e está livre de inveja. O que há, então, que impeça os mais dedicados ao seu serviço de tomar parte nas festas públicas. Não consigo ver a conexão que ele imagina entre Deus ser bom, independente e livre de inveja, e os servos dedicados a ele tomarem parte nas festas públicas. Confesso, de fato, que do fato de Deus ser bom, não precisar de nada e estar livre de inveja, seguiria como consequência que poderíamos tomar parte nas festas públicas, se ficasse provado que essas festas nada têm de errado e se fundam em visões verdadeiras a respeito do caráter de Deus, de modo que resultassem naturalmente de um serviço piedoso a Deus. Se, no entanto, as chamadas festas públicas não podem de modo algum ser mostradas como concordes com o serviço de Deus, mas, pelo contrário, podem ser provadas como invenções de homens que, quando surgia a ocasião, comemoravam algum acontecimento humano, ou exibiam certas qualidades da água ou da terra, ou dos frutos da terra, nesse caso fica claro que aqueles que desejam oferecer um culto esclarecido ao Ser divino agirão segundo a razão e não tomarão parte nas festas públicas. Pois celebrar uma festa, como bem disse um dos sábios da Grécia, não é nada além de cumprir o próprio dever; e aquele homem celebra de verdade uma festa que cumpre seu dever e ora sempre, oferecendo continuamente sacrifícios sem sangue em oração a Deus. Por isso me parece nobilíssimo aquele dito de Paulo: Vocês observam dias, meses, tempos e anos. Temo por vocês, que eu tenha trabalhado em vão por vocês.
Se a esse respeito nos for objetado que nós mesmos costumamos observar certos dias, como por exemplo o dia do Senhor, a Preparação, a Páscoa ou o Pentecostes, tenho a responder que, para o cristão perfeito, que está sempre em seus pensamentos, palavras e obras servindo a seu Senhor natural, Deus o Verbo, todos os seus dias são do Senhor, e ele está sempre guardando o dia do Senhor. Também aquele que sem cessar se prepara para a verdadeira vida e se abstém dos prazeres desta vida que tantos desviam, que não cede à concupiscência da carne, mas mantém seu corpo sob domínio e o sujeita, esse tal está sempre guardando o dia da Preparação. Novamente, aquele que considera que Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado por nós, e que é seu dever celebrar a festa comendo da carne do Verbo, nunca cessa de guardar a festa pascal; pois a páscoa significa uma passagem, e ele se esforça sempre, em todos os seus pensamentos, palavras e obras, por passar das coisas desta vida a Deus, apressando-se rumo à cidade de Deus. E, por fim, aquele que pode dizer com verdade: Ressuscitamos com Cristo, e ele nos exaltou e nos fez assentar com ele nos lugares celestiais em Cristo, está sempre vivendo na estação do Pentecostes; e mais do que tudo quando, subindo ao cenáculo como os apóstolos de Jesus, ele se entrega à súplica e à oração, para que se torne digno de receber o vento poderoso que desce do céu, capaz de destruir o pecado e seus frutos entre os homens, e digno de ter alguma parte da língua de fogo que Deus envia.
Mas a maioria daqueles que são tidos por crentes não pertence a essa classe avançada; por serem incapazes ou por não quererem guardar todos os dias dessa maneira, precisam de alguns marcos sensíveis para impedir que as coisas espirituais escapem por completo de suas mentes. É a essa prática de separar alguns dias dos outros que Paulo, segundo me parece, se refere na expressão parte da festa; e com essas palavras ele indica que uma vida conforme a palavra divina não consiste numa parte da festa, mas numa única festa inteira e que jamais cessa. Novamente, compare as festas observadas entre nós, conforme descritas acima, com as festas públicas de Celso e dos pagãos, e diga se as primeiras não são observâncias muito mais sagradas do que aquelas festas em que a concupiscência da carne corre solta e leva à embriaguez e à devassidão. Seria longo demais para nós, no momento, mostrar por que a lei de Deus nos manda guardar suas festas comendo o pão da aflição, ou os pães sem fermento com ervas amargas, ou por que ela diz: Humilhem as suas almas, e coisas assim. Pois é impossível ao homem, que é um ser composto, no qual a carne tem desejos contra o Espírito, e o Espírito contra a carne, guardar a festa com toda a sua natureza; pois ou ele guarda a festa com seu espírito e aflige o corpo, que pela concupiscência da carne está inapto a guardá-la junto com o espírito, ou então a guarda com o corpo, e o espírito não consegue tomar parte nela. Mas, por ora, dissemos o suficiente sobre o tema das festas.
Vejamos agora com que fundamentos Celso nos exorta a usar as oferendas de ídolos e os sacrifícios públicos nas festas públicas. Suas palavras são: Se esses ídolos não são nada, que mal haverá em tomar parte na festa? Por outro lado, se são demônios, é certo que também eles são criaturas de Deus, e que devemos crer neles, sacrificar-lhes segundo as leis e orar a eles para que nos sejam propícios. Em referência a essa afirmação, seria proveitoso para nós retomar e explicar com clareza toda a passagem da primeira Epístola aos Coríntios, na qual Paulo trata das oferendas aos ídolos. O apóstolo extrai do fato de que um ídolo nada é no mundo a consequência de que é prejudicial usar coisas oferecidas aos ídolos; e mostra àqueles que têm ouvidos para ouvir tais assuntos que aquele que participa de coisas oferecidas aos ídolos é pior do que um assassino, pois destrói seus próprios irmãos, por quem Cristo morreu. E mais, ele sustenta que os sacrifícios são feitos a demônios; e disso passa a mostrar que aqueles que se juntam à mesa dos demônios tornam-se associados aos demônios; e conclui que um homem não pode ser ao mesmo tempo participante da mesa do Senhor e da mesa dos demônios. Mas, como exigiria um tratado inteiro expor plenamente tudo o que sobre esse assunto na Epístola aos Coríntios, contentar-nos-emos com esta breve exposição do argumento; pois ficará evidente a qualquer um que considere com cuidado o que foi dito que, mesmo que os ídolos não sejam nada, ainda assim é coisa terrível juntar-se às festas idólatras. E mesmo supondo que existam tais seres como demônios a quem os sacrifícios são oferecidos, ficou claramente mostrado que nos é proibido tomar parte nessas festas, uma vez que conhecemos a diferença entre a mesa do Senhor e a mesa dos demônios. E sabendo disso, esforçamo-nos quanto podemos por ser sempre participantes da mesa do Senhor, e nos guardamos ao máximo de jamais nos juntar à mesa dos demônios.