Contra Celso - Livro VIII 6

Os demônios, o culto a Deus e a lealdade ao Estado

Além disso, devemos desprezar a ideia de cair nas graças de reis ou de quaisquer outros homens, não se o favor deles se ganha com assassinatos, devassidão ou atos de crueldade, mas mesmo se isso implica impiedade para com Deus, ou quaisquer expressões servis de bajulação e subserviência, coisas indignas de homens corajosos e de altos princípios, que buscam unir às suas outras virtudes a mais alta delas, a paciência e a fortaleza. Mas, embora nada façamos que seja contrário à lei e à palavra de Deus, não somos tão insensatos a ponto de provocar contra nós a ira de reis e príncipes, que trará sobre nós sofrimentos e tormentos, ou mesmo a morte. Pois lemos: Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores. Porque não autoridade que não venha de Deus; e as autoridades que existem foram ordenadas por Deus. Quem, portanto, resiste à autoridade, resiste à ordenação de Deus. Essas palavras nós as explicamos longamente em nossa exposição da Epístola aos Romanos, da melhor maneira que pudemos, com diversas aplicações; mas, por ora, tomamo-las em seu sentido mais óbvio e geralmente aceito, para responder à afirmação de Celso de que não é sem o poder dos demônios que os reis foram elevados à sua dignidade régia. Aqui muito poderia ser dito sobre a constituição de reis e governantes, pois o assunto é amplo, abrangendo tanto governantes que reinam com crueldade e tirania, quanto os que fazem do ofício régio o meio de se entregar ao luxo e a prazeres pecaminosos. Por isso, por ora, deixaremos de lado a consideração plena deste tema. Nunca, no entanto, juraremos pela fortuna do rei, nem por qualquer outra coisa tida como equivalente a Deus. Pois se a palavra fortuna nada mais é que uma expressão para o curso incerto dos acontecimentos, como dizem alguns, embora não pareçam estar de acordo, não juramos por isso como Deus, por algo que não tem existência, como se realmente existisse e fosse capaz de fazer algo, para não nos ligarmos por juramento a coisas que não têm existência. Se, por outro lado (como pensam outros, que dizem que jurar pela fortuna do rei dos romanos é jurar por seu demônio), o que se chama a fortuna do rei está no poder dos demônios, então, nesse caso, devemos morrer antes que jurar por um demônio perverso e traiçoeiro, que muitas vezes peca junto com o homem do qual toma posse, e peca até mais que ele.